segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Arborização e paisagismo na ilha de São Luis

A parte interna do mercado das Tulhas ao se tornar um espaço de comercialização de mercadorias e de comidas, nos anos 50, perdeu seu status de jardim de inverno. Os espaços internos dos casarões do centro histórico de São Luis se constituíam na arborização que não se via pela cidade. E não se vê porque os espaços públicos ludovicenses transparecem uma pobreza impressionante em termos de arborização e de paisagismo. A principal espécie vegetal utilizada para arborizar é a palmeira imperial que nada representa da biodiversidade da flora dos biomas que existem em São Luis e nos municípios vizinhos. A politica de arborização e de paisagismo praticada pelos órgãos ambientais incentiva o plantio de espécies exóticas ou que, não sendo exóticas, não caberiam num ambiente quente úmido (clima amazônico), pois vem do ambiente quente seco (clima semi-arido). A carnaubeira é uma espécie típica do semi arido e de suas transições. Que se saiba, São Luis é plenamente Amazonia, mas o então prefeito João Castelo plantou inúmeras mudas próximo ao viaduto por onde trafegam os carros que se dirigem a praia do Calhau. Se alguma muda sobreviveu foi por milagre.

Oficina de Culinária em Carrancas

Aquele sábado de manhã cedo se mostrava insólito em Carrancas, município de Buriti. O terreno de Vicente de Paulo privilegiava uma visão de boa parte das áreas de Chapada do povoado e do povoado vizinho (Matinha). A propriedade do Vicente se pronuncia como uma grande reserva florestal para o povoado e para os moradores já que os plantios de soja da família Introvini, ao circularem-nos, reduziram as áreas de Chapada para pequenas posses. Vicente de Paulo e sua família vivem bem no meio da Chapada em um terreno de mais de 120 hectares e nesse terreno se refugiam várias espécies de mamíferos, insetos, aves, de repteis e de árvores que por lá encontram água, proteção e alimentos. Escuta-se o canto da sabiá que chega perto das casas, mas evita ser vista. Não importa tanto a visão do pássaro e sim a audição do seu canto e de outros pássaros como o Cancão. Nesse espaço tão vistoso e majestoso, o Forum Carajas realizou a terceira oficina de culinária do projeto financiado pelo Fundo Casa no âmbito do edital Casa Cidades Nordestina.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

As praças de Holanda

O fim da administração Edivaldo Holanda frente a prefeitura de São Luis se aproxima e muitos gostariam que esse fim demorasse ou, então, que, por alguma arte, a sua administração ultrapassasse os limites dos oito anos impostos pela legislação eleitoral brasileira. Edivaldo Holanda se elegeu em 2012 e por quase todo o mandato foi desacreditado. Elegeu-se em 2012 porque seu adversário João Castelo administrava São Luis como quem administrava uma mercearia dos anos 80, ou seja, sem ter a menor noção do quanto podia gastar e em quanto se endividara . João Castelo buscara fixar a sua administração municipal em uma miragem dos anos 70, miragem esta que fora o seu governo estadual e pelo qual enchera a cidade de grandes obras estruturantes (conjuntos habitacionais, abastecimento de água e etc). Ele procurou repetir esse espirito obreiro entre os anos de 2008 e 2012 com destaque para a implantação de um VLT (Veiculo Leve sobre Trilhos) cujo trajeto começaria na Praia Grande e se prolongaria até o Itaqui Bacanga. Custaria uma nota preta para uma prefeitura com pouca capacidade de investimentos em infra estrutura. Tava na cara que o VLT não passava de obra eleitoreira e que só a instalação de trilhos na área do Aterro do Bacanga causava impactos sociais, ambientais e econômicos indesejáveis para a população. A figura de Edivaldo Holanda no cenário politico ludovicense era praticamente nula. Para derrotar Castelo, ele era o que tinha, pois Flavio Dino se mostrava avesso a disputar novamente a eleição para prefeito. Edivaldo Holanda derrotou Castelo e o que se viu foi a manutenção dos serviços essenciais da cidade sob responsabilidade da prefeitura, o que Castelo em seus últimos meses como prefeito deixava a desejar. A vitória de Edivaldo Holanda indicava que parte da população ludovicense desejava uma prefeitura ou um gestor que se responsabilizasse pelo básico (postos de saúde, educação, coleta de lixo, transportes e etc). Essa parte, Edivaldo cumpriu daquele jeito de ser ou não ser prefeito. Mais parecia que não queria ser prefeito. Tanto ficou nas sombras da politica que muitos se perguntavam por onde andava e muitos viam em Flavio Dino, eleito govenador em 2014, o verdadeiro prefeito pelas obras que desenrolava na ilha. Uma hora, a maré vira. Edivaldo Holanda, em seu segundo mandato (2016-2020), iniciou um pacote de obras pela cidade que suplantou em termos numéricos e em termos de bairros atendidos as obras de gestores anteriores. Destaca-se a construção e a reforma de praças e a reforma de mercados e esse destaque ocorre porque as pessoas moram em casas ou apartamentos particulares mas eles saem para comprar em mercados públicos e passear em praças publicas e historicamente o espaço publico em São Luis sempre sofreu desprestigio. A entrega dessas obras pelos diversos bairros propiciou um aumento na popularidade de Edivaldo Holanda e com isso veio a pergunta: Por que ele não escolheu seu sucessor? A resposta, acredita-se, deve-se ao seu espirito pouco arrojado e pouco beligerante. A articulação politica para as eleições municipais em 2020 ficou nas mãos de Flavio Dino. Para Holandinha, ficaram a inauguração dos mercados e das praças. Deu no que deu. As praças e os mercados de Holanda ficarão nas mãos de quem?

