sexta-feira, 26 de maio de 2017

Quatro novas escolas serão construídas, três somente na região sudoeste do MA



As unidades serão equipadas com Bibliotecas Comunitárias Ecofuturo e atenderão a população de Açailândia, Buriticupu, Sítio Novo e Urbano Santos

A Suzano Papel e Celulose e o governo do Maranhão formalizaram na tarde de ontem um acordo para a construção de quatro escolas no estado, no âmbito do Programa Escola Digna. Iniciativa da Secretaria de Estado da Educação do Maranhão (Seduc-MA), o Programa Escola Digna tem como objetivo promover a substituição de escolas em condições consideradas precárias e promover assessoria técnico-pedagógica aos municípios, priorizando os alunos que residem em áreas com maior vulnerabilidade social e mais baixos índices de desenvolvimento humano.

As escolas apadrinhadas pela Suzano Papel e Celulose atenderão as comunidades de Açailândia, Buriticupu, Sítio Novo e Urbano Santos e terão, ao todo, dez salas de aula, com capacidade para atender até 750 crianças dos ensinos infantil e fundamental.


Todas as quatro escolas construídas com investimento da Suzano contarão também com bibliotecas abertas à comunidade, implantadas pelo Instituto Ecofuturo, por meio do projeto Biblioteca Comunitária, o que será um diferencial dessas unidades. Os espaços receberão acervos com livros novos de literatura selecionados por especialistas, mobiliário e equipamentos eletrônicos e de informática. Capacitações gratuitas sobre gestão de biblioteca e promoção de leitura para professores da rede de ensino dos municípios também integram o projeto.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O vento cantava



O som troava sobre a mata densa e fria; cantava uma canção melancólica que ao longe se escutava o tinir do mato seco no sinal dos ares. A chapada estava lá calma e magistral, sofrida com os males que lhe maltrata, mas com a fonte que mata a sede dos povos e viventes. O piado dos pássaros ajuda na orquestra que somente quem escreve e poetiza consegue entender e interpretar a lira desses ventos que ecoam. Alegrias e tristezas! Sonhava com um mundo melhor, alcançara seus objetivos na lagoa dos tempos da incerteza.
O cerrado continuava resistindo os desafios que lhe apresentam, que lhe impuseram há décadas. Era uma vez a história de um bioma... Os mais antigos da terra. As águas descem sonolentas “ninguém sabe nem de onde vem, nem pra onde vai”, algum tempo atrás essas águas eram limpas, muitos peixes existiam ali, alimentava os viventes com espécies que brincavam e se reproduziam vida afora! A natureza é o próprio canto fraternal que se perpetua ao longo dos tempos. Muitos coisas, promessas e trabalhos rondavam as veredas do velho sertão –, era uma terra de histórias... terra de memória, muitas lutas e trajetórias.
O vento cantava para todas as bandas - para o leste, sul e norte, reprimia os feitos e defeitos de outrora. A grota era relevada para cima e para baixo nos lençóis do mundo numa época de paz. As palmeiras cantavam em coro as letras de músicas nunca antes escritas mas já gravadas. Há dias não ouvia-se o som do meio ambiente.
A chama da poeira pairava no areal sombrio. O Viajante que narrava tudo em seu diário então aproveitava para descansar sobre a sombra. Dali pela última vez o vento ensinava lições da vida simples com sua breve canção.

