quinta-feira, 2 de julho de 2020

Um rio e um conto

Um rio e um conto Deus não lhe deu o direito de escrever certo por linhas tortas. Ele mal escreve errado por linhas áridas. Ele ri ou ele conta? Se ele estiver nervoso, melhor rir; se ele estiver sério, melhor contar. Antes rir do que chorar um rio ou um vale de lágrimas. A tristeza não conta nesse final de história. De quantos contos ele precisa ? Ele conta o que sabe e mente sobre o que não sabe. A mentira ri de suas pernas curtas e conta a verdade inculta. Quem conta não esquece jamais.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Os criticos de machado de assis

Guimarães Rosa não mede palavras ao se referir a Machado de Assis depois da leitura de seu livro Dom Casmurro. “Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos:  acho-o antipático no estilo, cheio de atitudes para “embasbacar o indígena”; lança mão de artifícios baratos...”. Quem leu os dois escritores e acontece de ler primeiro a prosa Machado de Assis para em seguida ler a prosa de Guimarães rosa concluiria que a linguagem de Machado referenciaria a linguagem de Guimarães Rosa. Santa ingenuidade. Tal tipo de conclusão, de que Machado de Assis é o grande provedor da literatura brasileira, é simplista e as frases de Guimarães Rosa escancaram as diferenças entre as linguagens de um e de outro. Diferenças entre Machado de Assis e escritores de primeira linhagem podem ser apreendidas em escritos de Lima Barreto e Mario de Andrade. Os dois escritores não tiveram o menor receio de exporem suas diferenças estéticas com relação aos escritos machadianos em artigos criticos. Dir-se-ia que a critica de Lima Barreto é afobada pois transparece uma ânsia de criticar e que a critica de Mario de Andrade é travada pois não se sabe bem o que ele critica. O comentário de Guimarães está presente em um diário que ainda não veio a publico e pelo tom e pelo arranjo quer parecer que foi escrito antes de iniciar sua carreira literária. É o tom reprovatorio de alguém jovem. “...acho-o antipático no estilo...”. Quem a não ser alguém jovem faria um comentário sobre esse aspecto. Mario de Andrade escreveu uma homenagem a Machado em 1939 pelo centenário de seu nascimento “Acontece isso da gente ter as vezes por um grande homem a maior admiração, o maior culto, e não o poder amar.” Alguma coisa em relação a Machado de Assis trava Mario de Andrade. O restante do paragrafo propõe que para conseguir ama-lo, Machado de Assis deveria ser menos genial como foram menos geniais Dante, Camões e outros escritores. O amor nos escritos machadianos não exerceu fascinio, diferente do ciúme, da hipocrisia  e da loucura que fascinaram Machado bem mais. A critica de Lima Barreto a Machado de Assis não é curta e fina. Ela é longa e grossa e de tanto ressentimento que o leitor quase prefere desistir da leitura, mas é bom lê-la para provar o veneno na literatura. “Machado era um homem de sala, amoroso das coisas delicadas, sem uma grande, larga e ativa visão da humanidade e da Arte. Ele gostava das coisas decentes e bem postas, da conversa da menina prendada, da garridice das moças.”

Não dá um prego numa barra de sabão

Não dava um prego numa barra de sabão
“Tu sabes o porquê do nome Cavaco?’, perguntou a Silvana. Cavaco era o nome antigo do Bairro de Fátima. “Não sei, mas posso perguntar a minha mãe. Ela veio de mudança nos anos 70 com minha avó. Elas moravam antes em Timon. Pergunto se não teria sido mais fácil ter se mudado para Teresina que é do lado de Timon”. Ele concordou com a suposição da amiga. Tinha em mente as viagens que fez no começo dos anos 80 com a família durante as férias de julho para o município de Eugenio Barros. O ônibus da empresa Timbiras saia bem cedo da rodoviaria de São Luis que ficava no bairro Alemanha e chegava em Eugenio Barros beirando a noite. “Durava dois dias a viagem de mais de quatrocentos quilômetros entre Timon e São Luis nos anos setenta”, ela disse. “Qual é o nome da tua mãe” “Aldenora” “É um nome bonito”, ele economizou no elogio. “Porque tua mãe saiu do Bairro de Fátima e foi para o Coroado? Pelo jeito ela gosta muito de morar no BF tanto que voltou para o seu antigo bairro”. Eles se falavam há quase dez anos e falavam de todos os assuntos em tudo quanto é lugar da cidade onde pudessem beber uma cerveja gelada. Eles beberam e conversaram do lado do mercado do João Paulo numa segunda feira “segunda feira sem lei” com algumas amigas dela. Nesse dia ele parou cedo. Ela e suas amigas foram terminar o dia no bar de uma delas num lugar chamado de fronteira (bairro do Coroado, mas quase Redenção). Portanto, não era esquisito querer saber da mãe dela. A dona Aldenora saiu do Coroado e passara a morar na Redenção porque não queria saber do pai de Silvana que “não dava um prego numa barra de sabão em casa”. Logo, ela compraria um terreno no Coroado às mãos da prefeitura de São Luis onde construiria sua casa e onde moraria com os filhos. Ela descobriria com o tempo que aquele terreno lhe daria um trabalho danado quando chovia muito pois alagava tudo. Os bairros Coroado e Bairro de Fátima cresceram em regiões de alagado (rios, mangues, maré). Segundo consta, os primeiros moradores do Bairro de Fátima foram negros escravizados que fugiam de uma fazenda no Sitio do Físico. Eles vinham nadando pelo rio das Bicas e encontraram no Bairro de Fátima um porto seguro.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Jogo de cartas


