terça-feira, 13 de abril de 2021

O trágico apelo

Permita que escreva se tratar de uma crônica o texto a seguir. Uma crônica que se inspira em outras crônicas. Infelizmente, a crônica de cor local passou longe de seus hábitos literários. Leu muitas vezes as crônicas de Luis Fernando Verissimo ás páginas da revista Veja num tempo assaz longínquo. Um excelente cronista no seu costumeiro trato humorístico, Luis Fernando Verissimo acostumou mal o leitor. Dava a entender que a crônica não podia ser nada mais nada menos que um exercício de humor. O cronista diverte o leitor que vê o cronista como o seu contrario. O contrario onde se realiza seus anseios. Bem, os mal humorados e os viajantes discordariam da ideia de se verem de forma contraria na crônica. Para eles, o mau humor e a melancolia devem solapar a crença que o cronista escreve ou compõe tendo em vista a presunção de divertir o publico. Um amigo pediu a conhecidos a indicação de musica para escutar assim que almoçasse. Entre tantas indicações, uma se sobressaiu. A musica de Guinga, compositor carioca. O amigo reclamou: “Isso é muito triste”. Ele cometeu um erro comum o de ver o chorinho como uma musica triste. Guinga em suas crônicas musicais acrescenta mais que tristeza ao chorinho. O compositor acrescenta ao chorinho o trágico apelo da experiência musical.

Marxismo e cinema

“Pos modernismo e a logica cultural do capitalismo tardio”, escrito pelo marxista americano Fredric Jameson em 1984, é um daqueles livros que obrigatoriamente o leitor tem que se debruçar mais cedo ou mais tarde quer queira quer não. Essa afirmativa tem um tanto de autoritária e uma menção ao autoritarismo afasta o leitor sem duvida. Determinadas leituras, entretanto, flertam com o absoluto e por consequência com o autoritarismo pois o seu objetivo é analisar as relações da economia politica e cultua no âmbito do capitalismo moderno. Não foi fácil ler esse livro. A pessoa que detinha o livro na faculdade de comunicação objetava os apelos para empréstimo. Quer saber, melhor desistir. Pensou o pobre coitado que se dizia conhecedor de Marx e que somente leu Adorno, filosofo marxista alemão, no final do curso de comunicação em 1999 por uma leitura enviesada de Dolf Oehler, discípulo seu. A leitura do livro “O Velho mundo desce aos infernos: auto analise do trauma de junho de 1848”, de Dolf Oehler, certamente ajudou que ele lesse o livro de Jameson. As reflexões filosófico-historicas de Dolf Oehler desembocavam nas reflexões estéticas de Jameson pois a negação por parte da burguesia do seu papel revolucionário no caso da França fez com que ela privilegiasse a parte cultural artística no caso da sociedade americana. A grande arte da cultura americana é o cinema e jameson analisa todos os fenômenos sócio culturais relacionados com essa forma de observação da realidade. Cinema não é só diversão como muitos pensam. Também é linguagem, comunicação e politica. Ler Fredric Jameson fez com que relesse a escola de Frankfurt e escrevesse excertos sobre cinema e cultura. O cinema americano dos anos setenta é um cinema anti colonialista no sentido de que os cineastas americanos dessa década se propunham a explodir as pontes que ligavam o capitalismo americano a uma ideia idealista de passado que os americanos alimentavam. Utilizando uma terminologia belicista, Coppola (Apocalypse Now), Cimino (Portal do paraiso), Altman ( onde os homens são homens), Peckinpah (Meu ódio sera tua herança), Leone (Tres homens em conflito), Scorcese (caminhos perigosos) e tantos outros são sapadores. As suas intervenções inviabilizaram os projetos do capitalismo americano de ir e vir dentro da cultura sem precisar prestar contas a sociedade. Essas intervenções foram tao serias que o cinema dos anos 80 apelou para infantilização, a arqueologia e etc para sair da sinuca de bico em que estava metido.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Politicas publicas e comunidades quilombolas

Na casa alheia não há muita escolha, ou come o que se tem ou fica com fome. Comia bem peixe de água salgada em São Luis, capital do Maranhão, que corresponde a peixes com bastante carne e com pouca espinha. Em 1998, a Fetaema (Federação de Trabalhadores em Agricultura do Estado do Maranhão) convidou a Associação Agroecologica Tijupá a participar de oficinas de politicas publicas no município de Matinha, Baixada Maranhense, que aconteceriam na sede do STTR. Politicas publicas são todas aquelas politicas de governo e da sociedade pensadas e criadas com vistas ao atendimento de parte da coletividade. A maioria da população exige grandes investimentos nas áreas de educação e saúde que são direitos assegurados pela constituição federal, contudo o pleno desenvolvimento de uma comunidade depende de investimentos em produção, abastecimento, segurança, transporte e etc. As comunidades rurais de Matinha, Viana e Penalva são em sua maioria comunidades quilombolas e que por muito tempo foram completamente esquecidas na discussão e implantação de politicas publicas especificas para esse setor. A região da Baixada maranhense é rica em peixe de água doce e por isso os quilombolas, os trabalhadores rurais e as populações urbanas consomem muito esse tipo de peixe. Ela é conhecida como a região dos lagos. Nas oficinas de 1998, o anfitrião era o Zé Foba, um dos diretores da Fetaema, que recepcionou um dos oficineiros, o qual nunca tinha andado por aquelas bandas e nem se lembrava se comera peixe de agua doce algum dia da vida. Não teve escapatória, comeu peixe de água doce, pela primeira vez ou pela segunda vez?!!!, e agradou-se tanto que peixe passou a constar mais vezes no seu cardápio pessoal.