José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com


quarta-feira, 10 de maio de 2017

O rio a ponte e o projeto



O rio Preguicas cobriu a ponte proxima ao povoado Boa Uniao. O rio veio sonâmbulo. Sem eira e nem beira. As fortes chuvas que cairam a partir de dezembro empurraram a sujeira causada pelos tanques de psicultura para bem longe e deram-lhe novas cores ou devolveram as suas cores originais. Os caminhos pelas Chapadas e pelos baixoes se empapucaram de tanta agua. Quase quatro meses de chuva equivaleram às chuvas dos ultimos oito anos. Os moradores de Sao Raimundo se comprometeram a cercar uma area rica em bacurizeiros assim que as chuvas amolecessem o chão da Chapafa. Deve se crer que o verao endurece o solo e que enfiar uma estaca num solo endurecido requer muita forca. No final de janeiro, Francisca ex presidente da associacao explicou que nao fora possivel erguer a cerca porque os agricultores se ocuparam das suas roças. Isso era bem cabivel, afinal agricultores lavram a terra com o intuito de produzirem alimentos para si e para seus familiates. Contudo, trato é trato. Cobrou-se um novo prazo. A associação de Sao Raimundo não podia fazer essa desfeita. Combinou-se. No mês de maio se apronta tudo, estacas e arame e fotografa o realizado para enviar ao financiador do projeto a ong holandesa XminY. Por que uma ong holandesa financiaria um pequeno projeto em Urbano Santos ? Incrivel que uma ong de um pais rico da europa financie uma comunidade negra e pobre na zona rural do Maranhão ? Muito mais incrivel é que esse aporte de recursos veio por conta de uma solicitação da propria comunidade. Caso fosse a pedido de outrem a ong não aprovaria a solicitação. Fechou-se o mes de maio como o "the end" do projeto. Desse mês não passa. Nem precisou. Antes disso, a Francisca dava conta que os agricultores pisaram firme por varios fins de semana e adiantaram o serviço.
Mayron Regis

terça-feira, 9 de maio de 2017

Safra de soja no Maranhão tem queda de 800 mil toneladas

AQUILES EMIR
A produção de soja no Maranhão, que estava estimada em 2,840 milhões de toneladas, conforme números do sexto levantamento da safra divulgado em março pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), deverá cair cerca de 800 mil toneladas, como divulgado, semana passada, na sétima estimativa do órgão, que projeta agora uma produção de 2,030 milhões de toneladas. Com esta nova estimativa, em vez de um aumento de 127,2% em relação à safra anterior, que foi de  1,250,2 milhão de toneladas, será de 62,4%.
“No Maranhão ocorreu forte decréscimo de14% na área plantada em relação à anterior, com produtividade estimada em 3.003 kg/ha, o que representa incremento de 88,9% em relação à safra passada, fortemente prejudicada pela falta de chuvas. A forte redução da área, constatada na atual pesquisa, foi mais acentuada no município de Tasso Fragoso. Estima-se que a metade das lavouras de soja já foi colhida, enquanto 24% encontram-se em maturação, 10% estão em enchimento de grãos e floração e apenas 6% ainda permanecem no estágio de desenvolvimento vegetativo”, diz o relatório da Conab.
Outra queda considerável na produção maranhense é do arroz, que estava estimada em 222,4 mil toneladas e agora está projetada em 218,8 mil, o que daria, na comparação com a safra passada, uma queda de 18,45, pois a colheita em 2016 foi de 268,3 mil. Segundo a Conab, este fenômeno vem se registrando safra após safra. “Em relação à safra 2015/16, o Maranhão deverá apresentar redução de 21,4% na área plantada. Essa diminuição é observada a cada nova safra, principalmente nas áreas de arroz em sistema de sequeiro, mas nesse levantamento detectou-se que as áreas irrigadas também devem sofrer uma redução em relação à última safra. A produtividade deve chegar a 1.535 kg/ ha, 3,8% maior em relação à safra passada devido às condições meteorológicas favoráveis para a cultura, diferentemente do ocorrido na safra anterior”, diz.
De acordo com o último levantamento da Conab, safra total de grãos no estado este ano será de 4.298,3 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 73,2% na comparação com a anterior, que foi de 2,481,7 milhões, ma a estimativa de abril aponta um volume menor que a projeção de março, que era de era 4,719,9 milhões de toneladas, o que dava uma variação positiva de  90,2% na comparação com a colheita do ano passado.
Brasil – No que diz respeito à produção nacional, a safra de grãos 2016/17 deve chegar a 227,9 milhões de toneladas, com um aumento de 22,1% ou 41,3 milhões de toneladas frente às 186,6 milhões de t da safra passada. A previsão está no 7º Levantamento da safra atual, divulgado nesta terça-feira (11) pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para a soja, a expectativa é de um crescimento de 15,4% na produção, devendo atingir 110,2 milhões de toneladas, com aumento de 14,7 milhões de t em relação à safra anterior e ampliação de 1,4% na área, que deve chegar a 33,7 milhões de hectares.
A produção nacional de arroz será 11,948,0 milhões de toneladas, ou seja,12,7% a mais que a safra anterior, quando foram colhidas 10,603,0 milhões de toneladas.
No caso do milho total, deve alcançar 91,5 milhões de toneladas (37,5% de crescimento), com 29,9 milhões de toneladas para a primeira safra e 61,6 milhões para a segunda. A área total do milho deve alcançar 17,1 milhões de hectares (ampliação de 7,3%). No total, milho e soja representam quase 90% dos grãos produzidos no país. O feijão pode chegar a 3,29 milhões de toneladas, com área total de 3,1 milhões de hectares.  Já o algodão pluma deve crescer 14,3% e chegar a 1,47 milhão de toneladas, mesmo com uma redução de 2,6% na área cultivada.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Bacabal


