domingo, 5 de julho de 2020

Cidades invisiveis

Se uma cidade é invisível como provar que ela existe ou existiu ? Essa, com certeza, não foi a premissa de onde partiu ítalo Calvino ao escrever “As cidades invisíveis”. “Se cada cidade é como uma partida de xadrez, o dia em que eu conhecer suas regras finalmente possuirei meu império apesar de nunca conhecer as cidades que ele contém”. Pelas páginas de “Cidades Invisiveis”, lê-se vários diálogos erráticos entre o conquistador mongol Kublai Kahn e o viajante italiano Marco Polo e várias descrições de cidades por espaços inverossímeis. Ou seriam descrições de cidades impossíveis ? Italo Calvino escreve cidades inexistentes ou quase existentes pelo menos nas longas apresentações de Marco Polo a Kublai Kahn. “As descrições das cidades visitadas por Marco Polo tinham esse dom: era possível percorre-las com o pensamento, era possível se perder parar para tomar um ar fresco ou ir embora rapidamente”. A descrição das descrições de Marco Polo ressalta sutilmente que as cidades descritas pelo discurso só existem na mente e não na memoria porque seria impossível ele ter passado por tantas cidades e te-las memorizado para depois recria-las em seu intimo. Marco Polo não recria cidades e sim as cria na sua imaginação para o deleite de Kublai Kahn. Só uma cidade não é criada em sua imaginação e portanto é recriada por sua memoria.”Todas as vezes que descrevo uma cidade digo algo a respeito de Veneza”.

Bar do Leo

Eles acertaram o horário no dia anterior. Com relação ao local onde conversariam ainda duvidavam de qual escolher. “Cara, fui ontem ao bar do Leo e senti-me um bolsonominion” “é uma sensação passageira, vamos lá” “Meio-dia, então”. Ele aproveitava essas ocasiões para deixar o celular e desapegar um pouco dele. A idosa se benzia dentro do ônibus incontáveis vezes. Ela enxergava a cidade esparramada pelos manguezais. A cidade que sonhou ser indestrutível e invencível e que joga fora seus pesadelos no leito do rio. Ele chegou adiantado alguns minutos no mercado do Vinhais. Adiantara a sua chegada para conferir a quantidade de fregueses no bar ( cheio, meio cheio ou vazio) e puxar rumo de prosa com o Leo. Entre os dois havia perspicácia de tanto tempo que nada passou.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Papeis velhos

Pouco se saia de casa. O dia se perpetuava em poucos espaços e em poucas aberturas para deslocamento. As pessoas se deslocavam para o trabalho e para a escola no centro da cidade e retornavam para almoçar. Novamente saiam em direção ao centro com objetivos escolares e objetivos trabalhistas. A vida no bairro se comprazia nos comércios de esquina em que se comprava uma manteiga que se enrolava e pães que se enrolavam em papéis velhos para o café da manhã e nas feiras onde se comprava um litro de juçara e um quilo de farinha seca para a sobremesa do almoço. O comercio aglomerava compradores de bens de consumo não duráveis e espectadores do espetáculo cotidiano que davam um tempo no local para procurar o que fazer em outro canto. A feira dispensava aglomeração dentro e fora dela. Comprava-se rápido e com pouca exigência. Não podia ser diferente. Quem trabalhava como feirante naquelas condições sanitárias não queria estar lá. Ganhava-se pouco, uma miséria para falar a verdade. Tirando um outro privilegiado, a maioria da população ganhava o insuficiente para sobreviver. Quem trabalhava na feira, trabalhava não porque queria, mas sim porque nesse espaço se podia atender as exigências da sociedade que eram poucas para esse tipo de trabalho. As pessoas não queriam saber de brincadeiras. Eram espaços muito adultos, o comercio, a rua e a casa. A noite se vislumbrava uma abertura e um afrouxamento na vigilância. As crianças brincavam juntas porque praticamente passavam o dia sozinhas em seus afazeres domésticos e em seus afazeres escolares. A rua à noite era o espaço de aglomeração e de perdição de poucas horas. Coisa que não se permitia no restante do dia.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Um rio e um conto

Um rio e um conto Deus não lhe deu o direito de escrever certo por linhas tortas. Ele mal escreve errado por linhas áridas. Ele ri ou ele conta? Se ele estiver nervoso, melhor rir; se ele estiver sério, melhor contar. Antes rir do que chorar um rio ou um vale de lágrimas. A tristeza não conta nesse final de história. De quantos contos ele precisa ? Ele conta o que sabe e mente sobre o que não sabe. A mentira ri de suas pernas curtas e conta a verdade inculta. Quem conta não esquece jamais.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Os criticos de machado de assis

Guimarães Rosa não mede palavras ao se referir a Machado de Assis depois da leitura de seu livro Dom Casmurro. “Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos:  acho-o antipático no estilo, cheio de atitudes para “embasbacar o indígena”; lança mão de artifícios baratos...”. Quem leu os dois escritores e acontece de ler primeiro a prosa Machado de Assis para em seguida ler a prosa de Guimarães rosa concluiria que a linguagem de Machado referenciaria a linguagem de Guimarães Rosa. Santa ingenuidade. Tal tipo de conclusão, de que Machado de Assis é o grande provedor da literatura brasileira, é simplista e as frases de Guimarães Rosa escancaram as diferenças entre as linguagens de um e de outro. Diferenças entre Machado de Assis e escritores de primeira linhagem podem ser apreendidas em escritos de Lima Barreto e Mario de Andrade. Os dois escritores não tiveram o menor receio de exporem suas diferenças estéticas com relação aos escritos machadianos em artigos criticos. Dir-se-ia que a critica de Lima Barreto é afobada pois transparece uma ânsia de criticar e que a critica de Mario de Andrade é travada pois não se sabe bem o que ele critica. O comentário de Guimarães está presente em um diário que ainda não veio a publico e pelo tom e pelo arranjo quer parecer que foi escrito antes de iniciar sua carreira literária. É o tom reprovatorio de alguém jovem. “...acho-o antipático no estilo...”. Quem a não ser alguém jovem faria um comentário sobre esse aspecto. Mario de Andrade escreveu uma homenagem a Machado em 1939 pelo centenário de seu nascimento “Acontece isso da gente ter as vezes por um grande homem a maior admiração, o maior culto, e não o poder amar.” Alguma coisa em relação a Machado de Assis trava Mario de Andrade. O restante do paragrafo propõe que para conseguir ama-lo, Machado de Assis deveria ser menos genial como foram menos geniais Dante, Camões e outros escritores. O amor nos escritos machadianos não exerceu fascinio, diferente do ciúme, da hipocrisia  e da loucura que fascinaram Machado bem mais. A critica de Lima Barreto a Machado de Assis não é curta e fina. Ela é longa e grossa e de tanto ressentimento que o leitor quase prefere desistir da leitura, mas é bom lê-la para provar o veneno na literatura. “Machado era um homem de sala, amoroso das coisas delicadas, sem uma grande, larga e ativa visão da humanidade e da Arte. Ele gostava das coisas decentes e bem postas, da conversa da menina prendada, da garridice das moças.”

