quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Dupla identidade

Na segunda semana de setembro de 2021, a comunidade quilombola de Tanque da Rodagem fechou a rodovia que liga a cidade de Matões ao restante do estado e que passa pelo seu território. Os quilombolas respondiam, dessa forma, a presença de jagunços armados e tratores que derrubavam casas tudo a mando de fazendeiros/plantadores de soja paranaenses que planejam expulsar os quilombolas e despeja-los em algum pedaço de terra qualquer. Os quilombolas de Tanque da Rodagem não reconhecem o acordo aceito pela direção da associação que aceitou uma área de 120 hectares doado pelos fazendeiros enquanto abrem mão de uma área de mais de dez mil hectares. Algumas famílias aceitaram o acordo em que não só abriam mão de suas posses no território quilombola como também assumiam que invadiram a terra a partir de 2010. O agronegócio para desmobilizar as comunidades tradicionais defende e apregoa a tese que essas comunidades invadem terras que se destinam ao plantio de monoculturas como soja e eucalipto. Quem primeiro chegou com essa conversa em Tanque da Rodagem foi a Suzano papel e Celulose que entrou com uma ação de reintegração de posse. Uma empresa que sai sabe Deus de onde ameaça a comunidade de remanejamento para se apossar de seu território e plantar milhares de eucalipto para sua fábrica de celulose planejada em Palmeirais do Piaui. O planejamento da empresa desprovia a comunidade de seu território e comunidade tradicional sem seu território ancestral não se configura como comunidade tradicional porque uma não vive sem a outra. É justo perguntar as famílias que assinaram o acordo: que identidade repousa na terra que os plantadores de soja lhes doaram? Ela equivale a mesma identidade construída por décadas em Tanque da Rodagem? Ou ela terá que se reconstruída com bases sociais vinculadas ao agronegócio?

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os agregados de Buriti do Boi

Os agregados de Buriti do Boi Em que momento a classe de proprietários do Baixo Parnaiba maranhense passou a negar suas relações historicas com os agricultores familiares que para sobreviverem se agregaram como tábua de salvação as suas propriedades? Essa é uma pergunta recorrente com relação ao Baixo Parnaiba tendo em vista o papel que cabe aos proprietários tradicionais no tocante a expansão da fronteira agrícola. O papel dos proprietários tradicionais foi o de facilitar a entrada dos plantadores de soja no Baixo Parnaiba maranhense a partir do final dos anos 90. A característica dessa região nunca foi de grandes propriedades a não ser as clássicas famílias despudoramente latifunidarias como os Lyra, os Leite e os Barcelar. Os pequenos e médios proprietários se atinham a terrenos que começavam no Baixo, perto de cursos de água, e terminavam no topo da Chapada. A propriedade é sempre uma extensão do seu proprietário e de seus projetos econômico e sociais. No máximo, um proprietário anseia com uma casa grande um curral, algumas cabeças de gado e moradores para vigiar a criação. O tamanho médio de uma propriedade dava conta desse anseio. Entretanto, em qualquer conta, entra um senão. No caso das propriedades em questão, o senão é relacionado com o fornecimento de alimento para o gado. A chapada analisando a mentalidade dos proprietários, seria esse ativo econômico ambiental capaz de gerar e fornecer alimentos (capim) as suas criações. E os agregados funcionariam como seus empregados/vigias informais. Esse é o panorama da formação de parte da classe proprietária do Baixo Parnaiba maranhense no século XX. No avançar do século, os proprietários ou envelheceram ou morreram. Em qualquer um dos casos, quem herdou a administração da propriedade não tem os mesmos vínculos nem com a terra e nem com os agregados. No Maranhão, a figura do agregado ainda é uma figura que persiste e essa persistência dificulta o avanço do agronegócio sobre o Cerrado do Baixo Parnaiba porque o agregado é visto como alguém da família do proprietário e assim por diante. Quando o proprietário ou alguém ligado a ele decide vender a propriedade tem que observar os direitos do agregado. Muito difícil isso acontecer. As filhas do proprietário de Buriti do Boi, comunidade tradicional de Chapadinha, vendeu quinhentos hectares de Chapada para um gaúcho chamado Mirto. O documento oirignal da propriedade se refere a uma área de 200 hectares no Baixo e não na Chapada. O Mirto foi fazer os marcos na Chapada referente a sua pretensa propriedade. Os agregados de Buriti do Boi não permitiram porque o gaucho quer desmatar a Chapada para plantar soja e é a área rica em Bacuri. È uma área riquíssima em bacuri e da qual os agregados coletam o fruto e vendem para compradores de Chapadinha e Teresina. Na hora de vender a Chapada para o gaúcho, as herdeiras de Buriti do Boi não pensaram por esse prisma e sim pelo prisma de lucrar em cima de algo que nem é delas.

domingo, 5 de setembro de 2021

Um nome negro/indigena para um igarapé

O jornalista perguntou ao Valber o nome que ele e sua mulher davam ao igarapé que escorria pela sua propriedade de cinco hectares. Valber respondeu uma vez. E mais uma vez. O jornalista desconfiava se mais tarde se lembraria do nome certo. Pediu papel e caneta. O nome soava diferente. A mulher de Valber se sentara a sua frente para conversar e direcionar as pessoas que giravam a sua volta. “Quero lhe fazer uma pergunta”. “Se eu puder responder...”. “ Fora dos limites da nossa propriedade cresceram um bacurizeiro e um pequizeiro. Tenho medo que alguém os derrube para pranchar”. “ Tem alguma forma de impedir que isso aconteça? Quero ir a secrearia de meio ambiente de Santa Rita para que eles me orientem”. O jornalista explicou que não há uma legislação especifica que proteja nem o bacurizeiro e nem o pequizeiro da mata. Para quem não sabe há o pequizeiro da mata e o pequizeiro da Chapada. Este sim é protegido. A inexistência de uma legislação que proteja essas espécies não quer dizer que o cidadão esteja de mãos amarradas. Os bacurizeiros e os pequizeiros são espécies de vital importância para as populações pobres do Maranhão que vendem os frutos em natura ou as polpas de fruta. Os seus frutos carreiam dividendos para a população pobre de Santa Rita ou de qualquer município maranhense. Os frutos dão lucros sem cobrar nada em troca. Assim como o bacuri e o pequi, é a juçara. O Valber e dona Josely, mulher dele, são proprietários de um terreno de cinco hectares, o que daria um certificado de proprietários para eles, mas no fundo, no fundo os dois pertencem ao reino dos extrativistas, pois as juçareiras se encarregam de vicejar por todo o ambiente. Sem o extrativismo da juçara, a renda de Valber e sua mulher despencaria nos primeiros meses do ano. O jornalista insistiu em perguntar o nome dado ao rigarapé para que anotasse no papel e não pudesse esquecer. Valber respondeu: “Nambuquim”. “O que significa?”. “Não sei. O nome vem desde os tempos do avô da minha esposa”. O avô morrera com quase cem anos portanto o nome vinha de muito antes deles chegarem ali. Com quase 1005 de certeza, afirmar-se-ia que o nome possuía raízes indígenas e negras.