O Viajante atravessava as chapadas do Bacabal no Baixo Parnaíba maranhense, em direção às comunidades tradicionais das margens do Rio Preto, o rio que pede socorro! Ele parava perto do Riacho Seco nas imediações da grota da Bicuíba -, escutava o som dos pássaros... O som do vento! Ele dobrava sua velha motocicleta para as bandas da comunidade Bacabal - a vista do eucalipto e do cerrado todo verde contradizia em paradoxo a realidade de duas faces totalmente diferentes, uma com gente, animais e toda biodiversidade crescente e a outra sem gente, com veneno e agrotóxicos. Em 2013 o conflito se arrastara por lá, as chapadas foram provas da luta que se transformaram num sonho. A terra ainda está em processo de desapropriação pelo INCRA – umas 1.500 hectares e também uma sobra de terras devolutas do estado que deve ser incluída no projeto. O objetivo é distribuir a terra para as famílias de agricultores que trabalham e produzirem seus alimentos, por isso foi realizado na comunidade um seminário com assuntos relacionados a reforma agrária.
O medo ainda mora nas veredas do Bacabal e nos caminhos de Santa Rosa, a lembrança dos desacatos naquela época que tentou amedrontar os trabalhadores rurais, não conseguiu seus objetivos. A família dominante se diz dona, venderam parte da terra para interesse próprio, pois as leis mudaram de curso e quem? A legislação fundiária diz que quem “mora um ano e um dia numa determinada terra” – já tem direito a ela. A legitimação de posse de terras sempre foi uma questão polêmica desde séculos remotos e ainda nos dias de hoje continua sendo; as “práticas de lutas conceituam serviços de instrumentos para a efetivação de direito a moradia e sobretudo a produção na agricultura familiar”. A realidade agrária em nosso país nunca foi resolvida e a cada dia tem uma coisa diferente. Com essas transformações de reformas e PECs, as questões só pioraram para os homens e mulheres do campo, povos e comunidades tradicionais.
A luta de 2013 em Bacabal foi uma prova de demonstração de forças medida entre a associação de moradores e os latifundiários que se dizem donos da área. A Constituição de 1988, deixa claro sobre a função social da terra; se ela não está cumprindo sua função social, deve portanto ser ocupada e desapropriada para fins de reforma agrária.
Questões inerentes a terra tem sido tratada com atenção pelas esferas de governos, sem resolverem nada, infelizmente! Vista pelos setores capitalistas como forma de expropriação e lucros; o capitalismo no campo tenta passar por cima de tudo, inclusive das comunidades tradicionais para atingir seus objetivos econômicos. Muitas são as grandes áreas de terra em nossa região que foram tomadas e arrecadadas para o bem pessoal de empresas e grupos de latifundiários; as famílias influentes. O Baixo Parnaíba passa por uma crise de terras, as comunidades lutam pelos seus direitos sociais de acesso a terra, mas ainda falta muita informação e organização para se avançar, pois o agronegócio é muito forte e tem o apoio dos governos.
A luta do Bacabal tem se constituído para o reconhecimento de posse que tramita no INCRA, acompanhado pela FETAEMA, “Fórum Carajás” e por outros órgãos competentes, a associação aguarda respostas. As chapadas da região são grandes produtoras de bacuris e outros frutos do cerrado, apesar dos problemas socioambientais da capitação de madeira ilegal e de queimadas constantes na época do verão.
O Viajante concretizaria sua tarefa naquele dia, ele ficaria mais um tempo por lá, adentrava na aldeia Bacabal, as casas de palha ao redor do campo, sob o fundo as margens do rio, muitos animais: porcos, galinha, cabras e gado. Os moradores vivem felizes em seu lugar de origem, muitos não sabem dos seus direitos sociais, nem todos sabem ler... A maioria são analfabetos, mas são personagens de nossas histórias e projetos na luta pelo desenvolvimento social. As crianças brincam felizes debaixo do pé de jatobá – a árvore que chama a atenção de quem o visita, as crianças sonham com um mundo melhor, sem exploradores e explorados – precisam reconhecer a história de seu povo e da importância da terra. O Viajante passara alguns dias sem voltar para a cidade. Pois era tempo de arroz novo nas roças e ele foi convocado pelos camponeses para o trabalho coletivo da colheita.