Não dá um prego numa barra de sabão

Não dava um prego numa barra de sabão
“Tu sabes o porquê do nome Cavaco?’, perguntou a Silvana. Cavaco era o nome antigo do Bairro de Fátima. “Não sei, mas posso perguntar a minha mãe. Ela veio de mudança nos anos 70 com minha avó. Elas moravam antes em Timon. Pergunto se não teria sido mais fácil ter se mudado para Teresina que é do lado de Timon”. Ele concordou com a suposição da amiga. Tinha em mente as viagens que fez no começo dos anos 80 com a família durante as férias de julho para o município de Eugenio Barros. O ônibus da empresa Timbiras saia bem cedo da rodoviaria de São Luis que ficava no bairro Alemanha e chegava em Eugenio Barros beirando a noite. “Durava dois dias a viagem de mais de quatrocentos quilômetros entre Timon e São Luis nos anos setenta”, ela disse. “Qual é o nome da tua mãe” “Aldenora” “É um nome bonito”, ele economizou no elogio. “Porque tua mãe saiu do Bairro de Fátima e foi para o Coroado? Pelo jeito ela gosta muito de morar no BF tanto que voltou para o seu antigo bairro”. Eles se falavam há quase dez anos e falavam de todos os assuntos em tudo quanto é lugar da cidade onde pudessem beber uma cerveja gelada. Eles beberam e conversaram do lado do mercado do João Paulo numa segunda feira “segunda feira sem lei” com algumas amigas dela. Nesse dia ele parou cedo. Ela e suas amigas foram terminar o dia no bar de uma delas num lugar chamado de fronteira (bairro do Coroado, mas quase Redenção). Portanto, não era esquisito querer saber da mãe dela. A dona Aldenora saiu do Coroado e passara a morar na Redenção porque não queria saber do pai de Silvana que “não dava um prego numa barra de sabão em casa”. Logo, ela compraria um terreno no Coroado às mãos da prefeitura de São Luis onde construiria sua casa e onde moraria com os filhos. Ela descobriria com o tempo que aquele terreno lhe daria um trabalho danado quando chovia muito pois alagava tudo. Os bairros Coroado e Bairro de Fátima cresceram em regiões de alagado (rios, mangues, maré). Segundo consta, os primeiros moradores do Bairro de Fátima foram negros escravizados que fugiam de uma fazenda no Sitio do Físico. Eles vinham nadando pelo rio das Bicas e encontraram no Bairro de Fátima um porto seguro.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Jogo de cartas


Havia mais de três meses que não se viam. Só se comunicavam pelo zap. Ele enviava suas crônicas e uma delas ela adorou. “Adorei a crônica do mercado do Bairro de Fátima, pois me vi presente”. Ele se movia por ruas e avenidas apinhadas de ausências. A presença de um rapaz negro adornava a entrada de um comércio de frutas e legumes. Um domingo insuspeito que se fechava a cada passo dado. Silvana propôs beberem dentro do mercado do BF para reavivarem a memória. A frente do mercado é daquelas frentes inigualáveis porque por mais que se busque alguma comparação não se encontra. O portão do lado direito estava trancado no cadeado. Um feirante conversava com  outro em um dos boxes e mais nada, nenhum sinal de cerveja ou mais gente. Acreditava que não veria movimento interno. Que nada, alguns passos a frente e deparava com o portão do lado esquerdo escancarado e sons alucinantes vindos de algum protótipo de bar que abrira naquele fim de tarde de um dia de domingo. Ele sentira o movimento e era o suficiente. Ele e Silvana se mudariam pra lá em instantes. Ela bebia uma cerveja num bar de reggae a alguns metros de sua casa. “Você emagreceu. Eu não, fiz foi engordar”, ela lamentou. Ele queria recuperar o dia em que desconfiara de uns caras que entravam e saiam de um salão nos fundos do mercado. A dona da vendinha, onde bebiam, informara que se tratava de um jogo de cartas e que não era permitido gente desconhecida. Ele planejava escrever, quem sabe, um dia, uma historia de um jogo de cartas a dinheiro.  

domingo, 28 de junho de 2020

uma tradição

Ele foi atrás de uma tradição. Começara perguntando onde ela estaria. As pessoas, a quem perguntava, riam em seus íntimos. Quase ninguém se interessava mais por ela. Não por aqui. Nem em qualquer outro lugar. As perguntas o levaram até Urbano Santos.
Quem o receberia naquela cidade quando desembarcasse? O presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Urbano Santos providenciara um motociclista a fim de recepciona-lo e carrega-lo até o povoado de São Raimundo. Esse nome não saira de sua mente. Lera-o num documento da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos. Nesse documento figuravam vários nomes de comunidades atormentadas por conflitos com a Suzano Papel e Celulose e com proprietários. A tradição da luta pela terra se embrumara. Eles rodaram um caminho de piçarra e areia. A presidente da associação de São Raimundo se assustou. Ele despejou várias perguntas sobre ela e pareciam algo incongruente e irreal. Quem era aquele moço que viera de tão longe? A que eles deviam sua passagem por ali? Ele, enfim, topara com a tradição que andava atrás por tanto tempo e ali o seu tempo, o tempo que aprendera, dissipava-se em um vastíssimo tempo do qual não haveria saída.

sábado, 27 de junho de 2020

A cultura maranhense nos arredores e nos arrebaldes em Josue Montello




Há uma discussão urgente que deve ser travada e é uma discussão adiada porque entra num terreno espinhoso da cultura e das relações entre segmentos sociais que interpretam e elaboram a cultura. Não escreveria interpretar e elaborar cultura no seu dia a dia porque como qualquer construção ela depende de uma passagem de tempo para que possa se consolidar perante a sociedade.  Uma construção cultural precisa de quanto tempo para que ela possa ser analisada devidamente? Josué Montello, escritor maranhense do século XX, precisou de dez anos para escrever uma crônica em que o assunto principal era o São João (São João maranhense, Baú da Juventude, 1997). Ele retornava do Rio de Janeiro em 1946 e revivia os festejos juninos em São Luis. “Exatamente dez anos depois de ter saído de São Luís, torno a encontrar, numa noite de 1946, a mesma alegria, a mesma animação, a mesma riqueza de ritmos, de cores e de movimentos, nas festas que se realizam no João Paulo, nos arredores da cidade”. Esse trecho faz pensar uma pergunta: antes de mudar-se para o Rio de Janeiro como Josué Montello via os festejos juninos afinal o trecho aludido foi escrito dentro de uma diferença de tempo, dez anos? Pelo discurso de Josue Montello, ele reencontra “a mesma alegria, a mesma animação, a mesma riqueza de ritmos...”. Seria quase uma retomada do ponto de onde ele deixou as festas. A essência das brincadeiras e do São João é a imutabilidade. A essa imutabilidade, ele acresce a sua, pois, passados dez anos, ele vê as brincadeiras como as deixou. Em sua narrativa, nenhum brincante comparece, nenhum brincante se sobressai. Acaso ele se detivesse em algum brincante ou alguma brincadeira especifica, o caráter imutável das brincadeiras se desmancharia, pois um boi não é igual ao outro assim como um brincante não é igual ao outro. Entretanto nem tudo é imutável na crônica de Josue Montello. As pessoas não se dirigem mais a zona rural para presenciar os bois “Antigamente as festas de São João se faziam em arrebaldes distantes de cidade: Anil, Maioba, Turu e São José. Ultimamente, a animação maior é nos arredores de São Luis, no bairro proletário de João Paulo onde existem um ou outro dos velhos sítios e das velhas chácaras, que nos vieram do tempo do Império e do começo da República. O casario, que era quase todo de palha, mudou muito, de uns tempos para cá.”.  O João Paulo é a novidade no cenário das festas juninas e essa novidade é avaliada num contexto de mudanças sociais (bairro proletário) e mudanças no visual urbano (casario mudou muito). Josué Montello reconhece essas mudanças no discurso mas não no conteúdo.  “Mas a festa ainda é a mesma”. A cultura é a festa em si ou todo processo de construção das brincadeiras e da festa? O porque da mudança das festas dos arrebaldes para os arredores de São Luis deveria motivar algum interesse a levantar hipóteses. E a constatação da animação maior como provar? Não só a festa ainda é a mesma, o autor Josué Montello não mudou nada em dez anos.

