sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

São Bento e Cajueiro: galinheiros e progresso na economia familiar




Foi nesse dia 28 deste mês – quarta-feira, por volta de umas dez e meia da manhã que Mayron Regis e Ana Reis ambos do Fórum Carajás vieram para Urbano Santos deixar o material para construção de dois novos projetos de galinha caipira em nossa região; um na comunidade São Bento e outro no Povoado Cajueiro(Urbano Santos). Mais uma iniciativa e abrangência dos que já existem em Mangabeirinha, São Raimundo, Surrão, Bracinho, Santa Rosa dos Garretos, Joaninha e Juçaral. Tenho certeza que o mercado alternativo de criação de aves nessas comunidades vai ser mais uma fonte extra de renda para as famílias do campo.
Sr. Pedro -, Presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do São Bento estava preocupado como funcionara o processo de construção do galinheiro, pois o mesmo já tinha sido orientado pelo Mayron para visitar o que já funciona na Comunidade Joaninha coordenado pelo João e Roseane, não tão muito longe da Guaribas I- São Bento. O Pedro disse portanto que nessa semana vai até lá para averiguar a situação. Já Edilson que coordenará o projeto no Cajueiro sabe como funciona, pois já conhece o que existe no Povoado São Raimundo por intermédio da Francisca. Estes projetos de galinha caipira serão mais um progresso na economia familiar na vida das famílias que vivem nessas comunidades tradicionais e que lutam por melhorias e pela Reforma Agrária. O Fórum Carajás apoia com o pontapé inicial, mas as associações tem que dá continuidade ao processo e aprender caminhar com seus próprios pés e não deixar morrer o projeto. As famílias do São Bento em nome da associação, estão com um pedido de regularização fundiária de mais de 500 hectares duma área de mata e chapadas, eles enfrentam a luta pela posse da terra contra a família tradicional dos “Bentos” e um gaúcho que por lá se estabeleceu há algum tempo atrás. Tanto o São Bento quanto o Cajueiro estão de parabéns por receber o material ajudando assim no desenvolvimento sustentável e econômico dos seus moradores.
Pode-se afirmar que galinha caipira é uma das iguarias de nossa região com pequi ou com leite de côco babaçu e arroz branquinho. Lembro daquelas caipiras que a Francisca - , presidenta da Associação do São Raimundo faz com arroz de pequi. Aguardamos com paciência a produção de galinha do São Bento e Cajueiro e sobretudo esperamos o convite do Pedro e do Edilson para a comemoração quando os frangos estiverem no ponto de corte.  

José Antonio Basto

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fábrica da Suzano em Imperatriz



   Enquanto alguns vislumbram a grandeza da fabrica ( lucros privados e produção de celulose), eu me preocupo com o grau de poluição que é jogada no rio Tocantins.
Wilson leite

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Causado por desmatamento, desequilíbrio em clima amazônico afeta regime de chuvas no resto do país