José Antonio Basto

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Acampamento no Maranhão inicia colheita de 200 hectares de arroz

Cerca de 150 famílias ocupam a área desde 2014

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Uma área cultivada de 200 hectares de arroz no município de Bom Jesus das Selvas, no centro-oeste maranhense, é símbolo da resistência de 150 famílias que ocupam essa terra desde 2014.
No Acampamento Buritirana, do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a colheita do arroz já começou.
A expectativa é alcançar o volume de 7 toneladas neste ano.
A produção é livre de agrotóxicos e pode garantir o sustento das famílias acampadas por quase um ano.
Reynaldo Costa, da coordenação do MST na Região Sul do Maranhão, destaca que a boa safra é uma demonstração da fertilidade da terra.
“É a primeira vez que se planta nessa quantidade. Antes, como é uma situação de acampamento, as áreas de cultivo eram muito pequenas e nesse inverno os trabalhadores decidiram por expandir mais o tamanho da área plantada para termos uma produção suficiente para alimentar as famílias acampadas e demonstrar para a sociedade que vale a pena lutar pela terra”, disse.
Mas não é só o arroz que vai garantir a subsistência das famílias.
Milho verde, feijão, melancia, além das verduras, entre as elas, quiabo, tomate e a vinagreira, conhecida na região como cuxá, são mostra da diversidade da produção.
A área cultivada pelas famílias, no entanto, enfrenta pressões.
Após os trabalhadores ocuparem a área da Fazenda Rodominas, uma parte da terra foi arrendada pela empresa Suzano Papel e Celulose para plantação de eucalipto.
O integrante do MST explica a situações de conflito.
“Há uma situação sempre de tensão, aquela expectativa se vamos ficar aqui ou não. Se a gente vai nos ser dado o direito de terminar de colher a produção, quantos anos vamos ficar por aqui. Então a reivindicação maior é que se cumpra o mais imediato possível que se resolva a decisão de onde os trabalhadores vão ser assentados”, apontou.
Procurada pela reportagem, a Suzano Papel e Celulose disse, em nota, que uma reunião em outubro de 2016 entre trabalhadores e autoridades, como o Incra e o Ministério Público, definiu que a área onde está o acampamento deveria ser desocupada até março deste ano.
A Suzano destacou que aguarda a resolução de um processo judicial sobre o tema.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Eucalipto em TL sob um enfoque de Gênero





Meu nome é Clariana, estudo na UFMS, faço meu mestrado em geografia estudando a questão das mulheres na áreal rural da zona onde o eucalipto vem crescendo. Então vou falar um pouquinho sobre a questão de gênero nesse contexto. Agradeço o convite para participar, acredito que essa é a principal arma que temos, podermos dialogar e buscar soluções pra mudar as realidades que não queremos mais reproduzir.