Quilombolas denunciam frequentes ataques durante a pandemia

APandemia COVID-19 não é barreira para impedir os ataques do Agronegócio aos indígenas, quilombolas e camponeses. O ano de 2020, no Maranhão, vem se caracterizando como de extrema violência no campo. Em nota a Comunidade do Tanque denuncia os ataques do agronegócio e supostos grileiros de terras. Localizada na cidade de Matões, a Comunidade ocupa 1.600 de um total de 2.800 hectares que reivindica a proteção ambiental e de suas plantações.
O associado Pedro Morais da Silva Filho ressalta em nota: “Ressaltamos ainda que nossa maior preocupação é a derrubada de nossa mata auxiliar, destruindo a fauna e a flora, como também as terras para a produção do sustento dessas famílias residentes”.

Leia a nota na integra:

ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES (AS) E PRODUTORES NA AGRICULTURA FAMILIAR DO POVOADO TANQUE DOS MELQUIADES E ADJACENTES DO MUNICÍPIO DE MATÕES-MA
Apelo social
Matões, Maranhão 26/05/2020
Eu, Pedro Morais da Silva Filho, lavrador, sócio na Associação TANQUE DOS MELQUÍADES (ponto de referência próximo ao TANQUE DA RODAGEM, comunidade quilombola), venho recorrer e apelar para movimentos de lutas por territórios quilombolas MOQUIBOM (Movimento Quilombola do Maranhão), e a quem nos ajudar defendendo o nosso território.
Relato da causa:
A comunidade TANQUE DOS MELQUÍADES é uma Associação de moradores e pequenos produtores na agricultura familiar registada com CNPJ desde 2013 com atualmente mais de 70 familias habitando. A mesma está na posse de em terra de responsabilidade pública com o CAR (Cadastro Ambiental Rural) de 1. 600 hectares sendo que a área total que queremos defender territorialmente são mais de 2. 800 hectares e há muito tempo essas famílias e outras que aqui habitam e produzem seu sustento vêm sofrendo turbações e ameaças de suas posses por parte de grileiros disfarçados de todas as formas.
Vários compradores de terrar a exemplos: Gaúchos, Baianos e outros, vem usando práticas costumeiras de compra de pequenas propriedades ligadas à referida área em que estamos residindo, praticando invasões na nossa comunidade com o uso de máquinas, tais como Trator de Esteira e Pneu, atingindo o ‘fundo’ de nossas casas e de nossas plantações. Ressaltamos ainda que nossa maior preocupação é a derrubada de nossa mata auxiliar, destruindo a fauna e a flora, como também as terras para a produção do sustento dessas famílias residentes.
Do relato em exposição da situação e causa, apelamos e recorremos em caráter urgente ao MDA (Ministério Do Movimento Agrário ), bem como aos movimentos de luta por territórios quilombolas MOQUIBOM( Movimento Quilombola do Maranhão), e aos que nos ouviram e se sensibilizarem com nossa causa.
Matões Maranhão 26/05/2020
Pedro Morais da Silva filho

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A biblioteca do bairro de fátima

O Bairro de Fátima fazia parte da sua historia. Sua mãe virara farmacêutica e dava plantão numa farmácia pequena que abrira no bairro. Uma observação rápida e arguta dava conta que parte do Bairro de Fátima se erguera em região de influencia de maré e que não havia rede de esgotamento sanitário e nem de drenagem. Esse relato não é incomum em se tratando de São Luis, pois era visível que a cidade apresentava sérios problemas de infra estrutura que os governantes faziam de conta que não existiam. Ele teria consciência anos mais tarde desse quadro de abandono e miséria que predominava nos ambientes internos e externos dos bairros perifericos, mas a sua passagem pelo Bairro de Fátima ou Cavaco, o nome antigo, fechava-se na farmácia que sua mãe trabalhava. Por algumas horas, a sua vida resumia as prateleiras de remédios, os atendentes e o dono da farmácia. O que dizer? Puro tédio, se bem que não ter o que fazer num lugar como esse lhe obrigava a encontrar saídas. A única saída num raio de metros para uma criança de dez anos se visualizava em uma biblioteca publica municipal encravada na praça central do bairro. Ele não podia saber, só saberia muito tempo depois, que a biblioteca é um lugar de respeito pelo silencio exigido mas também um local de descobertas pela quantidade de livros que lá se encontra. 

Tempo e narrativa se fundem em Sepsis, novela de Geraldo Iensen.

O escritor e seu problema com o tempo que ele faz questão de frisar “tinha a impressão de estar ali há horas, mas nem quarenta minutos haviam se passado”. Engraçado, para um começo de livro esse trecho carrega a marca de uma duração. Esse trecho não é o começo de Sepsis, novela do escritor Geraldo Iensen. O trecho faz parte do ponto de partida, não é ponto de partida em si, portanto não há problema em que seja o que poderíamos dizer o prenuncio da narrativa principal que deve se caracterizar pela eternidade. Sim, a narrativa pretende o tempo mítico em detrimento ao tempo cronológico. “Cheguei a São Luis numa tarde em que as verdades procuravam novos casulos. Resposta a uma era de partidas...”, assim se abre a partida da narrativa. A chegada “Cheguei a São Luis...” é o reverso a “uma era de partidas” e como o escritor quer dá a entender é o fim de uma era. Quantos anos tem uma era? Nesse caso a pergunta melhor a ser feita é: que era de partidas foi essa? O tom é bastante eloquente. O que se fazia mais era partir, afirma, não importando aonde chegaria. A chegada é a resposta inevitável a pergunta que ensejou a partida? Se fosse, a personagem teria viajado a São Luis meses antes “Passou a brigar comigo porque disse que viria encontra-la em uma semana e demorei sete meses...”. O escritor tem problemas com o tempo (ele escreve como se o tempo fosse inenarrável), mas tem problemas com datas especificas. A namorada, primeiro esperou uma semana e afinal se passaram sete meses. Esses sete meses estão dentro da “era de partidas” então o que ele faz é confundir o tempo cronológico no tempo imemorial, como se fosse uma coisa só. Tempo e narrativa se fundem em Sepsis, novela de Geraldo Iensen.

domingo, 21 de junho de 2020

nos fundos do mercado do bairro de fátima


Ele lutou alguns minutos com as palavras. Nesse caso, lutar não significava uma situação de briga corpo a corpo. Nunca fora de brigar na rua ou em qualquer outro lugar. A luta se dava em sua mente para escolher qual a palavra que escrita definiria melhor aquele espaço ou aqueles espaços. O espaço em que se sentara, o espaço por onde as pessoas caminhavam, o espaço onde uma senhora vendia cerveja e o espaço onde ela armazenava a cerveja. Nessa disputa entre palavras e imagens, a sua mente era bombardeada por diferentes expectativas e perspectivas. O espaço reduz ou amplia as expectativas. As expectativas com relação a determinados lugares se restringem a saber se vendem cerveja e se a cerveja está bem gelada. No mundo da cerveja, as expectativas não são lá grandes coisas. No fundo de um copo de cerveja, só se vê as baixas expectativas.  As grandes expectativas devem ser achadas no espaço pelo qual se desloca para beber uma cerveja, principalmente, depois de beber uma grade (como será que cheguei em casa?).  O espaço que marcara com uma amiga para beber uma cerveja atiçava suas expectativas tanto do ponto de vista do alto como do ponto de vista baixo. Que tipo de espaço era aquele, um bar, um boteco ou um botequim? Afinal de contas, o espaço em que bebia com uma amiga era uma vendinha nos fundos do mercado do Bairro de Fátima na periferia de São Luis.  