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O caminho grande e a solidão

O crescimento urbano de São Luis deslocou o foco das atenções do centro da cidade, que se notabilizou como principal espaço de atividades econômicas, para outras regiões como o norte e o centro leste da ilha. Não se denominava centro histórico a parte antiga. Essa denominação surge a medida que as famílias abandonam seus casarões e mudam-se para casas mais modernas em ruas não muito distantes das ruas onde moravam nos primórdios da cidade. A forma mais usual de expressar movimento era “vou a rua tal”. Com o aumento populacional e de ruas no contexto da cidade, as pessoas passam a se expressar “vou a rua tal no bairro tal”. Tinha vezes que não se sabia o nome da rua. Nesse caso, “vou ao bairro tal vê se descubro onde é a rua tal na qual mora não sei quem”. Numa época em que a cidade crescia, mas não de forma avassaladora, a principal artéria de circulação era o Caminho Grande que existia desde o século XVII. Quem procurava uma casa devia ser tranquilo, afinal pelo caminho moravam poucas pessoas. Pelo final dos anos 40 e começo dos anos 50, o Caminho Grande, na região conhecida atualmente como João Paulo, perde parcialmente o seu aspecto bucólico com as construções do quartel do exercito, de casas e de praças. Existe uma foto tirada do quartel do exercito em direção a praça Duque de Caxias por essa época. A foto é praticamente o Caminho Grande, a entrada do quartel, a praça e um caminhão e diagnosticava a sensação de solidão de viver ou trabalhar naquele espaço físico distante de qualquer coisa (com nada ou quase nada pra se vê e escutar).

sábado, 14 de novembro de 2020

Um golpe chamado proclamação da republica

Os parentes diziam que ele, nos seus primeiros anos, não lia e sim admirava as imagens dos livros que abria, principalmente, os livros de Historia. Em sua casa, no bairro liberdade, os pais compravam a Delta Larousse e a Barsa. As representações de batalhas o atraiam entre tantas imagens. Essas representações estéticas, que ele não sabia quem pintara, confrontavam-no com a excepcionalidade perante a sua rotina familiar e a sua rotina escolar. Aprendia-se Historia pela fixação em imagens e datas historicas. Decoreba, quer dizer. A imagem de Marechal Deodoro da Fonseca empunhando um sabre, em cima de um cavalo, e proclamando a república no dia 15 de novembro de 1889 era inesquecível para uma criança. Quem escreveu o texto não explicava quem fora Deodoro da Fonseca, os motivos que o levaram a proclamar a republica, quem Deodoro depunha com seu ato solitário, o que vinha a ser a republica e etc. Os livros se dirigiam a crianças e, como tais, ressentiam-se de uma romantização individualista dos grandes eventos sociais e políticos pelos quais a sociedade brasileira passara. As pinturas de cenas historicas da realidade brasileira seguiram um modelo importado da pintura neo clássica francesa, vide o caso de Pedro Américo que pintou a proclamação da independência e cenas de batalhas da guerra do Paraguai. O pintor não se intimida com a absoluta falta de dados e imagens sobre o evento (Pedro Américo não esteve no riacho Ipiranga e nem no Paraguai). Ele explora essa insuficiência de informações dele e do publico e carrega as cores e tensiona as linhas em representações estéticas de conflitos em que o Brasil venceu. Contraponha-se as pinturas de Pedro Americo a pintura do assassinato de Marat herói da revolução francesa feita por David e certifique-se a grande diferença entre o neoclassicismo francês e seu herdeiro brasileiro. A imagem vista no livro de ensino fundamental ressalta uma vitória protagonizada por Deodoro da Fonseca, em frente ao palácio onde morava família imperial, mas ele venceu quem e o que num golpe chamado proclamação da republica?