Amazônia é ‘bomba de água’ para toda a América do Sul e a seca que afeta parte do Brasil estaria relacionada a alterações neste bioma; pesquisadores veem risco de que floresta não consiga produzir chuva para suprir as próprias necessidades
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A Amazônia não é apenas a maior floresta tropical que restou no mundo. Este sem-fim de verde entrecortado por rios serpenteantes de tamanhos e cores variadas também não se limita a ser a morada de uma incrível diversidade de animais e plantas. A floresta amazônica é também um motor capaz de alterar o sentido dos ventos e uma bomba que suga água do ar sobre o oceano Atlântico e do solo e a faz circular pela América do Sul, causando em regiões distantes as chuvas pelas quais os paulistas hoje anseiam. Mas o funcionamento dessa bomba depende da manutenção da floresta, cuja porção brasileira, até 2013, perdeu 763 mil quilômetros quadrados de sua área original, o equivalente a três estados de São Paulo.
Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não aponta o dedo para culpados. O que importa para ele é reverter esse processo e não apenas zerar o desmatamento, mas recuperar a floresta. No relatório “O futuro climático da Amazônia”, divulgado em outubro de 2014, ele deixa claro que o único motivo para não se tomarem providências imediatas para reduzir o desmatamento é desconhecer o que a ciência sabe. Para ele, o caminho é conscientizar a população. “Agora é um bom momento porque as torneiras estão secando”, afirma.
No relatório, elaborado a partir da análise de cerca de 200 trabalhos científicos, ele mostra que a cada dia a floresta da bacia amazônica transpira 20 bilhões de toneladas de água (20 trilhões de litros). É mais do que os 17 bilhões de toneladas que o rio Amazonas despeja no Atlântico por dia. Esse rio vertical é que alimenta as nuvens e ajuda a alterar a rota dos ventos. Nobre explica que os mapas de ventos sobre o Atlântico mostram que, no hemisfério Sul e a baixas altitudes, o ar se move para noroeste na direção do equador. “Na Amazônia a floresta desvia essa ordem”, diz. “Em parte do ano, os ventos alísios carregados de umidade vêm do hemisfério Norte e convergem para oeste/sudoeste, adentrando a América do Sul.”
Essa circulação viola um paradigma meteorológico que diz que os ventos deveriam soprar das regiões com superfícies mais frias para aquelas com superfícies mais quentes. “Na Amazônia, o ano todo eles vão do quente, o Atlântico equatorial, para o frio, a floresta”, explica. Uma parceria com os russos Anastasia Makarieva e Victor Gorshkov, do Instituto de Física Nuclear de Petersburgo, tem ajudado a explicar do ponto de vista físico os fenômenos meteorológicos da Amazônia. Em artigo publicado em fevereiro de 2014 no Journal of Hydrometeorology, eles afirmam, com base em análises teóricas confirmadas por observações empíricas, que o desmatamento altera os padrões de pressão e pode causar o declínio dos ventos carregados de umidade que vêm do oceano para o continente. O grupo analisou os dados de 28 estações meteorológicas em duas áreas do Brasil e viu que os ventos que vêm da floresta amazônica carregam mais água e estão associados a maiores índices de chuvas do que ventos que partem de áreas sem floresta e chegam à mesma estação.
Isso acontece, segundo os pesquisadores, por causa da bomba biótica de umidade, uma teoria proposta pela dupla russa em 2007 para explicar a dinâmica de ventos impulsionada por florestas. Essa ideia completa a descrição feita pelo climatologista José Antonio Marengo, à época pesquisador do Inpe, de como a Amazônia exporta chuvas para regiões mais meridionais da América do Sul. A teoria da bomba biótica aplica uma física não usual à meteorologia e postula que a condensação da água, favorecida pela transpiração da floresta, reduz a pressão atmosférica que suga do mar para a terra as correntes de ar carregadas de água.
Desmatamento na floresta amazônia. Foto: Ana Cotta / Flickr
Desmatamento na floresta amazônia. Foto: Ana Cotta / Flickr
Os fundamentos da influência da condensação sobre os ventos foram apresentados em artigo publicado em 2013 por Anastasia e Gorshkov, em parceria com Nobre e outros colaboradores, na Atmospheric Chemistry and Physics, uma das revistas mais importantes da área. Por meio de uma série de equações, eles mostram que o vapor de água lançado à atmosfera pela transpiração da floresta gera, ao condensar, um fluxo capaz de propelir os ventos a grandes distâncias. De acordo com Nobre, a nova física da condensação proposta por eles gerou, ainda durante a revisão do artigo, uma controvérsia com meteorologistas, que debateram o assunto furiosamente em blogs científicos com a intenção de derrubar a principal equação do trabalho. Não conseguiram e o trabalho foi publicado. O pesquisador do Inpe explica a polêmica. “É uma física que atribui à condensação, um fenômeno básico e central do funcionamento atmosférico, um efeito oposto ao que se acreditava”, diz. “Será necessário reescrever os livros didáticos da área.”
Para dar a dimensão da dificuldade de diálogo entre físicos teóricos e meteorologistas, Nobre lembra que a física desenvolve um entendimento dos fenômenos atmosféricos a partir de leis fundamentais da natureza, enquanto a meteorologia o faz, em grande parte, com base na observação de padrões do clima do passado, cuja estatística é absorvida em modelos matemáticos. Tais modelos representam bem as flutuações climáticas observadas, mas apresentam falhas quando há alterações significativas no padrão.
É o caso agora, quando um novo contexto – ocasionado por desmatamento, mudanças globais no clima ou outros fatores – gera fenômenos climáticos inesperados para certas regiões, como chuvas mais torrenciais e secas mais extensas. A teoria física acerta onde extrapolações do passado erram, por isso é preciso, segundo ele, construir novos modelos climatológicos que recoloquem a física no centro dos esforços da meteorologia.
O momento agora é crucial porque o clima amazônico vem mudando. Secas importantes nessa região marcaram os anos de 2005 e 2010. “Antes a Amazônia tinha a estação úmida e a mais úmida, agora há uma estação seca”, diz Nobre. Os danos dessas secas na floresta não foram aniquiladores porque ela consegue se regenerar, mas o acúmulo dos danos aos poucos erode essa capacidade. Um efeito importante que já se observa, previsto há 20 anos por modelos climáticos, é um prolongamento da estação seca, que tem prejudicado a produção agrícola em porções do estado do Mato Grosso. A grande preocupação é que se chegue a um ponto de não retorno, em que a floresta já não consiga produzir chuva suficiente para suprir nem a si própria. Trabalhos de modelagem que levam em conta clima e vegetação indicam que esse ponto será atingido quando 40% da área original de floresta for perdida, um número que não é unânime. Segundo o relatório de Nobre, 20% da floresta já foi cortada e outros 20%, alterados a ponto de terem perdido parte de suas propriedades.
Se a teoria da bomba biótica estiver correta, os efeitos desse ponto de não retorno devem ser mais graves do que a savanização proposta pelo climatologista Carlos Nobre, irmão mais velho de Antonio. “Se a floresta perder a capacidade de trazer a umidade do oceano, a chuva na região pode cessar por completo”, diz o Nobre caçula. Sem água para sustentar uma savana, o resultado poderia ser uma desertificação na Amazônia. Se isso ocorrer, o cenário que ele infere para o Sul e o Sudeste do país poderia ser semelhante ao de outras regiões na mesma latitude: tornar-se um deserto.
Antonio Nobre não se arrisca a falar muito sobre São Paulo. “Meu relatório é sobre a Amazônia.” Mas ele acredita que a seca por aqui não independe do que acontece no Norte. Em sua opinião, foi possível devastar boa parte da mata atlântica sem sentir uma redução nas chuvas porque a Amazônia era capaz de suprir a falta de água na atmosfera local. Mas isso já não parece acontecer mais. Ele aproveita o ensejo para sugerir que não apenas a floresta amazônica, mas também a que acompanhava a costa de quase todo o Brasil precisa ser recuperada imediatamente. Se não for por outro motivo, o esgotamento a que chegaram as represas que alimentam boa parte da população paulista deveria bastar como argumento.
A exportação de água desde a Amazônia para outras regiões do Brasil, sobretudo o Sudeste e o Sul, é uma realidade, por meio do fenômeno conhecido como rios voadores. Um indício dessa linha direta foram as intensas chuvas no sudoeste da Amazônia no início de 2014, praticamente o dobro do volume habitual, ao mesmo tempo que São Paulo passava pelo pior momento de uma seca histórica. “A chuva ficou presa em Rondônia, no Acre e na Bolívia por causa de um bloqueio atmosférico, algo como uma bolha de ar que impedia a passagem da umidade. Isso criou uma estabilidade atmosférica, inibiu a formação de chuvas e elevou as temperaturas”, conta Marengo, agora pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ele é coautor de um artigo liderado por Jhan Carlo Espinoza, do Instituto Geofísico do Peru, que está em processo de publicação pela Environmental Research Letters e é parte dos resultados do programa Green Ocean (GO) Amazon, que tem apoio da FAPESP.
Não é possível, porém, afirmar o quanto essa relação determina a estiagem paulista. “Ainda não se sabe calcular quanto das chuvas do Sudeste vem da Amazônia nem quanto chega aqui trazido por frentes frias vindas do Sul, pela umidade carregada por brisas marinhas ou pela evaporação local”, diz. Para ele, o desmatamento pode ter um impacto no longo prazo, mas ainda é impossível dizer se ele está relacionado com a seca atual. “O Sudeste pode não virar um deserto”, pondera, “mas os extremos climáticos podem se tornar mais intensos”. Estudos usando modelos climáticos criados pelo grupo de Marengo já previam uma redistribuição do total das chuvas, com um volume muito grande em poucos dias e estiagens mais prolongadas, algo que já tem sido observado no Sudeste e no Sul do país nos últimos 50 anos.
Além desse efeito a distância, em escala nacional, a relação entre vegetação e recursos hídricos também se dá numa escala mais local, de acordo com o engenheiro agrônomo Walter de Paula Lima, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador científico do Programa Cooperativo de Monitoramento Ambiental em Microbacias (Promab) do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Em seus estudos sobre o efeito das florestas (ou sua remoção) em microbacias hidrográficas, ele mostrou que a mata ciliar, que acompanha os cursos de água, ajuda a manter a boa saúde de pequenos rios. “O sistema Cantareira, que abastece São Paulo, é formado por milhares de microbacias”, conta. “As que estão mais degradadas não contribuem para o manancial.” Essa avaliação, porém, carece de dados experimentais concretos. Segundo Lima, para se saber exatamente o efeito das matas ciliares nos mananciais seria necessário estudar uma microbacia experimental em que se possa medir propriedades dos cursos d’água com e sem a proteção de floresta, sem que haja outros fatores envolvidos. Um quadro praticamente inatingível.
