06/10/2013 - 11h27
Mariana TokarniaRepórter da Agência Brasil

A Rede Mandioca incentiva não apenas a produção de farinha de mandioca, mas de hortaliças e derivados do babaçu. O financiamento vem da Cáritas europeia, que entra com os equipamentos e a capacitação. O que é produzido a própria entidade vende e repassa os recursos aos trabalhadores. A maior parte do que é produzido é adquirido pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), do Ministério da Educação (MEC). Já o Juventude e Gênero consiste na doação de frangos e de sementes para que as comunidades tenham uma fonte de renda. A primeira produção é comprada pela Petrobras e entidades parceiras. Depois, as comunidades devem garantir a venda.

A Rede Mandioca atende a mais de 20 comunidades rurais em Vargem Grande. No município, 46% da população vive na zona rural. Os homens cuidam da plantação de mandioca e da produção da farinha. As mulheres entram com o coco do babaçu, a partir do qual produzem principalmente azeite e biscoitos.
Apesar de bem-sucedido em Pequi da Rampa, há povoados em que o projeto não vingou e há também locais onde não é possível tirar o sustento apenas desses produtos, como é o caso de Riacho do Mel, onde o trabalho análogo ao escravo ainda é um problema. Uma das queixas dos trabalhadores é que a maior produção de farinha de mandioca traz também a desvalorização do produto. Atualmente, 30 quilos (kg) de farinha custam R$ 100. O preço já chegou a R$ 10 em tempos de abundância e a R$ 200, em períodos de seca.
“Aqui a vida é difícil. Por muito que a gente lute, para quem tem família grande, tem dia, tem hora, que a gente imagina o que fazer para manter o sustento da família”, diz Ananias dos Reis da Silva, morador de Riacho do Mel. Ele é casado há 25 anos. Teve 12 filhos, e apenas sete estão vivos. Silva acaba de voltar de São Paulo, chegou em janeiro deste ano à comunidade. “Talvez dá de a gente arrumar um dinheiro para comprar uma coisinha que a gente precisa”, diz.

A rede ajudou José Maria Batista de Sousa. Aos 28 anos, ele foi três vezes trabalhar em São Paulo. “Me tornei quase escravo mesmo. Passamos quatro dias dormindo no chão. Porque disseram pra gente que não precisava de rede, aí não levemos. Chegamos lá e não tinha nem cama”. A rotina começava às 3h, quando levantava para fazer o almoço. Às 6h, um ônibus levava para a lavoura, onde trabalhava no corte da cana. Ele voltava às 15h, lavava a roupa e fazia o jantar. “Falei que não ia mais lá não”. Sousa voltou mais duas vezes.

A esposa de Sousa, Maria Aparecida dos Reis Jacob, está otimista. “Achei ótimo que ele não quer mais sair daqui. Eu falo para ele, se for, pode não contar comigo que eu não espero mais não. É muito difícil ficar sozinha. Agora ele colocou na cabeça, e diz que não vai mais. Estamos cuidando desse aviário e tenho fé que vai dar certo, já está dando certo”.
Edição: Fernando Fraga
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