Como meus amigos disseram, e também como demonstrado no relatório, existe essa enorme expansão do complexo de eucalipto, em minha cidade e nas redondezas, e ele continua crescendo, nós ainda não sabemos até quando, mas é muito preocupante pelas razões que já foram apontadas.

Alguns dos efeitos diretos dessa expansão na vida das mulheres do campo estão relacionadas às mudanças estruturais na família, pois muitas famílias têm sido expulsas das terras onde trabalhavam à medida que os fazendeiros trocam a criação de gado pelo monocultivo de eucalipto, mesmo que fossem já terras muito concentradas, mas ainda abrigavam várias famílias. E aqui é importante dizer: Mato Grosso do Sul tem a maior concentração de terras do Brasil, temos 92% da terra em propriedades privadas e latifúndios, apenas 2% é destinada à reservas indígenas, mesmo que aqui viva a segunda maior população indígena no Brasil, o que têm causado muitos conflitos e mortes dessa população, e 1% são terras de assentamentos de Reforma Agrária. Assim, com a expulsão dos camponeses das fazendas, muitas mulheres passaram também a trabalhar nas plantações de eucalipto, impossibilitadas de seguirem trabalhando com agricultura familiar. A Fibria tem 12% de mulheres contratadas, não é muito, a maioria são homens, mas a maioria dessas mulheres trabalham em posições de trabalho pesado, fazendo buracos para as mudas, plantando mudas, controlando formigas com uso de venenos. Mieceslau conversou com várias mulheres do campo que relataram a ele esses e outras dificuldades.

Também há o aumento da violência doméstica na região, que aumentou 300% nos últimos 10 anos, de acordo com dados da polícia, seguindo também esse aumento urbano que se deu pela expansão do complexo da celulose. Quanto a esses números, não podemos dizer ao certo se isso é a violência em si que cresceu, pois sabemos que houve também um aumento das denúncias de violência doméstica, então há os dois fatores combinados, as mulheres estão denunciando mais, pois há melhores leis de proteção à mulheres em situação de violência, porém pode também haver um aumento na incidência dos casos.

Outro efeito direto foi o aumento da prostituição na cidade, em decorrência do aumento de trabalhadores temporários, majoritariamente homens, que vêm à cidade e estimulam o comércio sexual. Então há mais mulheres trabalhando nessas condições de risco.
Eu conheço um pouco mais três assentamentos de Reforma Agrária, que estão rodeados pelas plantações de eucalipto. Eles abrigam 500 famílias, é bastante gente, e como a Mariele disse, eles estão bem abandonados pelo poder público, são deixados na terra sem acesso a água ou luz, é uma questão complicada. Muitas dessas pessoas também trabalham para a indústria de celulose, principalmente nas plantações, como o Mieceslau mencionou. Mas eles estão também resistindo, importante lembrar, e as mulheres têm uma participação importantíssima nessa resistência. Há um Comitê das Mulheres Camponesas, que foi formado nos últimos dois anos, também com a parceria da UFMS e do Ministério do Desenvolvimento Agrário, cuja função era voltada à agricultura familiar, porém com as últimas mudanças políticas no cenário brasileiro, esse ministério não existe mais. Esse comitê reúne mulheres de 6 assentamentos da região, e elas têm trabalhado bastante pra se reunir e buscar maneiras de sobreviver e permitir sua recriação no campo.

