quinta-feira, 8 de outubro de 2026
mercado do monte castelo
Bem, a inspiração primeira desse texto compareceu ao sentir o odor de um fígado sendo preparado na frigideira de um box localizado dentro do mercado da rua Raimundo Correia, bairro Monte Castelo, cidade de São Luís. Chegava a hora do almoço e um odor desses era facilmente identificável. A partir dessa situação, outras situações seriam notadas como o da costureira do lado que refletia sobre rins e outras comedorias e também a da moça negra que cozinhava mocotó numa panela de pressão para vender no dia seguinte. Em se tratando de mercados, comer e um assunto que perpassa qualquer conversa. No entanto, outro assunto saltava aos olhos. O mercado da Raimundo Correia, assim como todos os mercados de São Luís, não oferece uma praça no seu entorno. Diferente do que acontece com bibliotecas, hospitais, igrejas, escolas e etc. A relação dos mercados se dá com as ruas. Isso se deve, e claro, ao fato de ser um espaço de comercialização e consumo, em que todas as atividades se concentram no interior dos mercados. Os shoppings centers que descendem em parte dos mercados encontraram uma solução para esse dilema: criaram praças de alimentação internamente. A inexistência de uma praça acarreta um corte na ligação entre o interno e o externo do mercado. O indivíduo faz suas compras e se manda. Não importa a arborização, a coleta de lixo, a sinalização de trânsito, esgoto a céu aberto e por aí vai.
as lacunas
Não sabia como chegara aquela conclusão, mas, se seus olhos não tivessem mentindo, pela pista da direita, que seguia em direção ao centro, moviam se menos carros do que pela pista da esquerda que seguia em direção a saída da cidade. Aparentemente, uma constatação banal. Para ele, entretanto, não interessava o número de veículos que trafegavam e sim o vácuo que surgia entre as levas de carros. Em um desses vácuos, um rapaz caminhava carregando um galão de água mineral. Em outro vácuo de carros, um cachorro vira lata se apressava intencionando obter um alimento. Essas duas visões contrastavam com os ipês rosas floridos e com as casas pouco afeitas a conversas.
cerrado não está a venda
Discorrer sobre o Cerrado. Começar por onde ? O cerrado e o eixo basilar da vida dos maranhenses. Do ponto de vista ambiental, e o bioma que mais economiza recursos e isso se verifica pela vegetação cujas raízes vão buscar água para depois crescerem rumo ao céu. O Cerrado e tanto um ponto de partida como um ponto de chegada. Nos meses de julho e dezembro, as famílias que se mudaram para as grandes cidades, atrás de trabalho e educação retornavam para suas cidades natais para passar as férias e quase sempre essas cidades natais se localizavam no Cerrado. As famílias procuravam o que não encontravam nas grandes cidades: comida saudável, ar puro, tranquilidade, parentes, amigos, rios, córregos, florestas, brincadeiras, juventude, ingenuidade e etc. Por muito tempo, essas jornadas eram feitas através dos rios que nasciam nas Chapadas dos Cerrados e desembocavam.nas baias de São Marcos e Sao José de Ribamar no litoral de São Luís. Os rios faziam os elos entre a zona rural e a zona urbana. Rios como: Mearim, Itapecuru, Parnaíba, Munim, preguiça e etc. Nessas jornadas que se davam tanto por rios como por via terrestre apanhava se frutas das mais variadas como bacuri murici Buriti pequi. Era uma fartura. Interessante como essa impressão de fartura permanece mesmo passados vários anos. Na realidade essa fartura ficou para trás e uma das causas e a extração de gás no cerrado maranhense realizada pela Eneva que atinge comunidades tradicionais e quilombolas no vale do Mearim. A Eneva pode alegar que ao assumir o empreendimento em Santo Antônio dos Lopes todo o processo de licenciamento fora finalizado. Só que nessa altura do campeonato as comunidades tradicionais e quilombolas não foram informadas dos impactos sócio ambientais que esse tipo de empreendimento causa. Quais os impactos no lençol freático nas águas superficiais no ar no solo na produção agrícola na saúde física saúde mental nas florestas na biodiversidade e nos direitos territoriais. A Eneva não pode alegar total desconhecimento que o seu empreendimento afeta comunidades tradicionais e quilombolas até porque recentemente devolveu blocos que sobrepunham a uma terra indígena e a um território quilombola. No entanto, ela ainda não devolveu os blocos que arrematou em Capinzal do Norte onde vivem várias comunidades quilombolas e faz de conta que está tudo bem com as comunidades quilombolas de Lima Campos. O leilão que deve acontecer em outubro evidência mais uma vez essa visão empresarial que evitam as questões sócio ambientais desde que o lucro seja promissor. Sabe se que um dos blocos a serem leiloados se sobrepõe a territórios quilombolas no município de Vargem grande e incide sobre a bacia do rio Munim que abastece vários municípios e povoados do leste maranhense.