Reservatório do sistema Cantareira, no estado de São Paulo. Luiz Augusto Daidone / Fotos Públicas
Reservatório do sistema Cantareira, no estado de São Paulo. Luiz Augusto Daidone / Fotos Públicas
Uma experiência prática que reforça a importância de se preservar as matas ciliares para a manutenção dos recursos hídricos é relatada pelo biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Esalq, especialista em recuperação de florestas nativas. Ele conta que há 24 anos a água desapareceu da microbacia de Iracemápolis, município no interior paulista. A prefeitura buscou ajuda na Esalq, e o grupo de Rodrigues implementou um projeto de conservação de solo da microbacia e de recuperação da mata ciliar que deveria estar ali. “Fui lá recentemente e levei um susto”, conta o pesquisador. O nível da represa está um pouco mais baixo, mas tem água suficiente para continuar abastecendo Iracemápolis, que teve sua população triplicada nesse período. “Toda a região está com problemas de falta de água, mas Iracemápolis não.”
As florestas afetam a saúde dos recursos hídricos por meio de sua influência nas chuvas, mas também tem importância a sua relação com as águas subterrâneas. O engenheiro Edson Wendland, professor no Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP de São Carlos, estuda justamente o que acontece com a recarga do aquífero Guarani quando o cerrado é substituído por culturas como pastagem, cana-de-açúcar, cítricos ou eucalipto. O trabalho tem sido feito na bacia do Ribeirão da Onça, no município de Brotas, interior paulista, estudada desde os anos 1980.
Por meio de poços de monitoramento e estações climatológicas, a ideia é detalhar, antes que não sobre mais vegetação original de cerrado por ali, como se dá a recarga do aquífero Guarani sob diferentes regimes de uso do solo. “Não é possível gerenciar o que não se conhece”, diz Wendland sobre uma das fontes de água subterrânea mais importantes do Brasil. O aquífero é uma camada porosa de rochas na qual se infiltra a água das chuvas, depois liberada lentamente para os rios. Essa diferença de tempo entre o abastecimento e a descarga, consequência do trajeto lento da água pelo meio subterrâneo, é o que garante perenidade aos rios, que dependem dessa poupança hídrica.
O grupo de Wendland tem mostrado, por exemplo, que a disponibilidade de água diminui quando se substituem as pequenas árvores retorcidas do cerrado, adaptadas a viver sob estresse hídrico, por eucaliptos, que consomem bastante água e em poucos anos atingem o tamanho de corte. Medições feitas entre 2004 e 2007 mostram que as taxas de recarga têm relação íntima com a intensidade da precipitação e o porte das culturas agrícolas nessa região onde o cerrado está praticamente extinto, de acordo com artigo aceito para publicação nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.
Isso não significa, porém, que os eucaliptos sejam vilões incondicionais. O impacto de árvores de grande porte depende, em parte, da profundidade do aquífero no ponto em que estão plantadas. Segundo Lima, os mais de 20 anos de monitoramento contínuo feito pelo Promab mostraram que a relação entre espécies florestais e água não é constante. “Onde a disponibilidade é crítica, um elemento novo pode secar as microbacias”, explica. “Mas onde o balanço hídrico e climático é bom, a diminuição de água nem é sentida.” Essas conclusões deixam claro que é necessário fazer um zoneamento de onde se pode plantar e onde a prática seria nociva, um planejamento que não existe no Brasil.
Para Wendland, a importância de entender a relação entre o cerrado e os aquíferos é crucial porque as nascentes da maioria das grandes bacias hidrográficas do país estão no domínio desse bioma. Além da importância como recurso hídrico, algumas dessas bacias – do Paraná, do Tocantins, do Parnaíba e do São Francisco – são as principais fornecedoras de água para geração de energia elétrica no Brasil.
Em pouco mais de meio século, metade da área do cerrado foi desmatada e deu lugar a atividades agrícolas. Para avaliar o efeito dessa alteração no uso do solo sobre a disponibilidade hídrica, o doutorando Paulo Tarso de Oliveira, do grupo de São Carlos, fez um estudo usando dados de sensoriamento remoto em toda a área desse bioma. Com os sensores, é possível avaliar não só a alteração da vegetação, mas também quantificar as precipitações, os índices de evapotranspiração pelas plantas e estimar a variação de armazenamento de água. Segundo artigo publicado em setembro de 2014 na Water Resources Research, os dados indicam uma redução do escoamento por causa de atividades agrícolas mais intensas.
O desmatamento e o uso agrícola do solo têm importância, mas Wendland afirma que o maior problema para a recarga do aquífero hoje é a redução nas chuvas. “O aquífero supre a falta de precipitação por dois ou três anos, depois já não consegue manter o escoamento de base nos rios”, diz. Nos últimos anos as precipitações da estação chuvosa foram abaixo da média, o que diz os resultados observados. Explica também, segundo ele, fenômenos alarmantes como o esgotamento da principal nascente do rio São Francisco, que permaneceu seca por cerca de três meses e só voltou a jorrar água no final de novembro.
O desafio do gerenciamento das águas subterrâneas, que representam 98% da água doce do planeta, tem outras particularidades em zonas urbanas, onde pode ser um recurso crucial. Segundo o geólogo Ricardo Hirata, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, 75% dos municípios paulistas são abastecidos, em parte ou completamente, por essas águas. Isso inclui cidades importantes do estado, com destaque para Ribeirão Preto, onde elas servem a 100% dos mais de 600 mil habitantes. Na escala nacional, outras cidades completamente abastecidas por águas subterrâneas são Juazeiro do Norte, no Ceará, Santarém, no Pará, e Uberaba, em Minas Gerais, de acordo com o livro Águas subterrâneas urbanas no Brasil, em processo de publicação pelo IGc e pelo Centro de Pesquisa em Águas Subterrâneas (Cepas).
Surpreendente nas cidades é que a água perdida pelo abastecimento público vai parar no aquífero. “A impermeabilização do solo diminui a penetração da água da chuva, mas as perdas compensam e superam essa redução e o saldo é uma recarga maior onde há cidades, em comparação com outras áreas”, explica Hirata. “Se analisarmos a água de um poço qualquer em São Paulo, metade será do aquífero e metade da Sabesp.” Ele estima que a capital paulista tenha quase 13 mil poços, todos particulares, muitos ilegais. “Existe uma legislação para gerenciamento desse recurso, mas ela não é seguida”, conta.
Um problema causado pelas cidades é a contaminação dos aquíferos por nitrato, devido a vazamentos no sistema de esgotos. Como a descontaminação é cara, os poços afetados acabam abandonados. Nas cidades em que são usados para abastecimento público, a solução é misturar água poluída à de poços limpos para que a qualidade total seja aceitável. “Em Natal não há mais água suficiente para mesclar”, alerta Hirata. O subterrâneo é fonte de 70% da água na capital potiguar.
Outro tipo de poluição importante vem da indústria, como a causada pelos solventes organoclorados. O geólogo Reginaldo Bertolo, também do IGc e diretor do Cepas, estuda como esse poluente se comporta no aquífero abaixo de Jurubatuba, na zona Sul paulistana, uma região industrial desde os anos 1950. “É um contaminante de difícil comportamento no aquífero”, conta. Nessa rocha dura, onde a água corre em fraturas, o composto mais denso do que a água se aprofunda e só para quando chega a um estrato impermeável. “São produtos tóxicos e carcinogênicos.” A poluição impede o uso da água subterrânea numa região onde a demanda é forte.
Em colaboração com pesquisadores da Universidade de Guelph, no Canadá, o grupo de Bertolo está mapeando esses poluentes para entender como ele se comporta e propor estratégias para eliminá-lo do aquífero. Para isso, o próximo passo é usar um sistema desenvolvido pelos canadenses para retirar amostras da rocha e instalar poços de monitoramento especiais. “O equipamento permite coletar água de mais de 20 fraturas diferentes numa mesma perfuração”, afirma. “Vamos fazer um modelo matemático para reproduzir o que acontece e fazer prognósticos.”
Bertolo alerta que é importante mapear melhor as águas subterrâneas e analisar sua qualidade, porque é um recurso que pode ser complementar nas cidades. “A água subterrânea é um recurso pouco conhecido.” A engenheira Monica Porto, da Escola Politécnica da USP, não acredita que seja possível expandir muito o uso dessas águas na Região Metropolitana de São Paulo. Em sua opinião, para ir além dos cerca de 10 metros cúbicos por segundo (m3/s) extraídos dos milhares de poços existentes, seriam necessários milhares de novas perfurações. “Mas esses 10 m3/s não podem faltar, precisamos cuidar deles.”
Monica, que já foi presidente e ainda integra o conselho consultivo da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, pensa em maneiras de assegurar a segurança hídrica para a população. Faltar água está, de fato, entre as coisas mais graves que podem acontecer numa cidade. “Somos obrigados a trabalhar com uma probabilidade de falha muito baixa.” Segundo ela, em 2009 o governo paulista encomendou a uma empresa de consultoria um estudo sobre o que precisaria ser feito para garantir o suprimento de água. O estudo ficou pronto em outubro de 2013, já em meio à mais importante crise hídrica da história do estado. Monica explica que é impossível considerar a Grande São Paulo de forma isolada, porque não há mais de onde tirar água sem disputar com vizinhos. Por isso, o estudo abrange a megametrópole, que engloba mais de 130 municípios e uma população de 30 milhões de pessoas.
As obras necessárias à melhoria da segurança hídrica já começaram, com um sistema para recolher água do rio Juquiá, no Vale do Ribeira, que deve ficar pronto em 2018. Está em fase de licenciamento ambiental a construção das barragens de Pedreira e Duas Pontes, que devem abastecer a região de Campinas. “Manaus e Campinas são as únicas cidades do Brasil com mais de um milhão de pessoas que não têm reservatório de água”, conta Monica. Não faz falta a Manaus, às margens do rio Amazonas, mas faz a Campinas, que depende do sistema Cantareira. Ela, que em casa “faz das tripas coração” para economizar água, afirma que a crise atual é importante para conscientizar a população sobre a necessidade de se reduzir o consumo. Também ressalta a importância do conjunto de medidas que precisará ser revisto em caráter emergencial. “Temos que aprender pela dor”, diz Monica, que costuma brincar que é melhor que não chova muito para não afastar a instrutiva crise. “Mas, se não chover muito em breve, vou parar de brincar: precisa chover.”
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Matéria original publicada na revista Pesquisa FAPESP