sábado, 4 de setembro de 2021

O turismo redutor

O ludovicense bem ou mal sabe direitinho o nome da sua rua e se por acaso alguém perguntar ele responderá com o maior gosto como se fosse a questão de prova que lhe dará um dez graúdo que nem um outro aluno conseguirá. Agora, pergunte se ele conhece rua tal, perpendicular a sua. Nunca ouviu falar. “è por aqui ?”. Constatar esse fato é curioso visto que sendo São Luis uma cidade reconhecida como patrimônio da humanidade pela Unesco os seus moradores deveriam se esmerar em aprender tudo em quanto sobre sua cidade. Não é o que se vê e não é o que se ouve. O ludovicense organiza seu interesse e seu conhecimento de acordo com os pontos turísticos. Antes do turismo virar moda e virar uma indústria em São Luis, o máximo de conhecimento histórico-artistico que um cidadão apresentava a um turista se resumia ao teatro Arthur Azevedo. Para a grande maioria da população fazer turismo combinava com praia e as praias de Sao Luis, pelo menos no quesito visual, conquistavam a atenção de qualquer um que pusesse os pés nela. Com os devidos investimentos em infra estrutura e recursos humanos , passou a se vislumbrar um turismo em que se disponibilizavam riquezas arquitetônicas urbanísticas e sociais através de grandes investimentos nas reformas de espaços públicos e construções historicas e na promoção de grandes eventos artísticos. Em alguns (a)casos, grandes mais na auto promoção do que outra coisa. O turismo, repetindo a mesma experiência de muitas cidades do nordeste, tornou-se a maior indústria da economia ludovicense. Ainda assim, cometendo os mesmos equívocos do turismo praieiro que privilegiava uma visão meramente degustativa da realidade e desinvestindo em setores econômicos capazes de alavancar o próprio turismo. Não se investe em educação voltada para a preservação do patrimônio histórico, não se investe em arqueologia, não se investe em cursos com foco em ecologia, produção de alimentos agroecoloicos e etc. A aplicação dos preceitos do turismo em São Luis reduz os potenciais da cidade a uns meros espaços físicos e umas meras narrativas que os turistas esquecem rapidamente. Como o discurso do turismo seja ele qual for foi montado para atender um publico especifico, a maior parte da população de São Luis o vislumbra em situações especiais. No restante do ano a rotina do empobrecimento intelectual prevalece

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Máquinas pesadas atolam nos campos naturais de Anajatuba

Depois de muito tempo que ele entendeu para onde aqueles dois homens, uma mulher e uma criança se dirigiam. Aquela pequena comitiva tinha por direção as ilhas que se formavam nos campos naturais de Anajatuba quando as águas do rio Mearim subiam. Um dos homens retornava as ilhas para conferir a situação dos seus porcos que soltava no começo do inverno e que buscaria quando o rio baixasse. Programara-se para permanecer longe de casa por dois ou três dias no máximo. Sobre os ocupantes do outro barco (um homem, uma mulher e duas crianças) não prestou muita atenção. Dali onde partiam, podia-se navegar para Arari, Santa Rita, Bacabeira ou quem sabe São Luis. Nas ilhas dos Campos naturais, residem várias comunidades quilombolas que para se deslocarem em tempos de rio cheio navegam em pequenas embarcações a motor e em tempos de rio baixo se deslocam a cavalo ou a pé. Caminhar pelos campos naturais requer uma certa dose de experiência; por mais seco que os campos estejam quem anda pela primeira vez é capaz de atolar com bota e tudo. Os quilombolas que fugiam para essas ilhas pelas razões de sempre (escravidão, briga por terras, ameaças de morte e etc) nos séculos passados deviam passar por sérios apertos ao andarem pelos campos descalços. Eles andavam com pressa e descalços agilizavam os passos para que os seus perseguidores não os alcançassem no meio do caminho. Na pressa, os quilombolas largavam tudo que juntaram na antiga moradia, onde cresceram e formaram família. Os fugitivos escolheram as ilhas como refugio pelos fazendeiros ignorarem esses ambientes. Estes tambem podem ter concluído que os negros não dariam mais trabalho indo para lá. Provável que a ignorância/preguiça dos fazendeiros prevalecera porque difícil enumerar o tanto de ilhas que despontam nos campos e os quilombolas se espalharam por todas elas fundando núcleos. Praticamente impensável para os ignorantes/preguiçosos proprietários devassarem os campos atrás de quilombolas. Os fazendeiros/escravocratas foram espertos em deixar os quilombolas em paz nas ilhas pois temiam ou se perderem ou afundarem nos campos. A historia e a arqueologia dos campos naturais de Anajatuba, Santa Rita e Bacabeira é pouco estudada porque se fosse bem estudada a empresa EDP empresa sino portuguesa de energia tinha aprendido alguma lição com seus antecessores fazendeiros/escravocratas e evitado enviar suas maquinas pesadas revolverem os campos numa época em que ainda há bastante água por debaixo do solo. Deu no que deu, as máquinas atolaram, vazou óleo e peixes morreram.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Os embusteiros

Uma vez ele perguntou o que caracterizava os argentinos. Quem se dispôs a responder, não entendeu a brincadeira. Os argentinos eram exímios embusteiros porque vendiam uma imagem que não condizia com a realidade. Articulava essa ideia em torno da literatura argentina pela qual passara a ter um apreço. Até brincava que Jorge Luis Borges era um tio seu. Se quisesse, podia citar vários parentes seus perdidos pela literatura e pelas ruas de São Luis, cidade onde nascera em 1973. Pois bem, a literatura argentina permite que se brinque com as suas pretensões. A literatura brasileira, ao contrario, é mais séria. Essa vaga ideia de que os escritores argentino tendem ao embuste se alicerça na leitura de vários escritos de Borges em que se depreende um escritor cuja originalidade se baseia nos comentários das obras alheias. Diferente de outros casos, Borges escreve comentários não como critica literária e sim como ficção literária.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Nao te faz de doido

