quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A frente do povoado

Antes ninguém se tomava pelo outro. Poucos sabiam redigir os nomes de lugares tão calmos e tão puros. Os caminhos, quase sempre, carregavam a solidez da solidão. Que horas o povo virá buscar o de comer? Não se envergonhem; abram as panelas, peguem os pratos e colheres e comam sem pena. Todos nesta casa comeram o suficiente para aguentar o dia. A senhorita cozinhou esse de comer tão simples e tão bom que não se quer mais nada. Ela acordara bem cedo para arrumar a casa. Assistiria a partida do pai para a sede do município e assistiria a partida da mãe para a casa do tio. A manhã exigia urgência nos propósitos das pessoas e exigia incerteza no horário da volta.  O pai se mantinha firme a frente da associação de moradores do povoado.  A frente do povoado (vegetação nativa) se mantem como uma barreira natural que protege os moradores do povoado dos impactos causados pelos plantios de soja (agrotóxicos e poeira). A associação do povoado disputa a frente do seu território com grileiros e sojicultores, cerca de 100 hectares os quais foram requeridos para regularização ao órgão fundiário do Estado em nome da associação. Os 100 hectares requeridos pela associação nem se comparam em tamanho às fazendas de soja que ocupam diversos quilômetros quadrados da área do município de Brejo. Os caminhos mantidos pelos sojicultores destoam completamente do caminho mantido pela prefeitura de Brejo e que passa por diversas comunidades da zona rural do município. Os dos sojicultores são corrigidos enquanto o da prefeitura é só pedra. Para se chegar as comunidades de Pacoti e São Raimundo, é preciso percorrer os caminhos abertos pelos sojicultores e perguntar aos motoqueiros apressados a que altura do caminho se deveria trocar de estrada.  Quando visse um cemitério seria o momento de virar a direita. Então, só a visão de um cemitério faria o caminho se endireitar saindo dos plantios de soja para se chegar as comunidades tradicionais e quilombolas de Brejo.
Mayron Régis

domingo, 24 de novembro de 2019

O Almoço


O almoço se atrasaria na casa de Luzimar no povoado Caxingó, município de Buriti. Haviam marcado para o começo da tarde do dia 21 de novembro de 2019. Pedira a Edmilson, presidente da Associação do Araça, que levasse o recado do almoço ao Antonio José, morador do Mato Seco. A filha deste morava do lado da Luzimar. Então, bastaria uma ligação de celular de Antonio José, morador do Mato Seco, à sua filha, moradora do Caxingó, que informaria a Luzimar. Dependendo de qual estrada se queira seguir, o tempo que se leva de Mato Seco ao Caxingó vai de dez minutos a meia hora. O caminho mais longo é o mais interessante porque desliza pela Chapada. Vê-se os caminhos que se direcionam para a comunidade do Belem e uma roça recentemente aberta, aproveitando a chuva sem paradeiro que caira depois de tantos dias secos. A pequena posse de Antonio José se encrava no território do povoado Belém, uma localidade que correu o risco de ser riscada do mapa de Buriti em função do conflito com o grupo João Santos nos anos 90. Os mais velhos se recordam bem desse conflito em que os moradores do Belem se escondiam dos pistoleiros do grupo João Santos nos alagados (como Edivan, militante do MST, mostrou em 2015) ou no povoado vizinho Araça. Os moradores do Araça abrigaram seus parentes do Belem por bastante tempo e, além de abrigar, davam-lhes comida. Transportava-se quantidades e quantidades inimagináveis de comida no lombo de animais para alimentar um grande numero de pessoas que não faziam a menor ideia se um dia retornariam ou não as suas casas. Não podiam lhes negar casa e nem comida. Nem que fosse só um local para esticar a rede e nem que fosse só servido um prato de arroz feijão e farinha por dia. Quem olha para as casas onde as pessoas moram e para o que elas comem na atualidade nem imagina o que era morar e o que era comer (pouco, quase sempre) nos anos 90. O grupo João Santos nessa época primava pela intimidação no trato com aqueles que se opunham aos seus projetos os quais eram desmatar o Cerrado, secar os córregos de água e plantar cana de açúcar ou bambu. Caso os moradores de Belem não tivessem rechaçado o grupo João Santos e caso os moradores do Araça não tivessem lhes auxiliado talvez aquela Chapada não existisse mais como lugar de refugio para os animais e de moradia para as pessoas. Restaria somente uma tênue lembrança na cabeça das pessoas do que fora a convivência com a Chapada. 
 O Antonio Jose mora sobre essa Chapada com a mulher e os filhos. A sua mulher cita os pes de manga e outras frutas que eles plantaram nesses anos. Ela nem pensa em se mudar dali, afinal se mudar quer dizer reconstruir toda uma vida em outro lugar onde, quem sabe, obter água será mais difícil do que ali tão próximo de um afluente do rio Parnaiba. E porque eles se mudariam afinal se sentiam tão bem naquele terreno? A possibilidade do Ze Vilar, politico e proprietário de terras em Buriti, vender o Caxingó e uma parte da Chapada para o Andre Introvini. A concretização da venda pode resultar no desmatamento da área bem em frente a casa do Antonio José o que traria despejo diário de agrotóxicos, o aumento de calor e o aumento da poeira. A venda ou não da Chapada so ocorre se o ze Vilar comprovar a legalidade do documento que atesta a propriedade do Caxingó em seu nome. “Como assim ele é o dono do Caxingó?”, questiona Luzimar. Minha família mora aqui há mais de cem anos e essa terra nunca teve dono.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O projeto "genial" da soja no Maranhao