A negativa

A câmara de vereadores de Buriti, em dezembro de 2019, votou projetos da vereadora Vanusa Flora que homenagearia pessoas com os titulos de cidadãos honorários de Buriti. Quase todos os títulos foram aprovados pelos vereadores em plenário, menos um. Os representantes do povo buritiense justificaram a não aprovação “desse um” por desconhecerem qualquer projeto da pessoa em questão que tivesse beneficiado o município e a população de Buriti. Não vai se questionar os critérios que os vereadores pontuaram para negar o titulo, mas a pessoa pergunta: se os vereadores, porventura, tinham duvidas quanto a qualquer “boa” ação praticada por que não pediram a vereadora Vanusa que desse amostras das suas realizações em solo buritiense? A sua figura compareceu em várias audiências na própria câmara de vereadores e uma delas fora para debater o projeto de combate ao desmatamento elaborado pela vereadora Vanusa Flora. Eles sabiam de quem se tratava e não pediram amostras porque a intenção era negar o titulo e negavam porque cumpriam ordens da administração municipal de Buriti. A duvida ficava por conta do motivo ou dos motivos que levaram a administração municipal  a “sugerir” a negativa aos vereadores. Não que receber o titulo de cidadão honorário fosse de suma importância para o trabalho desenvolvido em Buriti. Ficar chateado só daria o trabalho de deixar de ficar chateado, então melhor relevar e esquecer, porém esse comportamento da parte dos políticos de Buriti (se valerem de um artificio como esse) dá ensejo a uma pergunta: por que a administração municipal  de Buriti se meteu numa simples votação de titulo de cidadão honorário? A resposta é que a administração municipal se comporta como uma defensora e uma aliada providencial dos plantadores de soja que destroem o Cerrado de Buriti e quem se coloca de forma critica contra os plantadores de soja é visto como um inimigo pessoal.

sábado, 20 de junho de 2020

O ato de escrever não pertence

O ato de escrever requer solidão. Claro que nem sempre é possível. Algum curioso chega e supera as barreiras psicológicas que o escritor construiu. As barreiras, que levaram anos para serem erguidas pelo artista, em poucos minutos são transpostas com uma simples pergunta: “O que é isso?”.  Ou ele responde com toda a paciência possível e acaba a conversa naquele instante “é um artigo opinativo...” ou responde “Ah tu não vais entender” e cria um mal-estar entre quem escreve e quem lê. No fundo, o escritor vê naquilo que faz um exercício literário o qual pode chegar a um final ou não. Afinal o que é um final para uma historia que se iniciou com pouco tempo e dela quase nada se sabe? Quer que a historia se desenrole rápido para quem sabe chegar a um final glorioso ou quer que a historia se enrole e paralise o final? Quem garante que o final tão aguardado para o desenrolar da historia não será um final inesperado ou indesejado? Um final inesperado, tudo bem, mas um final indesejado não agrada. Terminar de ler um livro significa o final da historia literária e da história de leitura desse livro? Só se for para o leitor daquela leitura especifica, pois outros leitores surgirão a medida que um leitor encerra suas atividades. Um livro ao ser escrito não pertence a quem escreve e nem tampouco pertence a quem o lê. Escrever e ler são atos de não pertencer e de não se pertencer. O escritor encontra dificuldades de responder a pergunta “o que é isso?”, como se fosse simples responder, por sentir medo de que o ato de escrever realmente lhe pertença.
 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O frequentador não assíduo nas crônicas de Aldir Blanc


O que um escritor deseja é : que aquilo que ele venha a escrever, em algum momento, encontre-se com a realidade ao redor. Quem lê as crônicas de Aldir Blanc é fácil encontrar as referencias dele espalhadas pelo Rio de janeiro. O mesmo subúrbio, a mesma casa, o mesmo bar, a mesma cerveja, a mesma piada ou as mesmas piadas, as empregadas, o carnaval desse ano e daquele outro, o mesmo bloco carnavalesco, o mesmo tira-gosto e etc. No quesito tira gosto, Aldir ou se mantem fiel ao tira gosto tradicional da mesa de bar ou de sua casa ou arrisca os tira-gostos de Moacir Luz, seu parceiro de musica, em alguma sessão gastronômica no apartamento do amigo alguns andares acima do seu. Por um acaso daqueles da maré da sorte, se é que existe sorte, o segundo nome de Aldir, Blanc(Branco), combina com o segundo nome de Moacir, que é Luz. É uma ótima denominação para a parceria dos dois: a luz branca. Wilson das Neves e Nei Lopes, sambistas cariocas, frequentam Aldir Blanc nos seus lugares de peregrinação musical e etílica e ele os frequenta em suas composições históricas e em suas historias musicais. Quando o assunto é bar, boteco, botequim e outras coisas mais do Rio de Janeiro frequentador assíduo é uma expressão que não falta as crônicas de Aldir Blanc. Jaguar não é um frequentador tão assíduo as crônicas de Aldir, mas encerra um dos livros “Rua dos Artistas e arredores” com um comentário amistoso em que cita outro frequentador implicito das rodas literárias de Aldir Blanc: Sergio Porto “Picardia, Malandragem e principalmente uma carioquice que desde os tempos de sergio Porto não se via”. As crônicas de Aldir Blanc preservam com raro deleite a passagem do Rio de Janeiro dos anos 50 para o Rio de Janeiro dos anos 70. O que esse Rio de janeiro expressava, o que ele deixou de expressar e o que ele passou a expressar. Os melhores momentos das crônicas se expressam em figuras humanas que negam um mínimo de participação social nos rituais de convivência da vizinhança. Uma crônica exemplar: Atropelaram Benevides. Benevides vive da casa pro trabalho e do trabalho para casa. Não cumprimenta os vizinhos, não bebe no boteco e etc. Os vizinhos o olham torto “quem ele pensa que é?” E em um determinado dia Benevides é atropelado e vai parar no hospital. Enquanto estava hospitalizado, um parente vai verificar a situação da casa na qual ele pagava aluguel para morar e conhece os vizinhos que elogiam descaradamente o acidentado como se ele fosse um vizinho admirável. Benevides se recupera e ao passar pelo boteco sem falar com ninguém recebe comentários venenosos da vizinhança como de outras vezes. O Benevides assim como a Zenaide, cartomante da crônica “Medeia da Vila Isabel”, é o frequentador não assíduo dos bares e das casas que constam nas crônicas de Aldir Blanc. Uma hora pode ser que ele apareça na forma de um frequentador atípico de alguma cronica que gira em torno dos costumes e das referências do subúrbio. Esses registros (essas horas) marcam mais do que outros (outras) porque não se sabe como irão terminar