O linguajar e sempre uma forma de expressar uma faceta do dia a dia da pessoa ou de um grupo social. Nao se deve observar o linguajar como algo fechado em si como alguns pretendem com relacao a linguagem. Ele resulta das varias interacoes e conexoes que os povos que viveram e os que ainda vivem num espaco geografico e social praticam ou praticaram delibradamene e inconscientemene para melhor compreender grupos sociais diferentes do seu. Nao te faz de doido e uma expressao utilizada pelo ludovicense da periferia em circunstancias especificas. Quem fala essa expressao, e bastante improvavel que se escreva, nao quer chamar o outro de doido e sim quer chama-lo para uma razao social, quer dizer, voce se insere num contexto, sabe das relacoes presentes em determinado lugar e quer fazer o outro de abestado. Nao te faz de doido carrega um sensacao de defender o que e seu independente de quem seja o interlocutor. A maioria da parcela de pessoas que integram as classes sociais mais pobres no Maranhao procuram se expressar de forma educada e solicita ainda mais na presen;a de pessoas provnientes das classes mais altas e das elites. O linguajar se torna entao uma protecao contra possiveis reacoes em contrario. As elites maranhenses se acostumaram a ver a grande maioria dos maranhenses como abestados e que qualquer desculpa esfarrapada ou trocado os convence de que est[a tudo bem obrigado. O deputado estadual Cesar Pires se coloca como um grande defensor dos campos naturais de Santa Rita e um dos campos de luta em que ele se destacou foi a luta contra o projeto de carcinicultura que pretendia se instalar nos campos, causando muitos impactos socioambientais pela dimensao do projeto que se estirava de Santa Rita a Anajatuba. O deputado se posiconou contra o projeto e como num passe de magica virou defensor dos campos contra quaisquer projetos que pretendessem se instalar sem o consentimento da populacao rribeirinha. Ao que parece, essa defesa tao honrosa exclui as comunidades quilombolas porque a possibilidade iminente da instalacao da carcinicultura expulsou diversas familias de quilombolas de Ilha das pedras e expulsaria a comunidade inteira de Mucura ou Cedro caso o Centro de Cultura Negra nao interviesse na ocasiiao. Sabe-se muito bem que a defesa dp meio ambiente e inutil sem a defesa das populacoes tradicionais que interagem com esse terriorio. A defesa do bioma ou do sistema ambiental deve vir junto com a defesa das comunidades. Se nao casos como os da retroescavadeiras que atolaram nos campos de Anajatuba enquanto prestavam servi;o para a empresa sin o portuguesa EDP se repetirao porque os orgaos ambientais e os legislativos n’ao fiscalizam o que as empresas fazem e quando as comunidades cobram compensacao ambiental os funcionarios desconversam, isso nao existe. Bem que um dos quilombolas que escutou tal aberracao poderia ter respondido Nao te faz de doido.

A rua quieta

A noite, foi a casa do amigo numa rua perpendicular a sua. Dormir cedo nem pensar. Dormia algumas horas das quais acordava pensando o quanto dormira. Por volta das sete horas, subira a ladeira. Trocaria breves palavras. O amigo se aprontava para sair. O cão na antiga casa de seu pai o aguardava faminto. Pediu que o seguisse pois se sentia melhor em companhia de alguém. Ele estranhava as ruas em que as pessoas desdenhavam do mundo. Para não fazer desfeita, fez-lhe companhia. Contava com a rapidez do amigo em colocar comida para o cachorro, obrigação que ele cumpria religiosamente nos dias em que o irmão passaria foras. Alguém deveria se ocupar do cachorro que chegara aos quinze anos. O seu pai morara naquela casa por décadas. Por alguma razão, não perguntou ao amigo o nome da rua, a ultima rua do bairro. Se prestasse atenção, veria que se mantinha pouco informado do que rolava no bairro. Dias mais tarde, descobriria o nome com o auxilio de um amigo geografo. O nome era Viveiro de Castro. No entanto, para si, o nome da rua pouco lhe importava. Pensava mais nas pessoas que moravam na rua por décadas e dificilmente punham a cabeça e os pés para fora de casa a nãos ser que fosse estritamente necessário. Parece que as pessoas assim que chegavam ali só queriam mexer naquilo que lhes diziam respeito. A senhora Madalena que chegou no bairro quando este se chamava Areal deve ser desse tipo de gente que se interessa apenas por suas coisas. A frente e a estrutura da sua casa permanecem as mesmas de sempre. Pois sim, a rua e as casas não abrem mão de suas quietudes.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

os campos encantados

Os campos naturais seriam um elo de ligação dos recursos hídricos com a terra firme. Adriano Almeid, advogado e fotografo, acredita que os campos se comportam como seres encantados e que para trafegar por eles só com permissão antecipada. A empresa sino portuguesa EDP de energia nos últimos meses tem enfrentado dificuldades para concluir os serviços da linha de transmissão que interliga Miranda a São luis e que passa pelos campos naturais de Anajatuba e Santa Rita. A empresa não pediu permissão as comunidades que moram perto dos campos e que vivem economicamente desse espaço ambiental. Os estudos de impacto ambiental solenemente ignoram os campos como berçários de inúmeras espécies de peixes de água doce e água salgada. Por conta dessa ignorância, a empresa terceirizada da EDP entrou nos campos naturais para erguer as torres de transmissão em plena piracema e em pleno regime de chuvas quando o rio Mearim sobe e encosta na terra firme propriamente dita. Essa ação irrefletida fez com que os peixes não executassem os seus planos de procriação nos campos naturais de Santa Rita e Anajatuba e o resultado mais devastador foi que os moradores que pescam ou tem açudes na região não viram peixes de 2020 para 2021. A empresa EDP argumenta que todo impacto se resume a um maquinário que atolou próximo a comunidade de Sitio do meio, município de Santa Rital, impacto que ela reconhece e pelo qual pagou indenizações de três mil reais aos donos de açudes. A maior parte do serviço de erguer as torres foi finalizado em Santa Rita e talvez por isso ela se esquive de negociar com as comunidades de papagaio e redondezas, mas falta terminar os serviços em Anajtuba. E o problema do maquinário atolado se repetiu no campos de Anajatuba e as comunidades impactadas pela linha de transmissão avisaram que o maquinário fica atolado até o dia de São nunca de tarde. Os campos naturais são ou não são encantados?