barão de grajau
Entre Barão de Grajaú São João dos Patos e Sucupira do Riachão não se via nada e muito menos se escutava algo. Sinceras desculpas. Não se via nada e maneira de dizer. Chega a ser indelicado e grosseiro. Indigno como as afirmações do agronegócio de que "não havia nada só Cerrado".Afirmações discriminatorias que baseiam a destruição do cerrado como se vê em grande parte do Maranhão. No Cerrado e permitido desmatar a vontade sem prestar conta. O estado do Maranhão e nisso inclui se governo do Maranhão MP judiciário entrou numa de propor acordo em áreas de litígio envolvendo agronegócio e comunidades tradicionais e quilombolas. Então levando em consideração esses acordos que foram deletérios para as comunidades quilombolas e tradicionais denunciar esses acordos. Também denunciar a equatorial que se nega a ligar a luz da comunidade tradicional de Santa Luz em Sucupira do Riachão favorecendo assim o grileiro advogado da prefeitura que quer tomar as terras da comunidade.
tenha duvidas
Se você quiser ser um grande escritor tenha dúvidas. A dúvida e a essência do pensamento. Por essa razão, antes de escrever tenha dúvidas e as tire. Mantenha as dúvidas acesas caso as explicações não sejam suficientes. O governo federal celebrou um acordo em que o grupo João Santos entregou milhares de hectares com a finalidade de abater a divida que tem. Esses hectares seriam destinados a reforma agrária. No caso do Maranhão, esses milhares de hectares estão espalhados pelo leste maranhense. A partir dos anos 70, o grupo João Santos passou a concentrar terras num amplo processo de grilagem de terras envolvendo cartórios e interesses políticos para sustentar sua produção de açúcar álcool e papel. Essa concentração de terras se deu em cima de terras devolutas como e o caso do Brejo Dantas e Macajuba/cipó, município de Chapadinha, estado do Maranhão.A empresa comprava uma propriedade e registrava as chapadas, aumentando e muito a área original.Tudo isso pensando em um aumento de demanda por parte do mercado interno e internacional nos anos 70 e 80, o que não aconteceu tendo em vista a crise do petróleo que empobreceu as economias do mundo todo. Portanto, essas áreas ficaram paradas do ponto de vista do mercado, mas o grupo João Santos exercia forte intimidação para que as comunidades obedecessem seus desígnios e não lutassem por seus direitos a terra a produção e a moradia. Na década de 2010, o grupo João Santos pediu falência e os herdeiros venderam diversos ativos. Alguns desses ativos foram justamente as terras que o grupo grilou. Como eram terras públicas, essas terras foram arrendadas e não vendidas porque a documentação devia ser fraudada. Então o grupo João Santos arrendou as Chapadas para os gaúchos desmatarem e plantarem soja e entregou os baixoes para o governo federal transformar em assentamentos da reforma agrária. Como sempre, a melhor parte fica para o agronegócio enquanto as comunidades tradicionais se espremem em termos de área e recursos naturais.
dona do bar
A improvisação se reflete na cultura. A dona do bar se balançava na rede e se levantava a contra gosto para atender os clientes. Escutava se faith no more e ao mesmo tempo enchia se com farinha de puba e ovos cozidos. 'Cara, a inteligência artificial está fazendo mistura de vários cantores numa só música. Amy ayhouse e Bob Marley" . Resposta" Não tenho interesse. Elaborar uma obra para um ser humano depende de uma pergunta: por quê. Por que se vem só mundo e etc. A inteligência artificial não e capaz de fazer esse tipo de pergunta". Esse e o supra sumo da improvisação. Um boteco erguido acima do nível da avenida no qual a proprietária faz o maior esforço para levantar da rede, abrir o freezer, carregar a cerveja, servir os clientes e ainda cozinhar ovos para o cliente preferido. O mundo não é tão injusto quanto parece. Podia ser pior. A cerveja era Itaipava. Teve vezes que era glacial.