terça-feira, 30 de março de 2021

O ato de xingar

Em toda sua existência, se xingara dez vezes fora muito. Nem os amigos que fazia xingavam. Quem xingava vivia a margem, pensava dessa forma. Vivia a margem como a família do Capitão Caverna, uma casa em um dos cantos da rua Luis Guimarães, bairro Liberdade, uma casa na qual ninguém entrava. Ele conversava amenidades e elogiava os vizinhos, mas bem no fundo sentia vontade de soltar um palavrão ou um xingamento. Divertia-se com essas expressões que violentavam os ouvidos e os bons modos. Associava essas expressões a figuras marginalizadas que não dispunham de um vocabulário rico. Uma injustiça linguística social porque xingar e praguejar independia de classe social e poder econômico. Mais do que qualquer outra coisa, essas expressões significavam se libertar daquilo que o segurava em seu intimo. Tinha essa percepção, percepção que adiantava nada, afinal fazer o que com a liberdade (fazendo um jogo de ideias com o nome do bairro)? Não soube o que fazer com a liberdade. Soube aprecia-la no devido tempo. Um amigo xingou de leproso um politico, um xingamento das antigas que os mais novos evitariam de ter contato. O ato de xingar se perdeu. Não para sempre, com certeza. Chamar um amigo de canalha faz bem pro coração e fortalece os laços de amizade.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Batuque na cozinha

“Batuque na cozinha/ Sinhá não quer/ Por causa do Batuque/ queimei meu pé”. João da Baiana compôs “Batuque na cozinha” em 1917 e a gravou cinquenta anos depois numa parceria com Pixinguinha e Clementina de Jesus. Martinho da Vila a interpretaria em 1971. A distancia entre o ano da composição e o ano da gravação revela o quanto a produção artístico/intelectual de caráter popular demorava décadas até encontrar espaço na produção industrial voltada para a classe média urbano. Essa demora fez com que parte da produção cultural do Brasil ficasse escondida para o publico consumidor. Musicos tradicionais e publico consumidor dependiam da sorte de que um musico ou um produtor musical descobrisse por sorte aquela musica que todos sonham em compor e todos sonham cantar. Herminio Bello Carvalho produziu em 1968 o disco “Gente da Antiga” onde aparecia a musica “Batuque na cozinha”.

O tempo era de abobora

O tempo era de muita abobora. Os quilombolas de Jaguarana, município de Colinas, transportavam sua produção em cima do lombo de jumentos e a jogavam a beira da estrada de piçarra que liga o quilombo ao asfalto. As aboboras se amontoavam em vários pontos o que podia transparecer que ninguém as queria. Na verdade, um caminhão as buscaria para leva-las aos mercados consumidores. Os preços pagos pelos comerciantes aos quilombolas variam para baixo. Isso decorre pelo excesso de produção e por não haver outros compradores interessados em comprar a abobora. Um desses montes de abobora pertencia a dona Regina, presidente da associação dos moradores de Jaguarana. Ela também é professora do município de Colinas, função que exerce desde 2002 ano em que prestou concurso e pelo qual foi selecionada. Na sua juventude, Dona Regina só foi duas vezes a cidade de Colinas. A distancia de Jaguarana a Colinas perfaz mais de trinta quilômetros. Se não era fácil sair de uma comunidade rural e ir estudar na cidade, imagina sair de uma comunidade negra e pobre. O Ironis, presidente do quilombo Peixes, explicou que uma das formas de endividar os mais pobres e os negros era oferecer transporte numa situação de extrema dificuldade. Uma forma de pagamento era entregar um pedaço do terreno ao motorista. Os quilombolas tiveram que sujeitar a esses termos de cobrança se não a pessoa adoecia e morria na comunidade sem assistência medica. De terreno em terreno, o grileiro/motorista ergueu uma fazenda de milhares de hectares em cima da comunidade quilombola de Peixe fazenda esta que seu filho vendeu partes para plantadores de soja. A Dona Regina enfrenta situações parecidas em seu território da Jaguarana e também envolve plantadores de soja. Jaguarana é um assentamento do Incra mas no final das contas é um quilombo onde é vedado a venda de terras para pessoas de fora do quilombo. O quilombo é um território tradicional onde se respeita as relações tradicionais de cultura produção e de família. A entrada de plantadores de soja no território Jaguarana e em outros territórios tradicionais implica na subversão dessas relações e na incorporação de valores alheios a comunidade.

segunda-feira, 22 de março de 2021

modernismo maranhense

O movimento começou cedo no hotel à beira da pista da cidade de Colinas, sertão maranhense. A dona do hotel abriu a cozinha e preparou o café dos hospedes porque as cozinheiras não compareceram. O hospede desejou bom dia a proprietária e vasculhou com as mãos os livros enfileirados sobre a mesa. Hospedara-se antes e não se lembrava de te-los vistos. O livro de cima o cativou pelo nome “A bagaceira”. Onde ele lera aquele titulo? Segurou-o e abriu enquanto tomava café. A apresentação do livro obedecia a velha tática de despertar o interesse por alguma característica especial, “um dos marcos do modernismo brasileiro junto com Macunaima”. A edição se gastara com o tempo. Ele viu nisso mais uma boa razão para convencer a proprietária a lhe dar o livro o que de fato aconteceu. Um dos seus assuntos preferidos: modernismo. Quantos estados nordestinos viram surgir expoentes do modernismo em seus quadros literários? Quantos maranhenses seriam classificados como modernistas? Uma vez indagou a uma bibliotecária se ela entendia Josue Montello como escritor modernista. Ferreira Gullar, sem tirar nem por, do qual lera “Poema sujo”, englobaria as características de um escritor/poeta modernista: subjetividade, fragmentação, a quebra no discurso e etc. Essas características não via em Josue Montello, porem essa é uma visão parcial do modernismo ou dos modernismos. Pode ser que alguém pense o contrario.