SOCIEDADE, ECONOMIA E CULTURA URBANO-SANTENSE. É DIA DE FARINHADA!




farinhada na comunidade Baixa Grande
A farinha de mandioca, farinha de puba ou farinha d`água e farinha seca é um derivado da matéria prima da mandioca, conhecida cientificamente por “Manihot esculenta.” A arte de fazer farinha é uma atividade centenária herdada dos nossos 
ancestrais indígenas da América Latina.
Há estudos afirmativos que a fabricação de farinha no Brasil tenha também a contribuição cultural dos Africanos que aqui trabalharam como escravos nos séculos XVI, XVII, XVII e XIX.
Mas é certo que a mandioca tenha sua origem nas terras americanas, onde explica a nota: “O nome dado ao caule do pé de mandioca é maniva, o qual, cortado em pedaços é usado no plantio. Trata-se de um arbusto que teria tido sua origem mais remota no oeste do Brasil (sudoeste da Amazônia) e que, antes da chegada dos europeus à América, já estaria disseminado, como cultivo alimentar, até a Mesoamérica (Guatemala e México). Espalhada para diversas partes do mundo, tem hoje a Nigéria (África) como seu maior produtor.
No Brasil, possui muitos nomes, usados em diferentes regiões, tais como: mandioca-brava - a que contém o veneno ácido cianídrico, aipim, castelinha, macaxeira, mandioca-doce, najazinha, branquinha, praiana, mandioca-mansa, maniva, maniveira, pão-de-pobre e variedades como aiapuã e caiabana, ou nomes que designam apenas a raiz, como caarina.”