leitura
A leitura favorece que o indivíduo estruture a interpretação da realidade. A respeito do Maranhão, o que é mais correto de afirmar: que o maranhense é mais comedor de arroz ou mais comedor de farinha? (Essa pergunta remete de certa forma ao antropólogo Nina Rodrigues que pretendia pesquisar a farinha de mandioca e por ser comida de pobre a elite maranhense tocou ele pra fora). Antes de tentar responder, é bom ter em mente que os maranhenses do litoral são mais afeitos ao arroz enquanto que os maranhenses dos interiores são mais afeitos a farinha. Diz se isso por uma questão lógica: o arroz e uma cultura exotica que veio pelo mar e a farinha vinha sendo trabalhada há séculos pelos indígenas no Cerrado e na Amazônia. E claro que existem zonas de intersecção entre uma cultura e outra. No prato, uma cultura não exclui a outra. Elas interagem. Com relação ao eucalipto e a soja, a história e bem diferente. Essas duas culturas expulsam culturas alimentares tradicionais. A Aço verde Brasil, que produz carvão vegetal a partir das monocultura do eucalipto, denunciou a comunidade tradicional de Formiga, município de Anapurus porque os moradores faziam suas roças de mandioca.. A AVB alegava que os moradores da formiga haviam invadido suas propriedades. Comparem quarenta cinquenta mil hectares de plantios da AVB com 600 hectares que os moradores da Formiga lutam para conquistar. Quem invadiu o que no Baixo Parnaíba para conseguir seus objetivos? A alimentação e um direito natural de o ser humano e o plantio de monoculturas e um direito das grandes empresas lucrarem.
fotos
"Eu gosto muito das fotos das viagens que o Mayron posta no grupo de whatsapp", comentou Adilson Vieira coordenador do GTA. "Como ele descobriu esses lugares? Eu clico no mapa na internet e tenho a sensação de um vazio, mas surpreendentemente surge uma estrada do nada que leva a comunidades", complementou Adilson. Ele se referia às viagens do jornalista Mayron Regis pelos Cerrados do Maranhão. Provavelmente, uma das últimas fotos que Adilson viu foi a da viagem ao quilombo Tanque da Rodagem, município de Matões, onde se realizou o encontro da Teia. O jornalista fotografou Marquinho Mota, do fórum da Amazônia oriental, de frente para José Orlando, do Movimento quilombola do Maranhão, que almoçava arroz, feijão com abóbora e quiabo e carne de gado frita. Os donos da casa assistiam os dois de lado. O arroz, o feijão, a abóbora e o quiabo vieram da roça dos donos da casa. A dona Maria cozinhou tudo no azeite de coco babaçu. Às vezes, em algumas fotos, vê-se mais do que o pretendido pelo fotógrafo. A foto lembrava a pintura "Os comedores de batata" do pintor Vincent Van Gogh. Pela temática. Não se sabe se a intenção da fotografia era provocar essa lembrança. Mas também, de um certo modo, a fotografia lembrava Caravaggio pela luz. O claro escuro característico desse pintor italiano. Van Gogh buscava Deus em tudo. Caravaggio fugia de Deus em tudo que fazia.
a invenção da solidão
A invenção da solidão
Não saberia dizer qual século prevalecia sobre a cidade. Os vários séculos se entrelaçavam ditando as formas de convivência. O vendedor de sorvetes artesanais, sentado a porta do mercado, esgoelava se: "Bacuri da mata". Que bacuri ? Que Mata ? O que exatamente ele cantava, difícil dizer. Não havia bacuri e nem mata nas imediações. Ele se referia a algum momento específico da história da cidade ? De uma zona rural para a qual poucos afluiam e da qual se retornava com carroças carregadas de alimentos e outros produtos para suprir os comércios da cidade histórica? No século XVII, ergueu se poucas construções urbanas portanto a floresta e as águas predominavam e assim foi pelo século inteiro. A mão de obra escrava indígena determinava a produção e a locomoção pelo litoral. Isso incomodava os proprietários que não obtinham retorno financeiro esperado. Os proprietários nao enriqueceram com a escravidão indígena mas esta escravidão serviu para aplacar a solidão num Maranhão desconhecido por todo século XVII.