Também no Brasil, em geral, temos um bom histórico de mulheres camponesas lutando contra os monocultivos de eucalipto. Em 2006, um grupo de 2000 mulheres invadiu um viveiro de mudas da Aracruz celulose, destruindo centenas de mudas, chamando atenção para os riscos das monoculturas, lutando pela biodiversidade, associada à fertilidade, que é também um tema que toca muito proximamente as mulheres. Elas carregavam a bandeira da soberania alimentar, lutando pelo retorno do acesso à terra.  Em 2007, outro grupo de mulheres entrou no viveiro da Suzano. Após isso, várias outras manifestações semelhantes foram ocorrendo em muitas cidades no Brasil, ano após ano. Existe o MMC - Movimento de Mulheres Camponesas, que faz várias ações protestando contra as grandes empresas que controlam os monocultivos de eucalipto, assim como empresas relacionadas ao agronegócio em geral, que comprometem a Soberania Alimentar, como Bunge ou Monsanto. Elas denunciam a morte e aridez do chamado Deserto Verde, fazendo o contraste da relação entre diversidade e fertilidade.

Esses atos que relatei são muito relevantes, pois demonstram onde as mulheres camponesas se posicionam na luta contra o agronegócio como um todo, em meu ponto de vista. Porque estamos falando de eucalipto, mas poderia ser cana-de-açúcar, soja, algodão transgênico na Índia - tudo segue esse padrão de sistemas de monocultivo, aliado ao uso massivo de agrotóxicos, altamente poluentes, uso de alta tecnologia e engenharia genética, apoio financeiro dos governos, grande impacto nas comunidades, com grande parte do volume voltado ao mercado externo. Esse modelo tem sido replicado em todo o mundo, e é um problema bem complexo pra resolver, eu não tenho respostas, mas penso que a principal questão deveria circular em torno de como podemos mudar esse modelo? Porque isso não está funcionando. Nós temos metade do mundo em situação de fome, majoritariamente no hemisfério sul, onde as grandes companhias utilizam a mão-de-obra e a terra baratas. Estatísticas apontam que 70% das pessoas abaixo da linha de pobreza são mulheres do campo, portanto esse modelo econômico afeta direta e especialmente as mulheres.

Há uma fato interessante que também se relaciona à questão de gênero e a essa compreensão. Temos no Brasil quase 400 culturas indígenas diferentes, apesar de toda a destruição massiva que ocorreu desde o processo de colonização. Elas são culturas muito ricas e bem diversas, mas há um ponto central que as une, que é a compreensão da sacralidade da terra, a mãe terra, chamada Pachamama, também presente em outras culturas, mas muito forte nas culturas sul americanas. Esse conceito estabelece uma ligação muito forte entre as comunidades e a terra, que é vista como uma grande mãe que nos provê de tudo que necessitamos, então todos são responsáveis por seu cuidado e preservação. Isso é muito oposto à visão capitalista e neoliberal da terra, que a vê como lucro, valor financeiro, e portanto a controla com esse objetivo - extrair mais lucro. O modelo capitalista não respeita as comunidades ou a terra, ao invés de compreender que estamos todos conectados e que precisamos trabalhar junto para sobreviver.

Pra finalizar, podemos nos fazer alguns questionamentos: como podemos mudar esse modelo econômico que causa tantos problemas em todo o mundo, e que segue em plena expansão apesar dos limites impostos? Não sabemos exatamente o que vai acontecer, mas é um cenário assustador para se estar. Como podemos construir um novo modelo econômico, uma nova maneira de nos relacionarmos com a natureza como sociedade, ao invés de destruirmos tudo? Há algumas sugestões no relatório, de como podemos reduzir os danos e os impactos. Eu acredito que essas ações mitigatórias são importantes, pois somos parte do sistema, mas não podemos perder de vista que são mitigatórias, elas não resolvem o problema principal. Essas são algumas questões que eu faço a mim mesma. Obrigada pela atenção de todos.