Os 900 hectares desmatados na Chapada do Brejão, município de Buriti, ocorreu em sua maior parte devido a politica do governo do Maranhão em flexibilizar e agilizar o licenciamento ambiental, principalmente, para os plantios de soja. Não houve um direcionamento explicito até porque isso é ilegal. Agora, sendo a soja a cultura que traz mais retorno financeiro para o estado do Maranhão, chegar a conclusão de que qualquer politica de flexibilização do licenciamento tende a favorecer em grande medida, justamente, esse setor é quase inevitavel. É claro que não se deve esquecer que alguns grupos empresariais que lidam com a soja plantam outras culturas depois da colheita. As elites dirigentes e econômicas do estado do Maranhão fizeram sua escolha em relação a soja tem bastante tempo. Elas foram empurradas a essa escolha e outras decorrentes desta pela necessidade de captar moeda estrangeira, principalmente o dólar, em curto prazo e assim financiar a estrutura estatal e certas demandas da sociedade como um todo. Uma dessas demandas é o consumo. Não custa nada lembrar a lei Kandir dos anos 90 que liberou a  soja de pagar impostos com a desculpa de que ela assim seria mais competitiva. Essa liberação de impostos ocorre com o proposito de complementar a implantação do plano real, politica econômica que por um certo passe de mágica equiparou o real ao dólar. Ora o que precifica a comercialização da soja a nível mundial é o dólar. Quanto mais se abate os impostos em real mais o produto ganha em dólar e o pais aumenta suas reservas financeiras. Como é um dinheiro de curto prazo em todos os sentidos a lógica de quem o administra é investi-lo novamente em negócios de ganho rápido na especulação financeira e na compra ininterrupta de terras. Como se diz “Não pode deixar o dinheiro parado”. Caso fique parado, perde-se uma oportunidade que, de repente, tem tudo para ser a “genial”. O projeto de desmatamento da Chapada do Brejão idealizado pela família Introvini provavelmente era visto como “genial” tanto por esta família como pelo grupo João Santos que repassou a terra. “Genial” por que? Os Introvini iriam receber e desmatar mais de três mil hectares o qual pagariam 500 reais por hectare só após as primeiras colheitas. E por que eles pagariam apenas 500 reais o hectare ao grupo João Santos imaginando que com o tempo o hectare valeria muito mais? O Grupo João Santos fraudou documentação no cartório para passar a certeza de que a Chapada do Brejão lhe pertence. Provavelmente, os Introvini, sabedores da fraude cartorial, impuseram o preço e as condições de pagamento e o grupo João Santos em estado de falência aceitou sem pestanejar.    