enceguado
A palavra "enceguerado" não era estranha aos seus ouvidos. Escutara de outras vezes. Não soara apaixonante. Porém, em dias atuais se apaixonaria pela palavra. O apaixonar se por uma palavra desemboca num texto. O seu Silva, pequeno proprietário do povoado Cabeceira do Magu, município de Santana, assim que viu a nascente principal do rio Magu, entrou dentro da água, molhando as pernas. Ele plantava mudas de mirim, ingaia e ipê junto com o Fórum Carajás e a ong Amigos do rio Magu. Em anos anteriores, o rio Magu secara e uma das razões foi as queimadas na Chapada. A outra razão foi o desmatamento das Chapadas pelos plantadores de soja entre Santana e Santa Quitéria. Seu Silva, ao lado de Mayron Regis, presidente do fórum carajás, externalizou um sentimento inundavel de sua infância : " eu devia ter uns dez anos e andava com meu pai. Estava "enceguerado" pelo gado. Nesses tempos havia tanta água na chapada que o gado tinha que dar a volta porque não atravessava". Como não se apaixonar pela palavra "enceguerado" na expressividade do seu Silva?
capitalismo
Agradeça ao capitalismo por ter transformado os desejos individuais em imagens que colonizavam a vida humana em todos os aspectos e em todos os sentidos. A humanidade sente a necessidade de comprovar sua existência através da produção de imagens e o capitalismo é o grande produtor de imagens para deleite da sociedade. Não interessa mais ao capitalismo a produção de imagens de uma forma tradicional a não ser como acessório do principal a não ser como fonte de pesquisa para um projeto e a não ser como lembrancinha de uma viagem qualquer. A produção e o consumo de imagens o tempo todo fornece a desculpa que o capitalismo precisa para destruir o tempo todo. A destruição o tempo todo não dá margem para o descanso o repouso a preservação e etc. Essa análise faz lembrar "pós modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio" do filósofo marxista Frederic Jameson e "Androides sonham com Ovelhas elétricas" do romancista distópico Philip K Dick. Produzia se imagens para colonizar o passado como fazia o cinema clássico americano em suas narrativas, narrativas que foram explodidas pelo cinema de Coppola Scorcese e Cimino no final da década de 70 e começo da década de 90. Produz se atualmente imagens para antecipar o futuro, um futuro que cada vez mais independe da realidade ambiental do planeta.
deserto
Cada vez mais, tem se a impressão que decisões judiciais ou movimentos do judiciário referentes a casos de conflitos fundiários no Maranhão são pensados para chegar a um acordo que favoreça o grileiro pecuarista plantador de soja e etc. A juíza da vara agrária deu uma decisão que garantia a posse de quase 300 hectares para a comunidade de Deserto que teve suas casas derrubadas pelo grupo Costa pinto no município de Aldeias Altas. Essa decisão levou um ano para ser tomada. Quinze dias depois um desembargador assinou uma decisão que restringia as famílias de Deserto a um hectare. Quanta rapidez. Como quase tudo no Maranhão e arbitrário, essa decisão é arbitrária porque não levou em consideração a decisão da vara agrária e determinando um hectare para cada família sendo que são famílias de agricultores. Quem vive em um hectare ? De que maneira o desembargador chegou a essa decisão e em tão pouco tempo? Em Deserto como em Gostoso, município de Aldeias Altas, Buriti dos Bois município de Chapadinha e tantas outras comunidades tradicionais e quilombolas do Maranhão, o latifundio age na grossura e na violência. Em Deserto, a Costa pinto derrubou as casas sem apresentar nenhum documento e ainda teve uma decisão favorável de um desembargador? Em Gostoso apareceu uma comissão vinculada ao TJ que intermedeia conflitos. Ora intermediar conflitos e para chegar a algum acordo e tem laudos periciais comprovando que Gostoso e terra do Estado do Maranhão só que o Iterma nunca fez nada para regularizar os 900 hectares para a associação. O Iterma não faz nada e ai o TJ aparece com uma comissão que claramente e para favorecer a Costa Pinto. O que não falta pelo Maranhão são exemplos desse tipo de acordo.