O Município de Urbano Santos no Leste Maranhense já foi líder na fabricação de farinha. Nos anos 70, 80 e 90, saia de nossa região muitas carradas de paneiros e sacos de farinha de puba, para a venda em outras cidades do Estado e principalmente para a comercialização na Capital São Luís.
A farinha produzida no Município de Urbano Santos era conhecida nesse tempo como especial, bem amarela e sequinha. Em alguns casos os seus fabricantes adicionavam à massa manteiga e côco da praia, para dar um sabor muito mais irresistível. Muitas comunidades da zona rural viviam da produção de farinha, que tem sua fase inicial no mês de Julho indo até final de Novembro.
Para esse processo tudo começa no plantio lá na roça. Quando o lavrador ao acordar cedinho leva sua família para “plantar maniva” enquanto uns cavam o chão, outros cortam o caule da planta em pedaços de dezesseis a vinte centímetros, onde outras pessoas vão concluindo colocando-os na cova e cobrindo com pouca terra.
Depois de um determinado tempo, surgem os primeiros brotos e então nasce dali uma bela roça de mandioca (são miguel – san nunga ou roça de janeiro). Depois de um ano a mandioca está madura, no ponto da colheita. É hora de preparar os jegues com jacás (recipiente feito de talas de banbú) e xaxos (um pedaço de metal com um cabo de madeira) para arrancar a mandioca da terra.

Arranca-se as raízes da terra, levando-as até o pubeiro (local onde se coloca as raízes de molho durante três dias no rio, lagoa ou tanque feito de cimento). Passando-se esse período é o momento de “tirar a puba” as raízes já sem o leite e amolecidas são lavadas e colocadas nos jacás novamente e destinadas aos girais (espécie de suporte feito de madeira e coberto de palhas para alojar a puba). 
tapitis e roda bulandeira


Do giral a puba vai para o “banco do caititú” e em seguida a massa é triturada. Para acontecer esse processo, antigamente se usava a famosa “bulandeira” (roda de madeira) onde na maioria das vezes, dois homens com as forças dos braços, puchavam a roda que através de uma correia feita de couro cru anexada à púlia (pequeno pedaço de madeira escavado) girava a “bola do caititu” (uma espécie de ralo) parecida com o porco caititu das selvas. Nesse sentido uma mulher sentada no banco faz o manejo do ralamento perigoso da puba, a massa cai no cocho.

Depois a massa já triturada é, colocada nos “tipitis” (cestos compridos feitos de palha de buriti - tapiti), a massa é escorrida e depositada na gamela para ser peneirada, usa-se uma peneira feita de talas de tabocas, guarimã ou buriti para essa prática. A massa peneirada é enviada para o forno, que já está muito aquecido e ensebado com sebo de gado ou azeite de babaçú, para não grudar a massa no metal ou cobre.