Havia mais de três meses que não se viam. Só se comunicavam pelo zap. Ele enviava suas crônicas e uma delas ela adorou. “Adorei a crônica do mercado do Bairro de Fátima, pois me vi presente”. Ele se movia por ruas e avenidas apinhadas de ausências. A presença de um rapaz negro adornava a entrada de um comércio de frutas e legumes. Um domingo insuspeito que se fechava a cada passo dado. Silvana propôs beberem dentro do mercado do BF para reavivarem a memória. A frente do mercado é daquelas frentes inigualáveis porque por mais que se busque alguma comparação não se encontra. O portão do lado direito estava trancado no cadeado. Um feirante conversava com  outro em um dos boxes e mais nada, nenhum sinal de cerveja ou mais gente. Acreditava que não veria movimento interno. Que nada, alguns passos a frente e deparava com o portão do lado esquerdo escancarado e sons alucinantes vindos de algum protótipo de bar que abrira naquele fim de tarde de um dia de domingo. Ele sentira o movimento e era o suficiente. Ele e Silvana se mudariam pra lá em instantes. Ela bebia uma cerveja num bar de reggae a alguns metros de sua casa. “Você emagreceu. Eu não, fiz foi engordar”, ela lamentou. Ele queria recuperar o dia em que desconfiara de uns caras que entravam e saiam de um salão nos fundos do mercado. A dona da vendinha, onde bebiam, informara que se tratava de um jogo de cartas e que não era permitido gente desconhecida. Ele planejava escrever, quem sabe, um dia, uma historia de um jogo de cartas a dinheiro.  

domingo, 28 de junho de 2020

uma tradição

Ele foi atrás de uma tradição. Começara perguntando onde ela estaria. As pessoas, a quem perguntava, riam em seus íntimos. Quase ninguém se interessava mais por ela. Não por aqui. Nem em qualquer outro lugar. As perguntas o levaram até Urbano Santos.
Quem o receberia naquela cidade quando desembarcasse? O presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Urbano Santos providenciara um motociclista a fim de recepciona-lo e carrega-lo até o povoado de São Raimundo. Esse nome não saira de sua mente. Lera-o num documento da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos. Nesse documento figuravam vários nomes de comunidades atormentadas por conflitos com a Suzano Papel e Celulose e com proprietários. A tradição da luta pela terra se embrumara. Eles rodaram um caminho de piçarra e areia. A presidente da associação de São Raimundo se assustou. Ele despejou várias perguntas sobre ela e pareciam algo incongruente e irreal. Quem era aquele moço que viera de tão longe? A que eles deviam sua passagem por ali? Ele, enfim, topara com a tradição que andava atrás por tanto tempo e ali o seu tempo, o tempo que aprendera, dissipava-se em um vastíssimo tempo do qual não haveria saída.