costa pinto
Escrever um texto requer um papel e uma caligrafia para se assentar uma palavra ou mais de uma palavra. Não e qualquer palavra que se escreve. E a palavra correta que ao ser escrita firma um compromisso. Tem vezes que esse compromisso fora prenunciado em conversas anteriores, mas essas conversas nao tinham caráter definitivo. Por isso e importante que essas conversas venham acompanhadas por um texto como e o caso de uma Ata. São diversos os casos de comunidades que são tradicionais do ponto de vista histórico sem que a justiça e o estado reconhecam esse fato. Isso acontece porque não basta a comunidade se reconhecer. E preciso que seja documentado. O Maranhão e um estado de comunidades tradicionais e quilombolas e extrativistas. Essas comunidades vêm perdendo seus espaços e suas identidades pelo avanço indiscriminado do agronegócio. A comunidade de gostoso e uma comunidade tradicional do município de Aldeias Altas que luta por quase 1000 hectares numa disputa ferrenha com o grupo Costa Pinto. A última alegação desse grupo e que a comunidade invadiu uma propriedade sua. E uma acusação improcedente porque além de ser uma comunidade tradicional gostoso e reconhecida pelos órgãos públicos como tradicional ( só a Costa pinto não reconhece). Uma comunidade tradicional não invade. Ela usa um determinado território de acordo com seu modo de vida. A comunidade de gostoso já usa esse território há mais de quarenta anos. E mais provavel que a Costa pinto seja invasora.
aldeias altas
Havia uma cidade aqui antes dessa cidade se formar. Uma cidade que não se sabia bem o nome, quantas pessoas nela moravam e que distância alcançava. Tampouco se sabia os nomes de rios igarapés e comunidades. Não tinha porque o povo saber dessas coisas porque o queria mais saber é de onde vinha o dinheiro. E o prefeito e os vereadores eram os mais interessados em dinheiro. Quanto mais interessados em dinheiro menos interessados em saber de outras coisas. O tanto de igarapés que não brotou mais uma gota dagua e que desapareceu da face da terra sem ninguém dar importância. Em contraposição, outros igarapés continuam despertos mesmo sem nome como o igarapé que nasce na comunidade Gostoso município de Aldeias Altas. Os moradores o tratam por igarapé sem especificar um nome, mas sabem os nomes dos igarapés maiores que ele deságua alagadiço e gameleira. Tudo terminando no rio Itapecuru. Se a comunidade de gostoso ( que o prefeito de Aldeias Altas afirmou que tomaria no ... em sua luta pelo território contra a empresa Costa Pinto) não estivesse lá os mais de 900 hectares que protegem o igarapé teriam virado plantio de cana.
tabatinga
Quase quatro horas de estradas íngremes e enfim foram agraciados com as visoes das Chapadas de Santa Quitéria e da comunidade de Tabatinga. De longe vieram beirando a bacia do rio Preguiça e por outras estradas retornariam. Tai um coisa para se investigar: o porquê do nome preguiça para essas águas límpidas e silentes. É verdade que dá vontade mesmo de não fazer mais nada a não ser se jogar e mergulhar fundo. Ainda dá, mas pode ser que a vontade passe porque em várias Chapadas de Anapurus Urbano Santos Santa Quitéria e Barreirinhas os desmatamentos e os plantios de monoculturas aumentam e sem cobertura vegetal as águas das chuvas descem produtos químicos que contaminam as águas como aconteceu em Cabeceira da Tabatinga. E visível o impacto e as comunidades tradicionais como a Tabatinga evitam qualquer contato. O agronegócio contamina, o poder público não faz nada e as comunidades se viram para obter água
fala e escrita
Não se fala como escreve e nem se escreve como fala. A fala antecede a escrita. Vejam bem as falas em um almoço que aconteceu em uma cidade do cerrado maranhense. O
o prato principal era chambari e debatia se a ascendência indígena sobre o povo maranhense. "Quem bebia água de cabaça?", perguntou o dono da casa. Para bom entendedor meia palavra basta e a filha respondeu " eu ia para roça com meu pai só para beber água de cabaça". A cabaça e um artefato em que os agricultores guardavam água para beberem em momentos que a sede apertava. As falas de pai e filha sugeriam códigos entre os dois. Quem nunca tivesse tido contato com a fala cabocla ficaria boiando. A fala cabocla e de gente que viveu parte da vida nos matos caçando pescando rocando plantando colhendo e alimentando as criações. O cabocles tem estreita relação com as atividades primárias de produção. E e nos ambientes e reuniões familiares que, qndo menos se espera, essa fala aflora através de um comentário uma brincadeira uma alusão uma lembrança que recupera a herança indígena que muitos fazem questão de esquecer.