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A fotografia filosófica

A fotografia os impelia a se reunirem e a conversarem pelos cafés de São luis. Um deles, filosofo fotografo, estava a um passo a frente dos demais. Conduzia o olhar na (in)certeza de que aquela cena não se repetiria. Quis saber se a foto da sacada de um casarão ficara boa. Havia ficado. “Dá pra ver os pombos voando? Eu joguei pedra neles para voarem.” Não viu pombo algum na fotografia. Os amigos afirmavam que suas fotos só saiam boas porque ele fotografava em celular. Ele não era um desses amigos. Via no filosofo fotografo uma timidez de alguém pouco afeito a exposição. Os vendedores insistiam que comprassem seus produtos (bregueços) na Feira da Praia Grande. O filosofo fotografo (FF) teve um lampejo e perguntou ao vendedor se poderia fotografa-lo. Obteve um sim. Acabara de almoçar um cozidão e planejava se reunir com o jornalista fotografo (jf), o jornalista radialista (jr) e a historiadora fotografa no café da praça João Lisboa. Deu uma preguiça no jornalista escritor (je) que sugeriu ao amigo que fosse à frente porque iria em seguida. ‘Não. Posso te esperar.” A conversa do Mercado das Tulhas ao Café se concentrou nos casarões históricos e no fato de que a habitação social não garantiria a valorização desses casarões. Precisaria da habitação social e da implantação de pequenos negócios. E falando de negócios, o jornalista radialista disse para o filosofo fotografo “Diz para o jornalista escritor vender o latifúndio dele em Codó e daí a gente compra um casarão histórico na rua de Nazaré e implantar os nossos respectivos projetos.”

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Os sabiás não cantam em palmeiras artificiais

O povo de São Luis ( esse ser abstrato que pode ser tanto uma referência a massa como ao grupo familiar no qual a pessoa se integra) mantem um habito de batizar as suas ruas com mais de um nome. A rua Couto Magalhães, bairro Monte Castelo, não mudou nada em sua fisionomia em mais de três décadas e nem as pessoas esqueceram os outros dois nomes pelos quais ela é conhecida e chamada: rua Ramon Afonso e Rua Mariana. A pessoa se for pedir um uber escrevendo o nome Couto Magalhães, pode esquecer. Agora se escrever rua Ramon Afonso, o Uber chega fácil. O nome rua Mariana se deve a existencia de um conjunto de casas pra alugar cujo nome é Vila Mariana. Contradizendo o que foi escrito anteriormente, a rua Couto Magalhães nos últimos anos mudou sua fisionomia pelo menos num aspecto. Construiu-se ou se reformou casas que assumiram caráter de casa que aluga quartos para pessoas de cidades do interior do Maranhão que vem a São Luis estudar ou se tratar nos hospitais Sarah Kubitschek e Aldenora Bello. Outras ruas do Monte Castelo também experimentaram essa inflexão. Casas, antes abandonadas ou parcialmente ocupadas, viraram pousadas. A demanda crescente incentivou as pessoas a se especializarem na prestação desse tipo de serviço de hospedagem e a investirem um montante de dinheiro na reforma das suas casas com essa finalidade. A economia de São Luis, como as ruas, mantem sua fisionomia tradicional de muito dependente dos investimentos praticados pelo Estado há mais de um século. Os investimentos feitos pelo poder público na reforma da praça João Lisboa implicam uma serie de dúvidas ao fim de sua execução. Por mais criticas que tenham sido feitas às reformas da praça Deodoro, não se pode negar que essas reformas resultaram em maior mobilidade para as pessoas que rumam para as ruas Passeio, Grande, da Paz, do Sol e Rio Branco. Não há motivos para que as pessoas permaneçam por mais tempo que o normal à praça Deodoro. A biblioteca Benedito Leite, construção neoclássica inaugurada nos anos 50 que a reforma valorizou, é uma estrutura física que afasta as pessoas. O neoclassicismo como gênero artístico abraça a ordem. A praça João Lisboa se diferencia da Deodoro. Ela não é um ponto de partida (caso da Deodoro) e sim um ponto de chegada (acolhimento). Por que privilegiar obras de recuperação de piso (igual a Deodoro) e não obras de recuperação ou melhoramento do paisagismo para acolher as pessoas (diferente da Deodoro)? A reforma da rua Nazaré que seria um ótimo exemplo de um paisagismo refrescante, exemplifica a pobreza do paisagismo executado pelo poder pulico ao plantar palmeiras. Nessas palmeiras artificiais, os sabiás não cantam. Comentários