domingo, 29 de agosto de 2021

Mateus Enter

Por trás do discurso político e referências tecnologias em suas músicas e discos , as letras escritas e gravadas por Chico Science e Nação Zumbi revelam uma questão aparentemente esquecida na trágica história dos povos negros e indígenas no Brasil: a dificuldade de acessar informações técnicas e tecnológicas por parte desses setores. O acesso a essas informações possibilitaria a superação do processo histórico de exclusão social a que esses setores foram relegados. A música "Mateus Enter" que abre o cd "Afrociberdelia" gravado em 1996 e a junção de duas palavras que se opõe em termos históricos, culturais e temporais. "Mateus" e um brincante de folguedo das ruas de Recife e Olinda. "Enter" e uma tecla de computador que ao ser teclada abre espaço. "Mateus Enter" seria uma forma das classes populares acessarem tecnologia sem pedir permissão e de maneira subversiva.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O romance de Cesar Teixeira

Cesar Teixeira, compositor e interprete de musica popular maranhense, quer escrever um romance cuja narrativa se basearia na historia do município de Cajapio, Baixada maranhense, onde nasceu sua mãe no começo do século XX. Para isso, ele pretende retornar a cidade algo que só fez uma vez em sua vida, na sua infância quando viajou com sua mãe de barco pela baia de São Marcos. Chegaram a noite em Cajapió, numa noite iluminada pelas estrelas e pela qual se moveram a cavalo. Pelo que conta, eram os anos quarenta e pouca gente vivia nos municípios da Baixada maranhense, contava-se uma casa aqui e para chegar a outra mais adiante caminhava-se por areal. Perguntado se mantem alguma ligação com Cajapio, Cesar Teixeira respondeu que sim devido a sua mãe. A mãe de Cesar Teixeira migrara cedo para São Luis. Com mais ou menos treze anos. Um parente a levara para morar em sua casa e cuidar de sua filha da mesma idade. As pessoas acreditavam que uma menina do interior tinha as melhores condições para cuidar de uma criança. A infância de Cesar transcorreu na rua de São Pantaleão. Ele e sua mãe moravam do lado da Casa das Minas, casa de culto afro. Sofria costumeiramente de insônia e as vezes só conseguia dormir ao escutar os tambores africanos que soavam madrugada adentro. Os tambores acalmavam os seus sentidos ou os preparavam para o futuro ainda inerte? Se chorasse, Cesar buscava a Casa das Minas para chorar com mais emoção. As pretas velhas lhe pediam favores. Vá comprar farinha seca. Vá comprar querosene. Para ver o quão difícil era se manter em São Luis nos anos quarenta e cinquenta. Abastecer uma casa dependia muita das vezes de relações sociais e econômicas. A sua mãe costurava pra fora e Cesar carregava sobre a cabeça os tecidos costurados para poder entrega-los. O dinheiro obtido dava pra alguma coisa. Um parente de Cajapio ajudava com o envio de mantimentos por barcos que saiam de Cajapio em direção a São luis, onde desembarcavam no Cais da Sagração. Junto com os mantimentos, vinha alguém todo embecado, mas descalço, que tomava de conta para que não se perdesse ou alguém furtasse. Era enviado jabiraca (peixe seco), tamarindo e bacuri. Por um bom tempo, esses mantimentos garantiram a segurança alimentar da família de Cesar Teixeira. A fisionomia de Cesar Teixeira indica uma ascendência indígena. Ele reconhece que descende dos Guajajaras que habitaram a região de Cajapio e que foram exterminados ou integrados com o passar do tempo. O seu primeiro trabalho foi na TVE nos anos setenta, um trabalho que durou três meses. Do lado da TVE, havia um comercio que vendia pão e cachaça. Antes de entrar na televisão, Ubiratan Teixeira parava para tomar umas doses e sugeria que Cesar Teixeira bebesse uma com ele. E lá ia Cesar Teixeira, bebeu cachaça e não assinou o ponto nenhuma vez. Descobriu anos mais tarde que Ubiratan era seu parente. De vez em quando, ele o mal-diz em alguma mesa de bar como forma de lembra-lo

Governar pra quem ?

Um governante e eleito para administrar bem o Estado ou para atender as reinvidicações da sociedade? Nem sempre os interesses do Estado e os interesses da população convergem. No caso do Brasil o Estado e uma construção recente, do começo do século XIX quando da vinda de D João Vi para o Brasil. A comitiva real veio fugida da invasão de Napoleão Bonaparte e com ela veio a burocracia dos funcionários públicos e da nobreza. Quem mandava no Brasil realmente ? Quem mandava no Brasil era quem exercia cargos na burocracia. Não eram os indígenas, os negros e os brancos pobres que nem liam e nem comoreendiam as leis. Governar o Maranhão em pleno século XXI e tão diferente de governar o Maranhão de décadas atrás? O atual governo escolheu governar aliado ao agronegócio e há quem acredite e defenda que as práticas de governar com esse setor se modificaram em relação aos governos ungidos pelo Sarneysismo. Há quem acredite e defenda que o agronegócio e capaz de aumentar a capacidade de produzir e dividir a riqueza em proveito da maioria da população. Riqueza tem seu valor absoluto como também tem seu valor simbólico. O que se viu até hoje foi que a expansão do agronegócio com as bençãos dos governos concentrou riquezas nas mãos de poucos. Essa e sua natureza pois para poder lucrar esse setor da economia não abre mao da concentração de recursos humanos e econômicos. Ele não divide espaço com a agricultura familiar. Não adianta que o atual governo do Maranhão propale a ideia que o estado ganha com o agronegócio a não ser que seja um outro Estado um estado burocrático um estado de poucas famílias e um estado de poucos grupos econômicos.