sanharo
Assim que desembarcaram, Dona Angelita provocou o galego: "Você lembra meu neto. Ele não corta o cabelo". A tirada matreira fez com que ele soltasse uma risada. "Quantos anos tem seu neto?" "Ah!!! não sei. Deve ter uns vinte e poucos anos", respondeu com impaciência. "Ele mora em Chapadinha?" "Não, ele mora aqui mesmo na comunidade". Por um momento, ele teve um vislumbre de como seria esse neto. Ele não ficou embaraçado pela provocação de Dona Angelita. Ele lembrava seu neto assim como ela lembrava dezenas de avós que conhecera pelo Maranhão afora. Os parentes de dona Angelita foram se achegando aos poucos para a reunião com o Fórum Carajás como se cada passo fosse uma indagação. Como tudo em Sanharó é de memória, dona Angelita puxou a informação de que os Amorim não tem documentação da área onde residiam. Essa foi uma ocasião especial para a comunidade do Sanharó, beira do rio Munim, porque o Fórum Carajás veio de muito longe para entreter os moradores com informações sobre meio ambiente, identidade quilombola, produção agrícola, licenças para mineração e etc. Quando se despediam, dona Angelita incorporou uma receptividade quase extinta daquelas que só existem na memória dos mais velhos : "Quando vier de novo avise para preparar uma galinha caipira". É nas comunidades tradicionais e quilombolas que as memórias se iluminam e nessa iluminação as coisas voltam aos seus lugares legítimos.
convresas
A história é feita por homens e por lembranças afastadas. Alguns homens conversavam em frente ao comércio de carne do senhor Arnaldo. Passava um pouco depois das onze horas. A conversa rolava com eles sentados, mas com a chegada de mais pessoas ficaram de pé. O que menos importava era conversar sobre carne de gado. O assunto da conversa girava em torno de peixe. Os fundos do bairro monte Castelo davam de cara pro rio Anil. Nesse dia, a estrada da vitória assumia uma feição mais interiorana com pouco trânsito de veículos e pouca circulação de pessoas. A estrada da Vitória se esticava entre a Liberdade e o Monte Castelo. Seria de muito bom gosto trocar o nome Estrada da Vitória por Estrada dos Ipês. É muito ipê, o que acentua esse lado interiorano. A conversa principal se repartiu em conversas paralelas. "Os seus pais ainda vendem mesocarpo do coco babaçu?""Sim, vendem""Uma amiga perguntou e eu disse que via o filho do casal de vez em quando e me informaria com ele". Então, a conversa viajou para um Turu antigo quando se flagrava sítios abarrotados de mangueiras bacurizeiros, pequizeiros jaqueiras e babacuais. Uma coisa que se aprende é que uma árvore não surge por acaso. Um homem ou um animal fez o serviço de comer a fruta e jogar o caroço sobre a terra.
alimetnação
Uma roça se sustenta no solo e se conforma de acordo com o espaço territorial. Antes de fazer uma roca, o agricultor familiar deve escolher com sabedoria que área irá desmatar e qual o tamanho desse desmatamento para que tudo ocorra dentro de suas possibilidades e de suas medidas. Um debate clássico que ainda perdura e porquê a agricultura familiar não se diversificou ou não incluiu outras culturas em seu planejamento. Não é tão simples. As narrativas de Sergio Buarque de Holanda sobre a ocupação dos Cerrados no século XVI e XVII demonstram que no percurso empreendido os paulistas decidiram com auxílio dos indígenas que áreas seriam propícias para serem plantadas com trigo mandioca ou milho. A história da alimentação e claramente uma história de seleção e de adaptação. Os agricultores foram selecionando e vendo quais cultivares melhor se adaptavam ao solo e ao clima. E necessário nesse proceder que o agricultor conheca o terreno e conheça o ambiente. O fórum carajás um dia desses visitou o terreno do agricultor familiar Vicente de Paulo na chapada do povoado Carrancas município de Buriti. Entre tantas conversas, uma se destacou. Vicente de Paulo elogiava sua roca de arroz que por conta das chuvas recentes crescia bem. O arroz e básico para o maranhense e junto com a mandioca estruturam a vida econômica e social das famílias da zona rural. Quem não tem roca vai depender exclusivamente do Estado da política tradicional ou de empresas.