terça-feira, 16 de junho de 2020

Veludo Azul e o cinismo das aparencias


Seria muito exagero eleger a década de 80 como a década em que o cinismo prevaleceu em todas as esferas publicas e privadas da vida humana? O cinismo pode não ter prevalecido, mas estava presente em politicas implantadas por vários governos em seus respectivos países. O caso Irã Contras é bem representativo do cinismo que campeou para quem quisesse experimentar. O governo do republicano Ronald Reagan fez uma operação que financiava de maneira ilícita as ações de grupos de direita que tramavam derrubar o governo sandinista da Nicaragua. As investigações do congresso americano pararam na figura do coronel Oliver North que assumiu a culpa pela transação que financiava a compra de armas para os contra revolucionários nicaraguenses numa operação que envolvia os Estados Unidos republicano e o Irã dos Aiatolás. O cinismo das elites politicas americanas se estende para a produção artística. O filme Veludo Azul de David Lynch, produzido em 1986, usa a estética do filme noir, característico dos anos 50, para analisar a sociedade americana dos anos 80. As aparências enganam ou querem enganar, mas o filme é um pastiche de vários gêneros cinematográficos que vigoraram por décadas. Veludo Azul vive de aparências ou seja ele pega as características do cinema clássico e transforma em suas. Nada mais cínico que isso. Vender algo que é fora de sua essência. Veludo Azul é uma investigação estética do rigor das aparências em uma sociedade que se habituou a viver por essas e viver dessas aparências.  

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Uma bacia recheada de dúvidas

A Bacia Araguaia-Tocantins, desde o ano de 1996, vem seguindo o seu curso em meio a uma série de dúvidas, em relação ao seu futuro, por conta da implantação de uma série de hidrelétricas, por conta da idéia de construir uma hidrovia, por conta dos vários projetos de fruticultura e de soja e, também, por conta do projeto de transposição do Rio Sono.
O jornalista Glenn Switkes, representante da Rede Internacional de Rios, em seu texto “Antes do Dilúvio”, presente no livro “Escritos sobre a Água”, afirma que mais de 100.000 pessoas serão despejadas, enquanto que 12.500 quilômetros quadrados serão inundados, produzindo uma série de lagos ao longo de toda a Bacia Araguaia-Tocantins, caso sejam construídas as 50 hidrelétricas previstas para a região. “Um massacre biológico, uma diáspora social”, nos mostra Glenn ao longo de todo o texto. Contudo, mesmo com uma série de denúncias e mobilizações, parece que o que é dito e escrito sai por um ouvido e entra pelo outro.
No início desse processo de destruição, em 1996, o presidente do Tribunal Regional Federal concedeu uma liminar permitindo que a hidrelétrica de Serra da Mesa fechasse as comportas para criar o maior lago, em termos de volume de água (54,4 milhões de metros cúbicos) na América Latina (área 1.784 km2). O argumento que o juiz utilizou, e que veremos mais tarde, ainda é muito utilizado pelo poder judiciário, é que o crescimento econômico do Brasil se inviabilizaria por falta de energia.
No texto “Do Tocantins seco a Marte”, o jornalista Washington Novaes, revela que, com esse tipo de argumento, o juiz passou por cima da Constituição federal e não observou várias questões ambientais, questões “…que as exigências da licença ambiental, com quase toda a certeza, não conseguirão remediar.” As conseqüências desse desatino foram o massacre de animais que não puderam ser salvos pelo pessoal contratado para salvá-los e ter tornado o rio Tocantins seco durante um ano de nossas vidas.
Acaso essas informações tivessem sido colocadas à disposição da justiça a tempo, o juiz teria concedido a liminar para a hidrelétrica de Serra da Mesa? Não temos respostas precisas, mas muitas das informações imprescindíveis, para avaliarmos um determinado projeto, encontram-se guardadas a sete chaves em órgãos como Aneel e Ibama.
Um determinado relato diz que o próprio Ministério das Minas e Energia conseguiu acesso a uma série de hidrelétricas, situadas no rio Verde (GO), porém não teve acesso ao projeto de Couto Magalhães, no Alto Araguaia, o qual, segundo a Aneel, não poderia ser disponibilizado. Com esses exemplos ficam as dúvidas a respeito dos projetos e quais iniciativas devem ser tomadas, a fim de questioná-los. Se o projeto não tem problemas sérios, por que o sigilo e a pressa em licitá-lo, como a Aneel se acostumou a fazer?
No caso do Ibama, o sigilo é uma forma de se proteger das várias pressões político-econômicas que estão por detrás desses grandes projetos, até mesmo as pressões do próprio governo. Até o momento, o Ibama está segurando o licenciamento ambiental de três grandes projetos na Bacia Araguaia-Tocantins: Couto Magalhães, São Salvador e Estreito. As duas primeiras foram licitadas em 2001 e a segunda em 2002. Se essas três hidrelétricas têm problemas sérios, com relação ao seu licenciamento, por que o Ibama não nega logo, e acabou-se?
Aparentemente, o Ibama não quer passar por um órgão que está aí para impedir o progresso do país e, também, sabe que as injunções políticas são muito fortes, por isso ganha tempo. Com relação à hidrelétrica de Couto Magalhães, por exemplo, já foram pedidas várias alterações no projeto original para o consórcio Enercouto (EDP e grupo Rede). Porém, pelo visto, essas alterações não mudaram, em nada, as razões que impossibilitam a sua construção.
Algumas dessas razões são que o rio Araguaia ainda é um rio sem barramentos, segundo despacho da equipe do Ibama, que sugeriu o não licenciamento de Santa Isabel, e que o Ministério Público Federal já se colocou contra qualquer empreendimento de grande porte no rio. O que é de estranhar é o não licenciamento de Estreito, no médio Tocantins, aparentemente, um projeto com não tão graves problemas ambientais. Ou será que não?
Provavelmente, o Ibama tem uma série de dúvidas em relação a esse projeto, dúvidas que já foram enviadas ao consórcio Ceste (Tractebel, CVRD, Alcoa, Billiton e Camargo Côrrea), mas que não foram respondidas a contento. Essas dúvidas também se mostram presentes na ação do Ministério Público Federal contra a licitação e o licenciamento de Estreito, contudo as colocações levantadas pelo MPF não satisfizeram o judiciário que negou a liminar.
Pelo visto, para o judiciário levantar questionamentos ou dúvidas não são suficientes para diminuir o valor do empreendimento perante a sociedade. Enquanto isso, as dúvidas vão se movendo junto com os rios Araguaia e Tocantins.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Guinga, o cronista musical