Porto para exportação em Alcântara

O projeto da construção de um porto na ilha do Cajual município de Alcântara infiltra se devagarinho nos ramos da sociedade maranhense sem que setores da sociedade civil se dêem conta. Sem informações do projeto não há como interpelar o governo do Maranhão principal interessado no projeto. A fronteira agrícola no Maranhão se desloca do cerrado sul maranhense para o oeste do estado. Esse deslocamento decorre das mudanças climáticas que ocasionam a diminuição nas chuvas. Os plantadores de soja correm para áreas onde chove melhor e a amazônia maranhense e esse lugar. Eles arrendaram fazendas de gado sub aproveitadas, arrendaram lotes em assentamentos da reforma agrária como aconteceu em Açailândia e disputaram terras com a Suzano Papel e Celulose. Os plantios de soja se aproximaram das terras indígenas sem respeitar zonas de amortecimento. O projeto da construção do porto em Cajual, rica em biodiversidade e artefatos arqueológicos, vem no bojo da expansão da fronteira agrícola. E como o projeto do porto de Cajueiro se encontra parado o governo do Maranhão precisa de uma carta na manga. Essa carta e o porto se Cajual. Tem um pequeno grande problema no planejamento estatal. As comunidades Quilombolas que vivem em Alcântara e nas vizinhanças. Por onde se anda, topa se com comunidades Quilombolas e os governos e os empresários as vêem como entrave. Vide o caso do centro de lançamento aeroespacial de Alcântara. Mas nada que aliciamento de lideranças Quilombolas e desinformação não resolva.

a tarde de sabado

A tarde de sábado se encerrou com uma reunião no povoado Papagaio município de Santa Rita com os donos de açude que não produzem mais peixes por conta da linha de transmissao de energia que a empresa portuguesa EDP instalou nos campos próximos a Santa Rita e Anajatuba o que inviabilizou a produção de mais de oitocentos açudes. A maior parte desses açudes pertence a famílias pobres que escavaram sozinhas com suas mãos. Uma dessas famílias foi a de uma quilombola da ilha das Pedras na Foz do rio Mearim. Essas famílias Quilombolas correm o risco de passarem fome porque não há mais peixes nos açudes. Pelos cálculos do escritório de advocacia que representa as famílias proprietárias dia acudes, a produção de peixe só em Santa Rita chegava a quase mil toneladas. Essa situação mudou drasticamente e quem vai pescar nos campos retorna sem um peixe sequer. A besteira foi que as empresas terceirizadas da EDP entraram nos campos na época do inverno e da piracema. Muito barulho e muita movimentação afugenta os peixes. E o caso da pirapema peixe migrador que desce o alto mar em direção aos campos para procriar. E um dos peixes que desapareceram. E a empresa EDP não quer se responsabilizar pelos impactos que suas obras causaram.

Quem define o que é civilização e o que é barbarie?

O centro leste maranhense entre tantas regiões do estado pouco comparece na memória do Maranhão. Apesar dessa afirmação um tanto quanto falaciosa, planejava-se um périplo por essa região tão deslocada no mapa. A razão desse périplo se explicava pelas noticias de que a Suzano papel e Celulose plantara milhares de eucaliptos sobre o Cerrado daquela região desavisada. A empresa aportara por Chapadas inequívocas com a (des)graça dos governos que viam com bons olhos os projetos de plantar mais de 600 mil hectares de eucalipto no Maranhã, Pará, Tocantins e Piaui par alimentar três fábricas de celulose no ano de 2010. Os donos verdadeiros dessas Chapadas atendiam pelo nome de quilombolas e em cada uma delas uma comunidade quilombola se sobressaia ano após ano. Os quilombolas se antecederam a quaisquer pretensos proprietários que se rotulem como tais. Eles antecederam em séculos e séculos demoram a fechar. Os séculos nas comunidades quilombolas nem chegam a fechar. As manifestações culturais, folclóricas e religiosas celebram seus antepassados que morreram há muito tempo. Acender uma vela no chão da casa ilumina o ambiente e também é uma promessa/divida de reza. A comunidade de Guerreiro em uma data incerta de 2021 celebrava uma santa de seus muitos santos. Uma comitiva andava pela comunidade bem cedo ao som de instrumentos de corda e de tambores. Essa comunidade de Parnarama se fortalece dessa forma contra as investidas da Suzano e de plantadores de soja que reclamam quase todo o seu território com o fim de desmata-lo. Um dos membros da comitiva era um senhor da comunidade de cocalinho que se especializou em fabricar artesanato com a cara do sertanejo e que saia pelas comunidades festejando a santa. Os moradores da região se identificam como quilombolas, mas a ideia do sertão se difunde por aquelas Chapadas e por essa gente quebradora de coco babaçu, coletora de buriti e comedora de caça. Os negros foram escravizados por criadores de gado numa logica de ocupação do sertão, espaço a ser desbravado e civilizado. A civilização nesses lugares atendia pelos nomes de Estado, igreja e proprietários rurais. Fora disso, a barbárie. Quem define o que é civilização e o que é barbárie no sertão de Parnarama, Matões, Caxias e outros municípios do centro leste maranhense

terça-feira, 24 de agosto de 2021

As ilhas e o casarão

A solidariedade se constitui num artigo em desuso. A comunidade de Papagaio se constituiu em torno de um nucleo da família Dias. Quem olha de fora imagina o quanto deve ser difícil viver no Papagaio distante de tudo e de todos . Impressão equivocada por certo. Dificuldade houve e ainda há mas a vida social e familiar que os moradores de Papagaio construíram fez com que se mantivessem fiéis a si e aos campos de onde tiram seus sustentos. Num lugar em que a luz foi instalada apenas em 2002 por intermédio do programa Luz para todos, restava a eles para sobreviverem do ponto de vista econômico pescarem e plantarem roça. Do ponto de vista simbólico, eles sobreviveram através dos seus discursos e das suas práticas diárias. As pessoas ainda cobram histórias de visagem, de vaquejadas, de açudes abertos com as maos, de caçadas, de cobras retiradas os couros e de lagoas. Há também histórias das ilhas que compõem o Horizonte e que mal se vê. Não e pra qualquer um distinguir o que e ilha e o que e campo. O Augusto da família Dias tem prática. Ali e ilha tal. Acolá e ilha tal e qual. Morava muita gente nessas ilhas. A empresa Bomar, do ramo da carcinicultura queria expulsar os Quilombolas da ilha das Pedras e dos Cedros para instalar um grande projeto de camarão em cativeiro. Felizmente, o projeto se encontra parado e as comunidades permanecem em seus Territórios. Outra ilha que Augusto contou a história foi a ilha das Berlengas onde um italiano construiu um casarão.