gregorio de matos
A viagem na qual Gregorio de Matos foi desterrado para Angola no século XVII e uma dessas viagens pouco mencionadas e pouco comentadas pela história literária e pela história cultural no Brasil. Outras viagens pouco trazidas a luz da análise foram as que padre Antônio Vieira vivenciou pelo Império português. Em algum momento, um ouviu falar do outro ? Ou quase se esbarraram em algum porto ? Esse seria um daqueles encontros improváveis . Qualquer viagem traz dentro de si um pouco de desterro. Sair de sua cidade ou do seu espaço mítico territorial por menor o tempo que seja impacta diretamente a memória e a linguagem. A língua do lugar e dos seus povos se configura uma língua estranha. Pronúncia se rápido as palavras e nem sempre o contexto e apreendido e compreendido. O desterrado se sente obrigado a entender o que e dito porque dificilmente o contrário acontece.
os comercios
Provavelmente, os comércios que foram abertos no final dos anos setenta e começo dos anos 80 em São Luís fecharam as suas portas no final dos anos 90 ou simplesmente desapareceram. Por alguma razão ou por outra. Concorrência, negócios não iam bem, a família vendeu a casa e ninguém mais teve notícia, o ponto era alugado e o proprietário pediu de volta, os donos envelheceram e os filhos resolveram passar adiante e etc. Os comércios pertenciam a gente recém chegada de regiões afastadas da ilha de São Luís. Baixada. Região do Munim. Litoral oeste e leste. Região dos Cocais. Baixo Parnaíba. Itapecuru. A pobreza grassava por todo o Maranhão.O ludovicense típico ou estudava ou se empregava no setor público ou em alguma empresa. Numa cidade com poucos espaços de comercialização como São Luís era nos anos 60 e 70, quanto mais comércios fossem abertos melhor seria para todos.
america espanhola
A América espanhola começou no litoral colombiano no século XVI. Quinhentos anos se passaram e a catedral basílica de Santa Marta e a construção histórica que melhor atesta a passagem do tempo. E a primeira igreja construída em solo colombiano no ano de 1526. As construções religiosas ganham destaque em qualquer cenário seja numa cidade antiga como Santa Marta ou uma igreja evangélica num bairro periférico em uma metrópole. O que levou homens a construir igrejas e edificacoes de tal porte ? A construção não foi uma determinação em si. Ela surgiu de partes que fundaram uma ideia e se complementaram. A indústria petrolífera e um grande edifício tipicamente moderno que suplantou outros edifícios ao longo do tempo. A um custo impressionante. O destino do homem numa igreja e procurar e encontrar Deus em suas diversas formas e em seus diversos desígnios. O destino do homem na indústria petrolífera é se desencontrar da natureza. Quer fosse a América espanhola, quer fosse América portuguesa, as pessoas entendiam uma igreja ou outras construções como um reencontro com o que haviam deixado pra trás em seus locais de origem. O entendimento que perpassa a indústria petrolífera e que não há mais reencontro possível do homem nem com a natureza nem com a sociedade e nem com Deus.
eneva
Quando das entrevistas dadas pelas comunidades quilombolasvde Lima Campos a equipe do Boas energias sobre a atuação da Eneva em seus territórios, o que ficou bem explícito foram os impactos nos recursos hídricos tanto a nível da superfície como a nível de lençol freático. Por conta da instalação de dutos houve soterramento de nascentes e corpos de água e por conta da extração de gás houve contaminação do lençol freático. Os quilombolas passaram a consumir mais água mineral tendi em vista que as pessoas que consumiam essa água apresentavam problemas nos rins e outros sintomas. Estranhamente esses e outros assuntos não despertam o interesse de autoridades para que sejam investigados. Atualmente a Eneva pretende expandir sua atuação para o centro leste maranhenses em territórios quilombolas, terra indígena e comunidades rurais nos municípios de fortuna, tuntum e Codo. Provavelmente os impactos sócio ambientais também irão se expandir. O GTA rede da qual o fórum carajás faz parte está desenvolvendo a campanha Chega de Furar é hora de cuidar : Por uma Amazônia Livre de gás e petróleo. Nessa campanha serão realizadas oficinas e uma audiência onde as comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas serão alertadas dos impactos que podem ser causados por esses empreendimentos tanto a nível ambiental como a nível social.