Fazia dias que a ideia de escrever algo em que a obra de Guinga sobressaísse por sua estética e por sua importância não saia de sua cabeça. Admitia que tal proposta requereria  uma dose de ousadia, afinal a critica musical nunca fora o seu forte. Ele conseguiria se fizesse uma critica da linguagem ou fizesse uma reconstituição histórico da formação de Guinga como artista. Por que não uma critica que juntasse as três em uma só? Ele escreveria que não fora em vão a intensa busca ao cd “Cheio de dedos” que promovera, depois de ler uma critica em algum jornal.  O nome do cd despertara seu interesse e sua curiosidade que a capa, onde o compositor aparecia manuseando um violão, reforçava. O rosto do compositor instrumentista virava e ganhavam destaque os braços que seguravam o violão e os dedos que dedilhavam as cordas do violão. Ele se concentrava mais em seu instrumento o que, certamente, indicava que a sua preocupação maior era a Musica. A palavra Musica escrita com a primeira letra maiúscula significa que não é qualquer musica e que seus objetivos referentes a Musica não eram quaisquer objetivos. A matéria do caderno Ilustrada da Folha de São Paulo de 10 de dezembro de 1996, ano de obras de referencia na musica brasileira, esclarece que as musicas de Guinga homenageiam Jacob do Bandolim, Raphael Rabello, Villa Lobos e Aldir Blanc. Interessante o processo de homenagear um artista, pois pode ser da boca pra fora ou uma simples recordação. Não é o caso. Jacob, Raphael e Villa representam a excelência da musica instrumental e suas composições convencem o ouvinte que o enlace da musica com a cultura se dará pela estruturação da melodia em torno do ritmo. O ritmo da musica em Guinga segue o vagar inédito que os sons dos pequenos movimentos musicais ocasionam na memória.   O primeiro intuito de Guinga era fazer uma crônica musical do Rio de Janeiro. Segundo a Folha de São Paulo, Guinga desistiu da ideia e compôs suas musicas tendo por base velhas formulas, no caso o Choro. Não deve se esquecer que a crônica musical ou literária se ocupa  das velhas formulas (musicais) ou coisas velhas que aos poucos são esquecidas, dando-lhes um aspecto mais melodioso no confronto com a realidade.     

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Jeitão Caracteristico



Dava gosto de presenciar as mudanças que o Vicente de Paula experimentava em seu intimo e que transpareciam, principalmente, em sua fala. Tantas vezes vira o Vicente se entreter em conversas com sua família e com os vizinhos que nada vindo da parte dele passava desapercebido. A fala é um indicativo do que vem pela frente e do que veio antes. Ele ligou para o Vicente de Paula e a Juliana, neta dele, atendeu. A voz soou irreconhecível a primeira audição. “Quem tá falando?” “É a Juliana“ “Juliana, aqui é o Mayron cadê teu avô?” “Quem?!”, ela perguntou daquele jeitão dela característico e sem esperar pela resposta entregou o telefone ao avô. “É não sei quem”, foi o comentário divertido da menina. "Quem é não sei quem", questionou-se do ponto de vista linguístico. “Oi Vicente de Paula a sua neta esqueceu de mim? ” “ Não, não esqueci de você. Outro dia me lembrei porque os dois pés de moringa, que deste de presente, cresceram bastante e começaram a florir”. O Vicente de Paula se equivocara, pois a pergunta se referia a sua neta e não a ele, porem nesse (des)entendimento ele respondera com um exemplo que destacava o trabalho que ambos realizaram sobre a Chapada em 2019: o plantio de mudas de muringa. A resposta ingênua do Vicente de Paula o tocou profundamente pelas demonstrações de carinho e de lealdade ao projeto iniciado em 2011 com apoio do Fundo Casa e pela ASW. Em Buriti, carinho e lealdade são itens que se encontram em falta se constata pela conversa das pessoas e na conversa das pessoas.

terça-feira, 9 de junho de 2020

A certificação da comunidade quilombola de Guarimã


De cima da ponte,  enxerga-se o rio Preto por alguns segundos. Nada lhe tirava do sério. Ele não contou o tempo que levou esperando o Maelson, morador de Guarimã, no posto de gasolina de São Benedito do Rio Preto. Eles marcaram o encontro no posto, onde se reveriam para, então, deslocarem -se ao povoado de Maelson que fica fora da visão de quem dirige carro ou de quem dirige motocicleta pela estrada estadual. O povoado Guarimã se mantem afastado da estrada alguns quilômetros pra dentro. Ele fora ao povoado a primeira vez em 2012. Ele seguira o Chaguinha, na época conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos do Maranhão, numa missão de auxilio a comunidade de Guarimã que denunciara as ameaças de tomada de suas terras por plantadores de soja recém chegados ao município de São Benedito. O modo de vida  que a  comunidade praticava o fascinou . Ele e seus amigos conviveram com a comunidade por poucos dias a discutirem estratégias que combateriam a entrada do agronegócio em suas terras. A beleza dos veios de água, que abundavam por e para tudo que é lado, foi impactante do ponto de vista do visual para as visitas que jamais viram tanta água transparente num espaço físico tão espremido. O relevo explicava a quantidade de água que não deixava margens para dúvidas. As Chapadas descarregavam agua suficiente para correr pelo Baixo o ano inteiro. As pessoas não moravam em Guarimã durante a escravidão, pois a área servia somente de refugio para negros fugidos de algum engenho nas redondezas que se embrenhavam pelas matas. As atividades dos negros se desenvolviam de forma pacata nesse refugio com pouco impacto a natureza. Os negros caçavam, divertiam-se, comiam frutas e partiam. Depois de certo tempo, passaram a ver em Guarimã um lugar bom de morar, afinal a escravidão se findava e não precisavam mais fugir. Tendo em mente essas informações ficou evidenciado que Maelson e seus parentes carregavam o sangue de homens negros e mulheres negras que escaparam da escravidão para viverem em liberdade. Então, a estratégia para conter os plantadores de soja e uma possível expulsão a mando da justiça seria que os moradores se reconhecessem como remanescentes de quilombolas e a Fundação Palmares os certificasse como tal. A comunidade de Guarimã obteve a certificação da fundação Palmares em  novembro de 2012.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Os sentidos da Historia


Sentia-se como a personagem Mundica, do livro a Dança dos Ventos, escrito por Elizeu Cardoso. Mundica começou a bordar sem parar e trocava o dia pela noite. Os seus amigos lutavam para entender os desenhos dos bordados sem chegarem a uma conclusão plausível do real significado deles. Deve impacientar qualquer individuo uma situação desse tipo em que se realiza uma atividade por uma razão desconhecida e os resultados a que chegam não são conclusivos. O Zéfiro, amigo de Mundica e o leitor e o contador de historias da comunidade, finalmente apreende o significado dos crochês numa leitura invertida e não linear da Historia. Os crochês de Mundica ( aparentemente, ilógicos) metaforizam o ato de escrever e a incompreensão que muitas vezes se tem do que um escritor se propõe. Escrever e ler se complementam e completam-se, contudo também há divergências porque o escritor puxa de dentro pra fora enquanto que o leitor parte da superfície do texto (as aparências) para o interno (as verdades intrínsecas). É uma tarefa árdua chegar ao lugar de onde partiu o autor. Por que escrever tanto se bastaria escrever umas poucas páginas? Por que escrever sem ver o lado positivo da vida? Um leitor se agarra com mais facilidade a livros com poucas páginas e que transmitem mensagens positivas em todas as suas extensões, não só no final. Ao preferir livros de curto alcance e de mensagens obvias, o leitor não se dá conta que jamais cumprirá o seu papel historico social: o de fazer com que a historia que ele leu revele seus muitos sentidos.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Mares e portos: literatura e jornalismo