comunidaade quilombola se reconhece

A comunidade Quilombola antes de ser reconhecida ela se reconhece. Quer dizer o reconhecimento para se configura de início não precisa de alguém de fora e sim daqueles se dentro. A Suzano Papel e Celulose e os plantadores de soja no Maranhense estabelecem processos de reintegração de posse contra as comunidades Quilombolas defendendo a tese de que elas não existem. A Suzano fez isso diversas vezes e os plantadores de soja também pelo Maranhão todo. São setores que pintam modernidade mas no íntimo cultivam o racismo. A Suzano por conta do fracasso de seu projeto de produção de celulose no Piauí quer se desfazer de mais de 150.000 hectares no centro Leste maranhense o que significa vender para os plantadores de soja que chegaram a essa região. Uma dessas áreas e da comunidade quilombola de Tanque da Rodagem que sofreu vários processos de reintegração de posse por parte da Suzano. Para os Quilombolas a empresa nunca teve pena se pudesse expulsava era mesmo. Como o projeto de celulose não deu certo ela nao prosseguiu com as ações. A empresa vendeu a área da comunidade quilombola para um plantador de soja que propôs um acordo nefasto. A comunidade aceita 120 hectares e entrega o território de mão beijada para o plantador de soja. Esse tipo de acordo e ilegal porque e um território tradicional. Portanto foi necessário que setores da comunidade quilombola propusse o acordo para parecer que os Quilombolas invadiram a terra e o sojicultor e um cara decente. Porque os Quilombolas de Matões aceitaram esse tipo de acordo em que eles perdem mais do que ganham? A integração dos quilombolas no estado do Maranhão se dará pela cooptação financeira.

O enigma das comunidades tradicionais

Kaspar Hauser e a história de um adolescente alemão que passou a maior parte do tempo trancado. Ao ser descoberto e liberto, teve que aprender a pronunciar a língua materna e a se socializar com outras pessoas. Quem primeiro desenvolveu essa história foi o escritor alemão Jacob Wasserman que a escreveu no começo do século XX e na qual o cineasta Werner Herzog se baseou para filmar "O enigma de Kaspar Hauser" de 1974. Por alguma razão, esse breve resumo traz alguma sintonia com a situação problemática em que vivem os povos tradicionais no Brasil. Em algum momento, quem lê ou assiste Kaspar Hauser se pergunta quem e Kaspar e quem o deixou nessa situação. A constituição federal do Brasil reconhece o direito das comunidades tradicionais a um território onde elas possam expressar seus modos de vida e suas ancestralidades. A verdade e que antes da constituição ninguém dava a mínima pros povos tradicionais ou nem queriam saber. A constituição federal desfez parte dessa vedação que impedia que as populações tradicionais fossem conhecidas. Com isso, parte da sociedade se pergunta "Quilombolas existem?", "Os indígenas precisam de tanta terra?", "Eles são brasileiros?". Perguntas que não levam a nada a não ser a mais preconceitos que se cobrem com o discurso do processo civilizatório que pretende civilizar e integrar os povos tradicionais ao modelo de consumo e produção capitalista vigente. 0 comentário

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Um sonho de bacuri

Dona Maria Rita disse na bucha: “Seu Mayron hoje não fiz jantar pro senhor. Tantas vezes deixei janta pronta e o senhor chegava de bucho cheio”. Ele não fez nenhuma objeção a sua fala. Ela tinha razão mesmo. Por sorte, ele e os outros dois que o acompanhavam pararam no bar social um misto de bar e restaurante familiar construído as margens da rodovia por onde eles trafegariam a noite saindo de Palestina no sentido-municipio de Buriti. O dono do bar estava recolhido por conta de um mal estar e a sua mulher os recepcionou. Na descida do carro, perguntaram se havia algo para comer. Optou-se por pasteis com queijo, mas a senhora veio com uma surpresa. “Todos vocês comem galinha caipira?”. “Ora não.”, foi a resposta. Ela cozinhara a galinha caipira para o marido que não quis comer. Vendo-os no salão de seu bar, resolveu oferecer como refeição. E não cobraria nada. A vida tem dessas coisas inesperadas. Na casa de dona Rita, pediram a dormida cedo em duas redes e em uma cama. Embrulharam-se com esperança de sentirem o frio característico do mês de agosto sobre a Chapada. O Vicente de Paulo, marido de Dona Rita, explicou, no dia seguinte, que a sua família comera boa parte das suas criações de frango caipira. Os donos do gado que abasteciam a zona rural demoraram a abater seus animais o que encareceu ainda mais a carne. A dificuldade em obter carne se espalhara por todo Buriti, só que no caso da família de Vicente e Dona Rita os frangos apareceram como alternativa. Eles não correram risco de passar necessidade ou fome. Os frangos que eles comeram eram, em parte, resultado de projetos apoiados pelo Fundo Casa e pela agencia de cooperação alemã ASW que vem aportando recursos na região do Baixo Parnaiba desde o ano de 2007. As instituições também financiaram a compra de bolas de arame que cercaram áreas de extrativismo de bacuri na propriedade da família do Vicente. Com os recentes desmatamentos em Buriti executados pela famila Introvini de produtores de soja, as comunidades pobres ficaram sem áreas de bacuri para coletar e quem sabe vender a polpa ou comer. O Vicente mantem em sua propriedade vários pequenos núcleos de bacuri como prova que essa fruta existiu realmente em Buriti antes dos desmatamentos ocasionados pela soja e pelo eucalipto.