sábado, 27 de junho de 2020

A cultura maranhense nos arredores e nos arrebaldes em Josue Montello




Há uma discussão urgente que deve ser travada e é uma discussão adiada porque entra num terreno espinhoso da cultura e das relações entre segmentos sociais que interpretam e elaboram a cultura. Não escreveria interpretar e elaborar cultura no seu dia a dia porque como qualquer construção ela depende de uma passagem de tempo para que possa se consolidar perante a sociedade.  Uma construção cultural precisa de quanto tempo para que ela possa ser analisada devidamente? Josué Montello, escritor maranhense do século XX, precisou de dez anos para escrever uma crônica em que o assunto principal era o São João (São João maranhense, Baú da Juventude, 1997). Ele retornava do Rio de Janeiro em 1946 e revivia os festejos juninos em São Luis. “Exatamente dez anos depois de ter saído de São Luís, torno a encontrar, numa noite de 1946, a mesma alegria, a mesma animação, a mesma riqueza de ritmos, de cores e de movimentos, nas festas que se realizam no João Paulo, nos arredores da cidade”. Esse trecho faz pensar uma pergunta: antes de mudar-se para o Rio de Janeiro como Josué Montello via os festejos juninos afinal o trecho aludido foi escrito dentro de uma diferença de tempo, dez anos? Pelo discurso de Josue Montello, ele reencontra “a mesma alegria, a mesma animação, a mesma riqueza de ritmos...”. Seria quase uma retomada do ponto de onde ele deixou as festas. A essência das brincadeiras e do São João é a imutabilidade. A essa imutabilidade, ele acresce a sua, pois, passados dez anos, ele vê as brincadeiras como as deixou. Em sua narrativa, nenhum brincante comparece, nenhum brincante se sobressai. Acaso ele se detivesse em algum brincante ou alguma brincadeira especifica, o caráter imutável das brincadeiras se desmancharia, pois um boi não é igual ao outro assim como um brincante não é igual ao outro. Entretanto nem tudo é imutável na crônica de Josue Montello. As pessoas não se dirigem mais a zona rural para presenciar os bois “Antigamente as festas de São João se faziam em arrebaldes distantes de cidade: Anil, Maioba, Turu e São José. Ultimamente, a animação maior é nos arredores de São Luis, no bairro proletário de João Paulo onde existem um ou outro dos velhos sítios e das velhas chácaras, que nos vieram do tempo do Império e do começo da República. O casario, que era quase todo de palha, mudou muito, de uns tempos para cá.”.  O João Paulo é a novidade no cenário das festas juninas e essa novidade é avaliada num contexto de mudanças sociais (bairro proletário) e mudanças no visual urbano (casario mudou muito). Josué Montello reconhece essas mudanças no discurso mas não no conteúdo.  “Mas a festa ainda é a mesma”. A cultura é a festa em si ou todo processo de construção das brincadeiras e da festa? O porque da mudança das festas dos arrebaldes para os arredores de São Luis deveria motivar algum interesse a levantar hipóteses. E a constatação da animação maior como provar? Não só a festa ainda é a mesma, o autor Josué Montello não mudou nada em dez anos.

Quilombolas denunciam frequentes ataques durante a pandemia

APandemia COVID-19 não é barreira para impedir os ataques do Agronegócio aos indígenas, quilombolas e camponeses. O ano de 2020, no Maranhão, vem se caracterizando como de extrema violência no campo. Em nota a Comunidade do Tanque denuncia os ataques do agronegócio e supostos grileiros de terras. Localizada na cidade de Matões, a Comunidade ocupa 1.600 de um total de 2.800 hectares que reivindica a proteção ambiental e de suas plantações.
O associado Pedro Morais da Silva Filho ressalta em nota: “Ressaltamos ainda que nossa maior preocupação é a derrubada de nossa mata auxiliar, destruindo a fauna e a flora, como também as terras para a produção do sustento dessas famílias residentes”.

Leia a nota na integra:

ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES (AS) E PRODUTORES NA AGRICULTURA FAMILIAR DO POVOADO TANQUE DOS MELQUIADES E ADJACENTES DO MUNICÍPIO DE MATÕES-MA
Apelo social
Matões, Maranhão 26/05/2020
Eu, Pedro Morais da Silva Filho, lavrador, sócio na Associação TANQUE DOS MELQUÍADES (ponto de referência próximo ao TANQUE DA RODAGEM, comunidade quilombola), venho recorrer e apelar para movimentos de lutas por territórios quilombolas MOQUIBOM (Movimento Quilombola do Maranhão), e a quem nos ajudar defendendo o nosso território.
Relato da causa:
A comunidade TANQUE DOS MELQUÍADES é uma Associação de moradores e pequenos produtores na agricultura familiar registada com CNPJ desde 2013 com atualmente mais de 70 familias habitando. A mesma está na posse de em terra de responsabilidade pública com o CAR (Cadastro Ambiental Rural) de 1. 600 hectares sendo que a área total que queremos defender territorialmente são mais de 2. 800 hectares e há muito tempo essas famílias e outras que aqui habitam e produzem seu sustento vêm sofrendo turbações e ameaças de suas posses por parte de grileiros disfarçados de todas as formas.
Vários compradores de terrar a exemplos: Gaúchos, Baianos e outros, vem usando práticas costumeiras de compra de pequenas propriedades ligadas à referida área em que estamos residindo, praticando invasões na nossa comunidade com o uso de máquinas, tais como Trator de Esteira e Pneu, atingindo o ‘fundo’ de nossas casas e de nossas plantações. Ressaltamos ainda que nossa maior preocupação é a derrubada de nossa mata auxiliar, destruindo a fauna e a flora, como também as terras para a produção do sustento dessas famílias residentes.
Do relato em exposição da situação e causa, apelamos e recorremos em caráter urgente ao MDA (Ministério Do Movimento Agrário ), bem como aos movimentos de luta por territórios quilombolas MOQUIBOM( Movimento Quilombola do Maranhão), e aos que nos ouviram e se sensibilizarem com nossa causa.
Matões Maranhão 26/05/2020
Pedro Morais da Silva filho