Sabes daquelas crises existênciais que assomem a qualquer hora do dia? Bem, ele experimentava uma dessas de manhã cedo. A experiência não era nova. Nem se lembrava qual fora a mais grave crise e nem quantas foram ao todo.  As crises são oportunidades e, portanto, as pessoas devem se reinventar a partir delas.  Não é o caso de reinvenção. O oficio de escrever não combina bem com esse papo de reinvenção. Uma amiga lhe enviou uma matéria de cultura do jornal da cidade em que se comemorava o dia da poesia. Quando era mesmo o dia da poesia? Essa data importava? Ele fora um dos quatro entrevistados.
Em 1998, o jornalismo maranhense era capaz de dedicar uma página inteira a poesia maranhense. Incrivel. O jornalismo maranhense sobreviveu a esse dia que ficou gravado pelo menos na memória da amiga. Agradeceu o envio da imagem do jornal pelo Facebook sem se inteirar das razões que fizeram com que a amiga não jogasse fora o caderno de cultura e o conservasse por vinte e dois anos em alguma pasta ou algum baú. Vai ver, ela se apegava a pequenas coisas que remetiam a amigos e a partes de sua vida. 
Com certeza, ela só reviu essa página com a foto do seu amigo porque se habituou a revirar as coisas velhas atrás de algo que escapava da sua compreensão. Coisas velhas?!!! O que comprova que uma coisa e velha? A página do jornal envelheceu, na hora de tocar se sente o enrugamento do papel, mas quem mais envelheceu nesses vinte e dois anos foram os quatro jovens que estudavam na Universidade Federal do Maranhão.O que mudou de lá para cá (além da posição dos moveis)? Ou nada mudou (as mesmas leituras)?
As leituras não eram as mesmas se bem que elas não contradiziam o seu gosto tradicional, fechado na adolescência, Machado de Assis e Dalton Trevisan.  A mais marcante dessas leituras recentes fora a de Elias Canetti, escritor judeu húngaro do começo do século XX e que figura como representante do alto modernismo da literatura europeia. Dá para incluir Canetti no modernismo europeu pela diversidade e pela universalidade de temas que ele abordou em seus livros. Conciliar os dois não é tarefa fácil; ainda mais com a sobriedade no trato com  a linguagem.  
Um dos quatro poetas da materia de 1998 se mudou para outro estado e é o único que se orgulha do termo poeta. Por morar em São Paulo e não dar nenhum indicativo que desejasse voltar a residir em São Luis, ele podia ser encarado como o mais universal de todos. Até que ponto  a palavra universal seria correta? A cidade de São Paulo celebra a palavra modernidade e suas reverberações  e não a palavra universalidade. Os outros dois deles ingressaram no serviço público e exercitavam de vez em quando a pena em  poemas (portos)inanimados. Eles velejavam (escreviam) o suficiente para que o gosto do mar (poesia) interagisse com suas bocas (suas intuições). O cenário cultural maranhense desanima os escritores de primeira viagem.
Pode-se perguntar quem ainda escreve poesia em São Luis e no Maranhão. Quem se atreve a escrever nessa cidade onde não se vê quase barcos no leito do rio e não se vê portos abarrotados de pessoas de origens dispares? (Invejava Joseph Conrad, escritor inglês de origem polonesa, que escrevera romances e ensaios com base na sua experiencia de capitão de navio mercante). Os portos de São Luis armazenavam línguas e linguagens em suas vielas. Os portos movimentavam cultura tanto quanto movimentavam negócios. Quem passou a borracha nesses portos para que sumissem do mapa? Quem desenhou os mapas chegou a navegar nas águas violentas do mar(poesia) ou os mapas vieram de sua imaginação? Os desenhos de portos nos mapas nada mais são do que as gravuras de poemas impressos em livros. Para os que nunca souberam o que é um porto e o que é um mar uma breve amostra em uma pagina de um livro ou de um jornal seria um bom começo.      
O litoral maranhense é o segundo maior do Brasil, mas quem o desvendou em suas historias anônimas? Em 1995, ele (o rapaz em crise) escreveu esse poema "nesse dia em que o tédio prevalece pelos lençois que não foram mudados há uma coisa diferente em seus olhos como o tempo que cai maduro das árvores e como os barcos que transportam sal". Esse poema é maritimo (anseia o mar) e como tal ele reflete o mar e reflete sobre o mar ( o mar nunca dorme, Massa e poder, Elias Canetti). Os atos de refletir e de provocar reflexão são as grandes passagens por onde trafega o oficio de escrever.   Os andarilhos escreviam na memoria os caminhos que trilhavam.  Eles refletiam sobre os caminhos que escolheriam e o porquê dessas escolhas. no momento em que escreveu esse poema, ele duvidava dos caminhos abertos. A poesia contrapunha o experimento linguistico ao mais do mesmo do jornalismo praticado nas redações dos grandes jornais maranhenses.  
Ao seu ver, os escritores e os jornalistas teriam o papel de narrar as historias dos seres anonimos que margeiam a historia do Maranhão (os pescadores de água doce e de água salgada compõe um setor da sociedade maranhense que quase não se ouve falar).  O que não falta é anonimato nas cidades e nos povoados maranhenses. Quem quer viver, deve se pautar por viver nas sombras. Por um descuido, pode acontecer de serem descobertos pelo jornalismo. Essa descoberta dura pouco. Na teoria, os julgos narrativos do jornalismo acompanharão tão somente as grandes mudanças socioeconomicas.  Na prática a historia é outra. Grandes mudanças socioeconomicas não ensejam narrativas de mão cheia que dão gosto de ler.O jornalismo para dar gosto de ler precisa da literatura, senão o tédio prevalecerá nos "lençois que não foram mudados".E a literatura para não deixar de se vincular ao cotidiano com seus olhos diferentes, precisa do jornalismo. 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O tempo (verbal) da narrativa


Deu se conta que escrevia com a mente e os olhos direcionados ao futuro, mas com o coração e os pés voltados para o passado. O presente, portanto, é a espinha dorsal que equilibra as palavras no vai e vem da narrativa. Um descuido qualquer ou uma passagem do tempo equivocada as palavras se desformam de tal forma que não serão mais vistas e nem lidas. Só o  uso do tempo verbal correto possibilita que as palavras não caiam vazias e petrificadas no rio ou na vala da existência comum que é o destino de todos e de todas, mas que pode ser evitado por um bom tempo. A que tempo ou tempos ele se referia? Ele começou o texto tratando das divisões máximas do tempo (passado, presente e futuro). Discorreu a respeito do tempo que perpassa a narrativa e as palavras. O tempo de uma se infiltra na outra. Por fim, ele encerrou com o tempo humano que  gostaria de contornar ou evitar o destino que se proclama inevitável.  