Os primeiros momentos chama-se “passar a massa” depois da massa passada no vai-e-vem do rôdo, ela é recolocada em outro forno para o ponto final, conhecido como “secar a farinha” (apuramento da farinha). Passado esse momento a farinha torrada é depositada nas gamelas para o esfriamento e depois de fria, segue-se para o empaneiramento, botar a farinha nos côfos de palha de babaçú.
Os lavradores tem o costume de fabricar os côfos artesanalmente (cestos de palha de babaçu ou palmeira najá) e colher folhas de axixá, guarimã ou bananeiras. Os paneiros são forrados com as folhas para o alojamento da farinha.  Portanto chega-se ao fim da farinhada. Os lavradores vendem a farinha para resolverem seus negócios.  Nos anos oitenta e noventa em Urbano Santos era muito comum os camponeses se preparar para a farinhada com o intuito de vendê-la para conseguir algum dinheiro e passar o “FESTEJO DA NATIVIDADE” de 1º a 7 de Setembro. Essa tradição é mantida até os dias de hoje em nossa cultura.
Urbano Santos foi grande campeão de fabricação de farinha. Isso deve ser reconhecido, pois as gerações contemporâneas e futuras podem tomar conhecimento desse maravilhoso processo que contribui para o avanço do nosso município tanto na questão socioeconômica, cultural e social, perpetuando-se de gerações para gerações. “Farinhada é motivo de alegria, força de trabalho rural, cultura e desenvolvimento sustentável e solidário.” Viva a farinhada de Urbano Santos.
José Antonio Basto
Poeta e pesquisador
(98) 98890-4162
bastosandero65@gmail.com 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

NOTA DE REPÚDIO- COMISSÃO PASTORAL DA TERRA/MARANHÃO E STTR DE ALTO ALEGRE DO MARANHÃO




A Comissão Pastoral da Terra e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alto Alegre do Maranhão, por meio desta nota, repudiam, com veemência, mais um ato de violência ocorrida no interior do Maranhão, afetando diretamente comunidade quilombola.

Em 25 de janeiro de 2015, domingo, enquanto participavam de reunião do território quilombola de Mamorana, zona rural de Alto Alegre do Maranhão, as lideranças quilombolas José Maria da Conceição e Raimundo Gomes Soares, o Sabonete, tiveram suas casas criminosamente incendiadas e, em consequência, perderam todos os pertences de uso doméstico, sementes para plantio (arroz, feijão e milho), ferramentas de trabalho e um paiol de arroz.

Desde o ano de 2009 que a comunidade vem sofrendo com ameaças constantes por parte de fazendeiros da região, envolvendo diretamente criadores de gado bovino do médio Mearim, em especial o Sr. José de Arimateia, que  ingressou em 2010 com ação de reintegração de posse contra as famílias quilombolas, tendo perdido a ação. Não satisfeito, o criador de gado tem tentado cercar mais de 400 hectares de terra pertencente ao território quilombola.

A situação é extremamente grave! Apesar dos anos de conflito e de inúmeras denúncias realizadas pelos trabalhadores rurais, o processo de titulação da comunidade, realizado pelo INCRA,  tem caminhado muito lentamente. As famílias quilombolas temem que haja mais violência e que suas lideranças sejam mortas.

O Estado do Maranhão ocupa o primeiro lugar em número de conflitos agrário no Brasil. Somente em janeiro de 2015, mais de 35 conflitos agrários em todo o estado. A inércia do governo federal, em realizar reforma agrária e titular territórios quilombolas, é responsável direta pela quantidade absurda de conflitos agrários.

Alto Alegre do Maranhão, 26 de Janeiro do de 2015.


Antonia Calixto de Carvalho                                                Francisca DA Silva Vieira

Comissão Pastoral da Terra/MA                                      Presidente STTR de Alto Alegre do Maranhão

Os males e desacatos aos direitos humanos praticados por gaúchos e a Empresa Suzano contra as populações tradicionais do Baixo Parnaíba Maranhense.