domingo, 8 de agosto de 2021

O direito a ver sua historia contada de forma digna

O senhor Santinho riu um pouco. Achou curioso o titulo do livro. “De tudo quase nada”. O autor do livro presenteara ele e o marido da sua tia com um livro para cada um. Eles, por seu lado, o presentearam com melancias da lavoura do seu Santinho. É claro, as melancias não se destinavam apenas a ele. Elas também se destinavam ao senhor edmilson, agrônomo, e ao senhor Fabio Silva, ativista social, ambos secretários da prefeitura municipal de Bequimão. Sempre lhe pareceu que os agricultores familiares ao presentearem uma pessoa e sua família com frutas, legumes, frango caipira entre outras coisas davam demonstração de gratidão por algo que não decifrava. E não podia decifrar tão subitamente já que os códigos de convivência entre agricultores familiares e os poderosos foram estabelecidos muito antes do seu nascimento. No caso de Santinho, as melancias provavam o carinho que ele transparecia por Fabio Silva que passara três anos sem por os pes no território quilombola Cruzeiro, município de Palmeirandia. Os dois foram militantes da Comissão Pastoral da terra e dedicaram-se a mobilizar comunidades tradicionais de todo o Maranhão. Os dois deixaram a CPT e continuaram as lutas do melhor jeito que podiam aferir. Santinho virou liderança de Cruzeiro e desempenha um papel ativo no processo de regularização dos mais de 700 hectares e Fabio Silva foi nomeado secretario de igualdade racial de Bequimão. Nesse momento, em Palmeirandia, a Fundação Palmares reconheceu somente três comunidades como remanescentes de quilombos sendo que ao todo existem mais de 40 comunidades passiveis de reconhecimento. Reconhecer essas quarenta comunidades como quilombolas despertaria o município de palmeirandia para os direitos dos povos quilombolas que foram negados por séculos. Um desses direitos é o de ver sua historia ser contada de maneira seria e digna. As casas grandes, onde moravam os latifundiários escravocratas e suas famílias, perigam serem derrubadas porque empresários de fora compram os territórios quilombolas em toda palmeirandia. Essas casas grandes não foram tombadas e precisaria ter uma legislação para impedir as suas derrubadas.

A baixada

Antes de chegar a cidade de São Bento vindo de Viana enxerga se os campos inundaveis. Os campos se estendem por vários quilômetros e compreendem uma área incomensurável e inestimável chegando ao município de Bequimao. Para saber mais desses campos fez uma pergunta meio idiota : "Nessa região nunca houve projeto de carcinicultura?" Carcinicultura e criação de camarão exótico em cativeiro. "Aqui nessa região não porque esses campos são de água doce e a carcinicultura precisa de apicuns". A região da baixada registra um isolamento inexorável. Chegava se a região de canoa porque não havia estradas de terra. Os rios e as lagoas cumpriam o papel de estradas e de campo de extração de alimentos. Os antigos moradores provavelmente indígenas coletavam e caçavam alimentos. A agricultura era reduzida. Os moradores viviam sem expectativas econômico sociais e na história da humanidade a agricultura e a primeira grande atividade de impacto econômico social desenvolvida pelo ser humano. Primordialmente pescadores, os primeiros moradores transitavam pela baixada a vontade e em muitos casos solitários. A pescaria e uma atividade de poucas pessoas e que leva um tempo a espera. Qualquer atividade humana exige espera mas no caso da pesca a ansiedade da espera aumenta ainda mais por não se ver abaixo da água. Tem vezes que se pesca bem e tem vezes que se pesca mal. A carcinicultura como todo grande projeto econômico pensava em substituir a ansiedade da espera humana pela certeza da produção industrial em larga escala. Felizmente, organizações da sociedade civil entre os anos de 2003 e 2004 realizaram várias iniciativas questionando os impactos da carcinicultura ao meio ambiente e a segurança alimentar das comunidades ribeirinhas e das populações pobres das cidades do litoral maranhense. 0

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Comunidade quilombola sem roça e agronegócio de vento em popa no município de Colinas

Por mais que se pense o contrario, a Historia não é um monólito e nem é uma sequencia de fatos em linha reta. A historia da comunidade quilombola de Peixe, município de Colinas, não é uma linha reta. Se o fosse, a historia da comunidade estaria se direcionando para o abismo resultado das inúmeras arbitrariedades e omissões que ela recebeu da parte dos poderes político-econômicos da cidade de Colinas e do estado do Maranhão. No município de Colinas, Peixe talvez seja a comunidade quilombola mais impactada pelas ações do agronegócio que comeu quase todo seu território tradicional no afã de plantar soja, milho, eucalipto e capim para alimentar gado. Parte dessa destruição se deve a inercia do Incra que não cumpriu a tempo com suas obrigações constitucionais e regularizou o território de Peixe impedindo assim que os grileiros o desmatassem. A culpa principal da destruição do territorio de Peixe cabe a Jaldo Henrique, secretario da prefeitura municipal de Colinas, cuja familia se apossou irregularmente do território nos anos setenta e oitenta e vem vendendo pedaços a empresários locais que ordenam o desmatamento do cerrado e de babaçuais para no lugar plantarem soja e outras monoculturas. A intenção principal, entretanto, é dificultar o processo de regularização fundiária iniciado no Incra em 2006. A historia de Peixe se inicia com o senhor Teutonio que chegou a região em 1903. Ele chegou para ficar uns dias e ficou para sempre. Constituiu família que deu base para a comunidade de Peixe da atualidade. Um dos principais problemas enfrentados pelas comunidades quilombolas em qualquer parte do Maranhão é a distancia o que obriga os quilombolas a sujeitarem-se a quem possui meios de transporte. O pai de Jaldo Henrique transportava os quilombolas para Colinas em qualquer necessidade e sob qualquer quadro de emergência. O pagamento ele requeria não em dinheiro e sim nas terras dos quilombolas, pois chegava e cercava o terreno. Em função das relações politicas que possuía no município, o velho Jaldo forjou documento no cartório que comprovaria que era o proprietário de Peixe. Por ser o proprietário da terra, passou a comprar renda dos quilombolas sobre a produção que eles obtinham em seu território tradicional. Proibia-se que os quilombolas quebrassem o coco babaçu e tirassem o azeite a fim de vender. O coco babaçu era todo para ele e sua família. Essa situação mudou um pouco pelo menos n teoria em 2006 com o reconhecimento por parte dos moradores da sua condição de comunidade remanescente de quilombo. A parte teórica é bonita mas a parte pratica é terrível. Mesmo com o auto reconhecimento e com o Incra agindo de vez em quando o Jaldo Henrique vendeu quase todo o território o que deixou a comunidade sem nenhuma área para cultivarem sua roça. O direito dos quilombolas aos seus territórios tradicionais não entrou na cabeça dos fazendeiros do município de Colinas.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Comer galinha caipira na Chapada