domingo, 17 de novembro de 2019

As ilegalidades das licenças ambientais


Os bacurizeiros tremulavam em toda a Chapada do Brejão. Eles assumiram os seus lugares na Chapada bem antes do que se imagina. A presença humana se iniciou por onde? Houve um ponto único ou ela se originou em vários pontos? O ser humano se conformou à Chapada e aos Baixões (A Chapada é privilegiada pelas incontáveis espécies de madeira enquanto que os Baixões se aferram aos cursos de água e aos babaçuais). Os nomes das comunidades ligadas ou interligadas a Chapada do Brejão dão boas pistas dos relevos nos quais elas se estabeleceram. Brejão e Brejinho, nomes de duas comunidades, indicam proximidade com os veios de água que nascem ao pé da Chapada e descem pelo vale ou pelos baixões, ou seja, a água vai se abaixando até chegar ao nível do relevo. Causa estupor que o técnico responsável pelo projeto de desmatamento da fazenda Belem, projeto da família Introvini, tenha afirmado em 2017 à frente do então promotor de Buriti, o senhor Clodoaldo, que não havia nascentes nem do rio Munim e nem do rio Preto na área prevista para o desmatamento. Com o desmatamento de mais de 900 hectares não “haveria” mais nascentes em canto algum da Chapada do Brejão o que afetaria diretamente as comunidades citadas assim como as comunidades do Belem, Araça e Capão. Na verdade, afetará porque o desmatamento foi realizado com licença concedida pela Secretaria de meio Ambiente do Maranhao e mesmo com as denuncias de irregularidades o órgão garantia a legalidade do licenciamento. Entretanto, por conta da pressão da sociedade civil, uma equipe de fiscalização da SEMA vistoriou o local de desmatamento e constatou inúmeras irregularidades. Uma delas é o fato de que a área do desmatamento apresentada a SEMA está a cinquenta quilômetros de onde ele realmente aconteceu.
Mayron Régis

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O riacho e o poço

O rio Gengibre é permanente. Outros rios do Baixo Parnaiba maranhense também o são, portanto não é o único rio permanente seja em Santa Quiteria ou seja no Baixo Parnaiba como um todo. O que pega é o numero considerável de riachos que secam antes do reinicio do inverno. O numero de riachos aumenta ano após ano. Não há um dado preciso de nenhuma parte. É o caso de enumerar e nomear os rios que secaram, os que estão em processo de diminuição do volume e os que seguem volumosos. Um dos rios que secaram por completo, na altura do mês de novembro, corta a área da comunidade do Riachinho  que principia a sequencia de comunidades presentes ao longo da estrada que vai da sede do município de Santa Quiteria a zona rural. O leito do riacho por debaixo da ponte aflige quem gostaria de ver água ocupando aquele espaço. Em que momento exato a água some? O único rastro que ela deixou foi uma poça. Os animais, que bebiam da água do riacho, transferem-se para regiões onde a água segue abundante. O ser humano continua no povoado Riachinho ou em outro povoado com o mesmo problema. Cavou-se um poço que abastecerá a casa ou a comunidade. A água permanece no subsolo e com o poço ela reaparece. Não em forma de riacho que assume várias formas em seu trajeto. Sim na forma de um circulo que é a forma de um poço.  
mayron regis