Muitos são os desacatos que aflige os direitos humanos e da vida na Região do Baixo Parnaíba Maranhense. Um desses é o ataque antiético e imoral à cultura ancestral dos camponeses que moram nas comunidades das chapadas. Nesse sentido, pode-se perceber que a maioria dos cemitérios, por exemplo, são localizados nas extremidades das chapadas é dai então que em muitos casos onde essas chapadas foram ocupadas por Gaúchos e a Suzano, estes lugares sagrados são ameaçados a cada momento pelo avanço do agronegócio da soja e do eucalipto.
O “cemitério centenário da Chapada do Meio” no município de Urbano Santo é uma prova de quanto estes desacatos ao modo de vida das populações tradicionais são vítimas dos impactos causados; um trabalhador rural certa vez disse: “Esses gaúchos não respeitam nosso modo de vida, nossa cultura, suas cercas passam por dentro de nossos cemitérios, cercam nossos mortos, querem acabar com tudo”. Os chamados grupos de Gaúchos chegaram no Leste Maranhense com o intuito de trabalhar com a monocultura da soja, pois já não bastasse a grande problemática da Suzano Papel e Celulose que atrasa a luta pela Reforma Agrária ao contrário de nossa batalha pelo projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário. Muitos campos de soja e eucalipto adentram as áreas onde os cemitérios estão implantados há muitos anos; um dos exemplos claros também é o do Povoado Custódio em Urbano Santos que encontra-se dentro do eucalipto. Uma comunidade tradicional do município de Brejo não recordo muito a época, um trator de gaúcho ameaçou passar por cima dos túmulos do cemitério da população, os moradores reagiram para o combate; que se o trator destruísse mesmo o local eles ateavam fogo nas máquinas e ali no momento morreria gente, o proprietário recuou e parou com a obra. Um verdadeiro assombro desses caras que vem do sul do país querer mudar o modo de vida das comunidades. O livro tese de mestrado “O Eldorado dos Gaúchos” do Professor Rafael Gastar trata sobre essas questões das relações sociais entre as duas partes (conflitos agrários ambientais no leste maranhense por motivo da monocultura da soja). O antropólogo Rafael tenta entender como o avanço das fronteiras dos monocultivos em especial a soja invade o território do Leste Maranhense assim causando conflitos com os extrativistas e os movimentos sociais, ele ainda disserta analisando que os campos de sojas são muito mais perigosos e devastadores com seus produtos tóxicos e sua política em comparação com o eucalipto. Nos campos de soja não existe sombras, no processo de construção desses campos as chapadas são invadidas e derrubadas pelo correntão, quase sempre por mera conscidencia os plantios de soja ficam pertos de cabeceiras de rios e riachos que acabam sofrendo com o desaparecimento total, além da extinção das espécies vegetais e animais que seguram a biodiversidade do cerrado.
Para acentuar é importante lembrar que a nascente do Rio Boa Hora, um dos mais importantes de Urbano Santos, esta foi transformada em um campo de soja. Em 2011, o estudante do curso de Geografia da UEMA, Daniel, estava pesquisando sobre a bacia do Boa Hora, foi então que ele acabou descobrindo que o coração do rio é um imenso campo de soja que fica nas proximidades dos povoados Capão, Capãozinho  e Bom Sossego.  Por isso que o Boa Hora está nessa horrível e hedionda situação de seca do seu leito. Um rio de águas claras até inicio da década de 90, infelizmente agora é um pequeno riacho que corre o risco de desaparecer totalmente.
Este é o progresso que a gauchada e a Suzano tem para o Baixo Parnaíba? Um legado de devastação, violência, grilagem e desacato aos direitos morais, culturais e de sobrevivência dos povos habitantes do território livre. Os movimentos sociais precisam reergue-se para juntos lutarmos lado a lado contra esses problemas que vem se arrastando há muitos anos. Antes da chegada da Suzano e depois os gaúchos, tudo era muito diferente, a vida, a fauna, a flora, as chapadas, os rios, lagoas, cabeceiras... em fim a biodiversidade no Baixo Parnaíba. A ganância pelo dinheiro cega as pessoas de tal forma que elas passam despercebidas de que um dia poderão também desaparecerem junto com a mão natureza.

José Antonio Basto
21/01/2015
militante dos direitos humanos -, Baixo Parnaíba Maranhense
email: bastosandero65@gmail.com


domingo, 25 de janeiro de 2015

A Chapada e o Baixão em São Bento

Eles pararam para pedir informações. Bem na hora do almoço. Sairam naquele horário porque quase certo encontrar o seu Pedro, presidente da Associação de São Bento, em sua casa. Quer dizer, não tinham tanta certeza assim. Só tinham certeza do calor que fazia. Após o almoço, as pessoas evitavam ao máximo pisar fora de casa. Ninguem caminhava por aquele areal debaixo daquele sol. As pessoas esperavam que tampouco, nesse horário, houvesse alguma visita às suas casas. Em alguns casos, para os moradores, uma visita inesperada significa dar atenção e dar de comer. A gente do interior não tem da onde tirar. Sente-se isso logo na entrada de qualquer casa, até mesmo dos proprietários ou de quem um dia fora um grande proprietário. Os proprietários já tiveram de onde tirar. A família dos Bentos vendeu 800 hectares de Chapada para um “gaúcho”. Quem é esse “gaúcho”? O seu Pedro só sabe que ele reside em Urbano Santos. O “gaúcho” ainda não fizera uso da Chapada para produção de carvão como geralmente acontece em seguida à uma compra dessas. A Associação de São Bento luta pela regularização de uma área de mais de 500 hectares junto ao Iterma. Essa área está em questão com a família dos Bentos e com os agricultores que rezam pela cartilha dos proprietários. A Associação se colocou contra uma roça que os Bentos começaram porque ela se localiza dentro da área pleiteada para regularização e por chegar bem próximo a nascente do córrego das Guaribas. O córrego das Guaribas desemboca no rio Preguiça. A intenção do grupo de seu Pedro é fixar moradia nos mais de 500 hectares assim que o Iterma regularizar a área em nome da associação. Contudo, 500 hectares são insuficientes para a manutenção de atividades produtivas de qualquer grupo que seja, pois, quase certo, aumentar o numero de pessoas no grupo e, quase certo, vai se precisar de madeira para construção de casas. Os agricultores vão atrás de madeira para construção na Chapada. Em nenhum outro lugar. Caso o “gaúcho” desmate a Chapada para alguma finalidade agrícola, os agricultores ficam sem madeira. Vão conseguir madeira em que Chapada e vão pagar com que recurso por essa madeira? Só com o Baixão e sem a Chapada, reduz-se a capacidade dos agricultores de manterem o seu modo de vida tradicional.
Mayron Régis 

sábado, 24 de janeiro de 2015

BNDES financia construção de armazéns no Cerrado


Montante de R$ 27 milhões será usado para armazéns de grãos no Maranhão e na Bahia


O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou a liberação de R$ 27 milhões ao grupo Amaggi e LD Commodities para financiar a construção de dois armazéns de grãos na região do Cerrado.
Do montante total, R$ 13 milhões serão destinados ao armazém a ser construído em Balsas, no Maranhão, que terá capacidade para 70 mil toneladas. O restante dos recursos (R$ 14 milhões) será usado na construção de um armazém com capacidade de 50 mil toneladas na cidade de Formosa do Rio Preto, na Bahia.
Segundo o BNDES, os recursos virão de um projeto destinado a atender as necessidades de expansão da capacidade de armazenagem no Brasil.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Pesquisadores defendem importância da moratória da soja no combate ao desmatamento