gostoso
Com medo de atolar o carro, eles resolveram dar meia volta na estrada vicinal que os levaria ao povoado Gostoso, comunidade tradicional que disputa seu território com o grupo Costa Pinto detentor de grandes extensões de terra no município de Aldeias altas, região dos Cocais maranhense. Claudio, liderança da comunidade, foi na direção onde o carro parou. Ele era profundo conhecedor das Chapadas de Afonso Cunha e Chapadinha antes de parte delas serem devoradas pelo agronegócio da soja. "Mayron, não se faz mais roça na região toda. Em Afonso Cunha e aqui em Aldeias altas. A causa e a pulverização aérea de agrotóxicos. Criou se uma lei em Aldeias altas que proíbe a pulverização mas ninguém obedece". Em Tanque da Rodagem, comunidade quilombola de Matões, a conversa vai no mesmo sentido. Aviões sobrevoando diversas vezes e as pessoas sobressaltadas. Uma das pessoas que participavam da conversa foi banhada por agrotóxicos e passou dias sentindo mal estar dores e enjôo.
buriti do sangue
O avanço do agronegócio da soja na região dos Cocais maranhense vem se dando de forma mais acelerada que em outras regiões como por exemplo a região do baixo Parnaíba maranhense onde os plantadores de soja em 2005 planejavam em pouco tempo plantar soja em 500 mil hectares e passados mais de vinte anos as áreas de plantio passam de 100mil. O avanço na região dos Cocais se dá quase que exclusivamente em territórios de comunidades tradicionais e quilombolas. Essa declaração pode parecer temerária porque quase nenhuma informação e divulgada nas mídias e nas redes sociais a respeito. A comunidade tradicional Buriti do Sangue município de Caxias conseguiu furar esse bloqueio ao disseminar um vídeo em que impede a entrada de um trator a mando de um grileiro em seu território. O tratorista realizaria o serviço de demarcação. A comunidade mora em mais de trezentos hectares há mais de duzentos anos. Uma das coisas impressionantes nesse caso foi que a justiça de Caxias e a Vara agrária de São Luís deram ganho de causa para o grileiro sem consultar a comunidade. O grileiro não tem a posse da terra quem detém a posse e a comunidade mesmo assim o juiz de Caxias concedeu uma liminar de reintegração de posse para o grileiro e a Cada agrária manteve a decisão.
o pai de gilmar
Como se faz para calcular o tempo ? A noite toda caiu uma chuva. Nos invernos bons, essa é uma frase recorrente. E quando os invernos são bons, os rios, anteriormente aterrados, ressurgem com a força desesperadora das águas. Eles andavam pela Chapada. Chico da COHAB sugeriu a Gilmar, morador da comunidade quilombola de Buriti dos Bois, município de Chapadinha, que mostrasse ao Gustavo um bacurizeiro. "Tem um bem ali", falou Gilmar apontando para seu lado direito, " e ele passou dos cem anos". A idade presumida por Gilmar vinha de acordo com o fato que seu pai desde criança apanhava bacuri caído daquele bacurizeiro. Seu pai atingira a idade de mais de setenta anos. A idade do homem não concorre com a idade da planta, mas fazer uma breve comparação entre uma idade e outra permite que as histórias do bacurizeiro crescendo sobre a chapada e da infância do pai de Gilmar apanhando bacuris no chão não sejam descartadas
samba
O samba pode virar um item de colecionador do tipo que só um pequeno número de pessoas teria acesso a uma variedade de utensílios, equipamentos e mercadorias que dariam uma amostra do que foi a história do gênero musical? Escutar os sambas de Vinícius de Moraes numa manhã de domingo deu um vislumbre do que aconteceu com a cultura e a produção artística nesses últimos anos. Esse momento crítico não se limita a cultura e a produção artística.ele também pode ser constatado em outras áreas da criação humana. A agricultura familiar enquanto produtora de alimentos saudáveis pode virar uma insanidade visto que dia apos dia são denunciados casos de contaminação das roças dos agricultores por pulverização aérea de agrotóxicos e casos de derrubada da mata nativa por tratores a serviço do agronegócio. A comunidade quilombola de Cancela município de São Benedito do rio preto teve seus direitos violados em diversos momentos ao longo da sua história. Os antigos proprietários impediam os moradores de coletarem juçara. E mais recente, grupo de pecuaristas pulverizaram agrotóxicos e passaram tratores sobre as roças da comunidade. Depois de várias denúncias, essas violacoes pararam e a comunidade pôde plantar e distribuir alimentos para escolas com tranquilidade.samba
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