domingo, 10 de novembro de 2019

Os pequis no chão da Chapada

Quantas páginas foram precisas para iniciar a viagem? Com certeza, só uma página responde a contento essa pergunta. Entretanto, outras perguntas precisam ser respondidas antes de iniciar a pagina e a viagem. O dia amanhecera do mesmo jeito para todos? Em alguns lugares chovera, umas gotas que seja, um chuvisco mais demorado, nada a comemorar no caso de uma chuva mais intensa. A chuva se precipitou volumosa em trechos mais longínquos do centro da cidade que ainda dormia em seus sonhos e sonhava em seu sono. Nesses locais de precipitação demasiada, as pessoas acordam bastante cedo porque suas rotinas as obrigam a se deslocarem para trabalharem em regiões opostas a onde residem. A chuva caia grossa nesses recantos não tanto cobertos de vegetação, sobretudo descobertos pela precariedade de infraestrutura e pela precariedade de serviços públicos de qualidade. Para onde essas pessoas se dirigiriam, a chuva se revelou apenas na molhadura das ruas e de alguns espaços das casas. Caso alguém perguntasse ao do centro como começara o dia, o perguntado responderia “preguiçoso”. Caso alguém perguntasse ao da periferia como começara o dia, o perguntado responderia “complicado”. A chuva atrapalhara o deslocamento das pessoas por alguns quilômetros, na saída de casa, no aguardar do ônibus, nas ruas esburacadas e encharcadas e nos engarrafamentos. Não é essa viagem a que nos referimos. Ela ainda não iniciou como se previa. O motorista não dera partida no carro. A água do café fervia na chaleira. A padaria só abriria sete horas. Um ou outro dormia no sonho e no sonho dormia. Quem dormia sonhava com a chuva ou simplesmente sonhava o esquecimento da chuva? Chovia para onde iriam? A chuva venceria a secura e as queimadas? No dia seguinte, em São Raimundo das Mangabeiras, Francisco, presidente do STTR, anunciaria que a chuva estava por vir. Os incrédulos perguntaram como. Os pequis no chão da Chapada indicavam. 
mayron regis 

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

a resposta cinica do cartorio de Buriti ao Tribunal de Justiça do Maranhão


O desmatamento da Chapada do Brejão, município de Buriti, perpetrado pela família Introvini em conluio com o grupo João Santos, foi embargado na terceira semana de outubro de 2019. Aparentemente, o assunto morreu, isso claro depois de um mês de atividade continua dos tratores que derrubaram bacurizeiros, pequizeiros e babaçuais. A licença conferida pela Secretaria de Meio Ambiente do estado do Maranhão permitia o desmatamento de 900 hectares na Area de Proteção Ambiental Morros Garapenses, unidade de conservação que abrange os municípios de Buriti, Duque Bacelar, Coelho Neto e Afonso Cunha.
Como se vê, a criação da APA Morros Garapenses em 2008 não impediu os desmatamentos das Chapadas de Buriti e de Afonso Cunha pelos plantadores de soja e pelas empresas de eucalipto nos anos posteriores. Na época, qual era a principal razão para que se criasse uma unidade de conservação nessa região? Se fosse apenas preservar algum sitio arqueológico no município de Duque Bacelar perante a ameaça protagonizada pelo grupo João Santos essa razão seria insuficiente. Não precisaria incluir os outros municípios de Buriti, Afonso Cunha e Coelho Neto. Entretanto, esses municípios foram inclusos na área da APA Morros Garapenses e não por uma razão qualquer. Os municípios de Buriti, Afonso Cunha e Coelho mantem em seus territórios vários trechos de alta relevância para biodiversidade e várias nascentes dos rios Munim e Parnaiba. Boa parte da área desses municípios foi tomada pelo agronegócio da soja, do eucalipto, da cana e do bambu. O que não foi tomado e destruído se deve a presença de comunidades tradicionais (extrativistas, agricultores familiares e quilombolas) que defendem seus territórios tradicionais.
Não se sabe ao certo quem embargou o desmatamento da Chapada do Brejão. O Ibama não destina mais equipes para o leste maranhense e a SEMA se mostrava arredia a enviar uma equipe de fiscalização a área devido as relações da secretaria com a ultra poderosa família Introvini. Quem embargou, certamente, cometeu esse ato por pressões e criticas da sociedade civil como as que foram feitas em reunião com órgãos do governo do estado na secretaria de direitos humanos. Além das criticas exercidas a frente dos órgãos do governo, é importante salientar o papel interpretado pela associação do Araça que cobrou do ministério publico e do Iterma informações sobre a veracidade dos documentos do grupo João Santos que repassou as terras para a família Introvini. O Iterma, a pedido do ministério publico de Buriti, analisou a documentação e assegurou a sua falsidade. Com essa informação, pediu-se a anulação da documentação cujo pedido se encontra em analise na corregedoria do Tribunal de Justiça. O cartório de Buriti respondeu aos questionamentos da corregedoria de forma bem singular ou cínica, (depende do ponto de vista): “Por que o Iterma quer anular essa documentação se a quase totalidade dos documentos de terras no Maranhão são do mesmo jeito? ”.
Mayron Regis