Daniela Torezzan / ICV
Foto: Arquivo ICV
Foto: Arquivo ICV
Em artigo publicado nesta sexta-feira (23) na revista Science, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos reforçam a importância da manutenção da moratória da soja como instrumento capaz de conter o desmatamento na Amazônia. Eles defendem ainda ajustes para abranger desmatamentos menores e a extensão da moratória para o Cerrado.
As análises apresentadas no artigo mostram a eficácia da moratória na redução do desmatamento vinculado à soja na Amazônia, incluindo uma comparação com o Cerrado, onde a medida não foi adotada e o desmatamento para plantio do grão continuou. Mostram também alguns pontos fracos, como o fato de o monitoramento abranger somente áreas maiores que 25 hectares e não cobrir assentamentos da reforma agrária.
Além disso, os pesquisadores avaliaram a situação e perspectivas de curto prazo de implementação do Código Florestal e concluíram que as medidas previstas não são suficientes para impedir o ressurgimento de novos desmatamentos para cultivo da soja.
 Segundo o artigo, o bioma amazônico tem 14,2 milhões de hectares de floresta tropical não protegida com condições adequadas para o plantio de soja, e até dois milhões desses hectares poderiam ser desmatados legalmente, de acordo com o Código Florestal. “Sem a moratória, essas florestas estariam vulneráveis a ocupação pela soja”, diz trecho do artigo publicado na Science.
Para Laurent Micol, coordenador executivo do Instituto Centro de Vida (ICV) e um dos coautores da pesquisa, essa discussão acontece num momento importante em que grandes empresas multinacionais têm assumido o compromisso pelo desmatamento zero. “Não podemos retroceder em uma ação que está dando certo. É fundamental estender a moratória ou substituí-la por algo com uma eficácia igual ou maior, e também incluir o Cerrado para garantir que não haja desmatamento na cadeia produtiva da soja”, reforçou.
A Moratória da Soja é um acordo voluntário firmado entre governo, indústria e sociedade civil, em vigor desde 2006 com prazo de término previsto para maio de 2016, pelo qual as grandes empresas comercializadoras de soja se comprometem a não comprar grãos produzidos em áreas de novos desmatamentos na Amazônia. Para isso, as plantações são monitoradas por satélites e a soja proveniente de desmatamento não encontra mercado consumidor.
O artigo científico é assinado por dez pesquisadores, incluindo três de instituições brasileiras: Britaldo Soares Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), e Laurent Micol, do Instituto Centro de Vida (ICV). A primeira autora é Holly Gibbs, da Universidade de Wisconsin, nos EUA.

Fruto do cerrado pode gerar mais renda às comunidades extrativistas


Ele tem aparência e sabor singulares e é bastante utilizado na culinária das cidades do cerrado. O pequi, uma espécie tipicamente brasileira, pertencente à família Caryocaraceae e encontrado comumente no cerrado maranhense, é um alimento do qual sobrevivem muitas famílias, por meio da atividade extrativista. Mas, atualmente, apenas a polpa do pequi é utilizada na mesa maranhense.
Pensando em alternativas sustentáveis de aproveitamento integral do alimento, a pesquisadora Antonia de Sousa Leal, do Centro de Ciências Exatas e da Terra, Campus Grajaú, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), desenvolve um projeto de forma interdisciplinar que pretende propor meios de melhorar a utilização do pequi, agregando mais valor ao fruto e gerando renda às famílias que dele dependem.
Associar o valor alimentício e o potencial químico do fruto à geração de vários produtos é um dos objetivos da pesquisa, apoiada pela FAPEMA por meio do Edital Universal.
Descrição: pequi ok
“Os produtos obtidos pelo aproveitamento integral do fruto do pequi favorecerão a valorização e preservação das espécies nativas, influenciando de forma positiva na renda das famílias que dependem da venda dos pequis”, explica Antonia Leal.
As partes antes descartadas, como o caroço e a casca, podem ser utilizadas para o desenvolvimento de novos produtos. A pesquisadora enumera algumas das possibilidades: “Da casca do fruto do pequi pode ser extraída a pectina, um polissacarídeo de grande aplicação na área alimentícia e farmacêutica. O caroço e a casca podem ser utilizados na obtenção de carvão ativado para fins de tratamento de água. Da polpa e amêndoa do pequi se extrai um óleo rico em constituintes químicos de aplicação na área farmacêutica e cosmetologia”.
“O isolamento e aplicação desses produtos obtidos a partir do pequi poderiam agregar valor ao fruto através de uma cooperativa, ou uma pequena indústria de beneficiamento para coleta do pequi e separação de tais produtos, e sua comercialização para diferentes setores industriais”, esclarece a pesquisadora.
Para que o extrativismo do pequi possa se tornar uma atividade economicamente mais rentável para a comunidade local, um dos objetivos da pesquisa também é promover um processo educacional entre a população, levando conhecimento a partir dos resultados que forem obtidos após a pesquisa experimental, com palestras, encontros, concursos e produção de material didático-científico sobre o aproveitamento integral do pequi no âmbito acadêmico, escolar e comunitário. ”Também pretendemos promover a discussão sobre os produtos da cadeia produtiva do pequi entre agricultores extrativistas, e sobre produção e consumo sustentável entre os consumidores”, acrescenta.
Com apoio da FAPEMA, a pesquisadora conta que o laboratório de Química do Campus Grajaú está sendo estruturado, despertando a curiosidade e estimulando o envolvimento dos alunos bolsistas participantes do projeto. ”Ao fomentar e incentivar o conhecimento técnico-científico e sua aplicação prática criativa, a FAPEMA ajuda na formação de indivíduos com uma visão mais crítica da sua realidade local, promovendo mudança de comportamento frente aos recursos naturais disponíveis de forma sustentável. O projeto coloca os agentes envolvidos no caminho de transformar a sua realidade por meio da pesquisa, propondo alternativas tecnológicas para resíduos gerados a partir do fruto do pequi”, conclui Antonia de Sousa Leal.

Fonte: FAPEMA