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Os reclamoes do Baixo Parnaiba


Os “gaúchos”, que plantam soja nas Chapadas de Buriti, ensinam a máxima “não tenho tempo a perder” aos seus vizinhos todo santo dia da semana e quem reclama por serem grossos e inacessiveis? Sabe-se que poucos ousam reclamar e ao reclamarem de imediato o gaúcho puxa o reclamão para um lado e chegam a um acordo tão imperativo. Foi assim que o Andre Introvini, plantador de soja, fez com o Adão, morador de Carrancas, que ao lado de vários vizinhos segurou o desmatamento da sua Chapada. Andre Introvini chamou o Adão e propôs que este trocasse sua posse na Chapada por várias frações de terra a beira do rio Preto no povoado Carrancas. O Adão não teve o que fazer: aceitou a proposta. Esse fato “só deu” para os vizinhos do Adão: o Vicente de Paula e o Francisco que viram a pressão vinda da parte dos Introvini aumentar. Com toda certeza, a figura do Adão para alguns moradores da vizinhança passou a representar não boa coisa. 
Quanta diferença a atitude do Adão que abriu mão da Chapada para a atitude do povo de Belem, vizinho a Carrancas, que enfrentou o pessoal do grupo João Santos, empresa de cana de açucar e bambu, nos anos 90! O pessoal do grupo João Santos, na verdade, eram pistoleiros travestidos de trabalhadores de campo que exerciam a intimidação dos moradores como seu papel principal sobre a Chapada. Na época, o enfrentamento custou a vida de um dos pistoleiros e a fuga dos moradores do povoado  Belem para os baixos onde se esconderam por um tempo.
O povo de Belem é parente do povo do Araça. A comunidade do Araça providenciou comida e morada para os seus primos em parte do conflito. O Iterma (Insituto de Terras do Maranhão) interveio na questão: destinou mais de 2.000 hectares da Chapada para o povo do Belem e mais de 900 hectares ficaram para o grupo João Santos. Foram os tempos do governo de Roseana Sarney (1994 -2002) que recebia de bom grado projetos de agronegocio (soja, cana, eucalipto e gado) com  a promessa de desenvolverem economica e socialmente o Maranhão e os governos que a sucederam seguiram a receita de "quanto mais agronegócio, melhor"( Bem, o Maranhão não saiu do seu lugar até hoje e um pouco graças ao pacto das elites com o agronegocio).  
O que parecia inconcebível, ou pelo menos aparentava ser, virou a regra no município de Buriti. Os gaúchos, após anos de critica a sua atitude de soberba perante os demais setores da sociedade, acenam com projetos de assistência técnica aos pequenos agricultores familiares e estes, aconselhados pelo poder publico de Buriti, devolvem o aceno e cada vez  há menos reclamoes nas Chapadas de Buriti.       

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Salve 04 Salve a música


Ninguém se lembra do ano de 1996. Pela lógica cartesiana de “Penso, logo existo”, o ano de 1996 não terá existido ou se existiu só foi por alguns segundos. “Cuidado com o andor que o santo é de barro” ou cuidado como se leva o argumento ou a ideia, pois no primeiro solavanco pode cair e rachar. Qualquer coisa que se fizesse em 1996 viria na rebarba de 1994, o ano da eleição da chapa PSDB e PFL para a presidência da republica e a confirmação do sucesso do plano real instituído pelo governo Itamar Franco em 1993. A vitória da chapa PSDB-PFL não foi a toa: uma bem bolada articulação entre o centro e a direita que dominavam respectivamente as regiões sudeste e nordeste do Brasil para derrotar a centro esquerda representada pelo PT. A centro esquerda levou o amargo da derrota na boca por anos a fio, seja buscando alianças mais conservadoras para as eleições seguintes ou seja se comprometendo com politicas liberais.
Do ponto de vista politico social, 1996 foi um preparativo ou um aperitivo das forças politicas para a eleição de presidencial de 1998. Eles se enfrentariam nas eleições municipais e mediriam suas forças. Do ponto de vista artístico-cultural, a derrota de 1994 foi digerida e reinterpretada por setores periféricos da sociedade, que se sentiram derrotados tanto quanto o candidato do PT, em crônicas e em caricaturas presentes em construções estético-culturais que, despretensiosamente, diziam-se pensadas só para divertir. Contudo, caso uma atração se apresente como puramente diversão, esse anuncio não seria só uma tática que induziria o publico ouvinte a baixar a guarda para que o artista pudesse emitir o núcleo principal da sua mensagem?
O núcleo principal da mensagem só se revela a medida que outros núcleos sejam desmascarados. O artista se serve de máscaras para atrair o publico e ser divertido é uma dessas máscaras. A musica “Militando na Contra-informação”, do cd “Guentando a Oia”, do Mundo Livre S/A, brinca com as máscaras do poder. Fred 04 vocalista e tocador de cavaquinho, mascara-se de Rubens Ricupero, ministro da fazenda do governo Itamar Franco, e Otto, percussionista, mascara-se de engenheiro de som para interpretarem o rumoroso caso de vazamento da conversa entre Rubens Ricupero e o jornalista da tv globo Carlos Monforte. Nessa conversa, Rubens Ricupero assumia ao jornalista e primo que Fernando Henrique Cardoso devia sua provável eleição a ele. Que a oposição não poderia questionar a sua presença todos os domingos ao vivo na tv globo porque ele era o ministro da fazenda e etc.
Suspeita-se que alguém deliberadamente deixou um canal do estúdio de gravação aberto e por conta disso a conversa vazou pro Brasil inteiro. O escândalo provocou o pedido de exoneração de Rubens Ricupero que seria substituído por Ciro Gomes. A medida que os anos passaram a maioria da população se esqueceu parcialmente ou totalmente do que foi o caso e quem se beneficiou ou não se beneficiou dele. Nesse ponto, o Mundo Livre brinca com as linguagens: politica, musical e tecnológica. E num ponto mais alto, o Mundo Livre brinca com a memoria coletiva ou com a falta de memoria.
A obra do Mundo Livre é uma brincadeira urgente como se revela na musica “Free World”. Fred 04 canta “Salve 04, salve, salve a musica, salve 04, salve, salve a musica”. Nesse verso, a palavra salve pode ser lida tanto como saudação ou, então, como salvação. Por ser a primeira musica do cd, é bem possível que salve seja uma saudação a ele e a musica que o Mundo Livre toca (o samba). A primeira coisa que se faz ao chegar a um determinado lugar é saudar quem encontra. Salve é uma expressão corriqueira no linguajar dos subúrbios.
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domingo, 31 de maio de 2020

Jethro Tull

O espelho refletia o rosto sem devassar o que ele rascunhava em seu pensamento. Botou pra rolar no aparelho de cd da mente as músicas “We used to know” e “Reasons for Waiting”, do Stand Up disco do Jetro Tull, gravado no final dos anos 60. As músicas tocaram sem pedir licença. A relação com Jethro Tull se mantinha firme apesar dos anos e apesar das dificuldades em comprar lps nos anos 80 e comprar cds nos anos 90. Os anos 80 não perdoavam os sem grana. Quem não comprava, contentava-se em escutar seus grupos favoritos nas rádios fms ou então pedir para um amigo gravar uma fita. Ele fitava com espanto as capas dos lps nas lojas especializadas na rua central do comercio (poucas lojas). Um professor de física, em 1988, gravou uma fita com musicas do Pink Floyd. Eles conversavam assim que terminava a aula e conversa vai conversa vem convenceu-o a gravar a fita de sessenta minutos. The Wall na cabeça. Não era bem aquilo que gostaria de ter em mãos. A fase mais criativa, todos afirmavam, ficara para trás, final dos anos 60 e começo dos anos 70, mas tudo bem para um recém convertido ao rock progressivo. Assim, aos trancos e barrancos, formaria seu gosto. O gosto pelo Jethro Tull deslanchou por sorte, também no mesmo ano. Um programa de radio anunciava uma promoção: “Quem era o guitarrista do Jethro Tull?”. Quem acertasse ganharia o LP “Crest of Knave”, de 1987. Que droga, emprestara a revista Somtrês com a historia de vários artistas de rock, entre eles o Jethro Tull. Puxou pela memoria e enfiou um Martin Balguma coisa ( o nome correto Martin Barre). Vai ver não houve outro candidato ao “Crest of Knave”, pois a promoção o agraciou com o LP no final do programa
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