Escrever é uma forma de tornar próximo aquilo que parece ser distante. O ano de 2004 ficou para trás assim como outros tantos anos de sua vida. Nesse ano, ele finalmente fora apresentado aos Gerais de Balsas. O Fundo Nacional de Meio Ambiente aprovara um projeto de revitalização de córregos em comunidades tradicionais que moravam nos Baixões encaminhado pela Associação Camponesa, sediada em Balsas. A fim de comunicar a aprovação do projeto as comunidades, uma equipe formada por membros da CPT e do Fórum Carajás saíram cedo da cidade de Balsas para jantarem e dormirem num entreposto comercial encravado na Chapada antes de descerem para os Baixões. Eles jantaram num pequeno restaurante cujo proprietário começara seus negócios naquele trecho como plantador de soja, negócio que não deu muito certo o que o levou a virar dono de restaurante. O jantar servido foi galinha caipira. Podia dizer que nunca comera uma galinha caipira com caldo tão grosso em toda sua vida. As suas experiências com esse prato até então se limitavam a poucos almoços e dificilmente nessas experiências o caldo engrossou tanto. Por mais que por aquelas bandas só houvesse plantadores de soja, o hábito de criar galinha caipira vinha bem antes do aparecimento da monocultura naquelas e outras Chapadas. Comer galinha caipira com aquele caldo grosso remetia a um mundo quase improvável de pessoas que viveram e ainda viviam livres sobre aquelas Chapadas e sobre aqueles Baixões. Coisa que a soja e outras monoculturas iriam substituir no seu devido tempo por outros valores. Eles jantaram e dormiram dentro da Toyota na qual viajavam. No dia seguinte seguiriam viagem pelas Chapadas e desceriam os Baixões para acharem as comunidades e o senhor João Fonseca, dirigente da ACA e geraizeiro das antigas.

A ilha

A pessoa, em si, nem se apercebia do que rolava a sua volta. Morava numa ilha e nunca viajara de barco em toda a sua vida. Não é que ela sentisse medo de rio ou do mar. A oportunidade o evitava e ele também se fazia de indiferente quanto a ela. A pessoa, em si, gostava de samba e alguns dos melhores sambas que escutara se referiam ao mar e ao rio. Reparava que as pessoas a sua volta andavam pelas calçadas ao lado do mar ou do rio. Essas pessoas a sua volta andavam caladas e distraídas com seus pensamentos. O mar ou o rio pouco chamavam atenção delas. A pessoa, em si, mantinha-se fiel a cidade com certeza se bem que seu olhar desviava de quando em quando para o mar cheio ou não. Naquele ponto da cidade, mar e rio se uniam totalmente para que horas mais tarde se separassem. Nessas horas de separação, os homens andavam por sobre a lama ou por dentro do que se pensava ser o que sobrou do rio. Já pensou sair de barco com proposta de pescar peixe e catar caranguejo ou sururu? O que a cidade comia vinha dali ou de recantos mais distantes do litoral? Almoçava no centro da cidade, sozinha ou acompanhada. Pedia uma pescada ou pedia um caldo de sururu/sarnambi. Comer pescada era bastante comum. Uma amiga preferia comer pescadinha porque o gosto da pescada lhe parecia banal. Comer caldo de sururu/sarnambi era muito incomum. Um amigo se surpreendeu ao descobrir uma venda que comercializava o caldo. Quase tudo naquele comercio remetia a mar, rio e pesca. Não o mar, o rio e a pesca dali de perto. Os comerciantes compravam peixes e mariscos de outros mares e de outros rios, onde, certamente, também viviam seres muitos diferentes do que se acostumara a comer nos mercados e nas praias de São Luis. Pois bem, a pessoa perguntaria os nomes desses mares e desses rios para quem sabe finalmente sair da ilha.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Os impactos da Suzano Papel e Celulose nas regiões centro oeste e centro leste maranhenses

Os plantios de eucalipto da Suzano papel e celulose se localizam dos lados oeste e leste do estado do Maranhão. Essa localização se explica historicamente no caso do lado oeste pelo projeto Celmar que a Vale do Rio Doce pretendia instalar na região de Imperatriz no final dos anos 90. Um projeto que incluía oitenta mil hectares de plantios de eucalipto e uma fábrica de celulose com vistas a exportação. O mercado internacional de papel e celulose levou a Vale a reavaliar seu projeto e engaveta-lo. A Suzano papel e Celulose, parceira/socia da Vale em vários empreendimentos pelo Brasil, ressuscita o projeto em uma amplitude maior, prevendo plantios em boa parte do oeste maranhense, no norte do Tocantins e sudeste do Pará. No caso do Maranhão, a empresa compro os ativos da antiga Celmar, os cerca de 80 mil hectares. Houve várias denuncias de apropriação indevida de territórios tradicionais por parte da Vale para o projeto da Celmar. Esse passivo socioambiental entrou na conta do projeto da Suzano papel e Celulose que evitou responder aos questionamentos da sociedade civil. Como sempre, a empresa em vez de responder as demandas da sociedade civil age por detrás propondo parcerias com movimentos sociais e pedindo reintegração de posse para áreas ocupadas por comunidades rurais. Essas comunidades são em sua maioria comunidades isoladas e com pouca visibilidade socioeconômica. O governo do Maranhão pouco se interessa por essas questões a não ser que haja uma pressão exercida por diversos setores da sociedade. Tem que se ter em mente que as regiões centro oeste e centro leste do Maranhão foram destinadas para a grande propriedade rural de criação de gado. O Estado brasileiro via nisso uma forma de ocupar a amazonia e regiões vizinhas. A criação de gado, no entanto, não deu os resultados esperados e o eucalipto surge como uma resposta do mercado para essa circunstancia. E as comunidades de agricultores familiares, extrativistas e quilombolas que giravam em torno dessas propriedades? A Vale, em primeiro lugar, e a Suzano, em seguida, não queriam saber se derrubariam babaçuais no transcorrer da implantação de seus projetos, o que importava era tocar os projetos como planejado. Há o caso da comunidade de Curvelandia, comunidade rural que sofre impactos pelo transporte de toras de eucalipto para a fábrica da Suzano a beira do rio Tocantins. Essa comunidade também sofre impactos porque além de agricultores também são pescadores e a Suzano Papel e Celulose despeja os resíduos da fábrica no rio.

domingo, 25 de julho de 2021

uma sensação boa

Toda a vez que eles se viam, o seu Ferreira lhe passava uma sensação boa. Vai ver essa sensação residia em algum ponto da sua historia recente. Por diversas vezes, o grupo João Santos, empresa de cana de açúcar de Coelho neto, e o Andre Introvini, plantador de soja, ameaçaram-no de despejo. As pessoas no Baixo Parnaiba, provavelmente, têm alguma historia de ameaça de despejo para relembrar e contar para o primeiro passante de beira de estrada que queira escutar. O Edivan, membro do MST e morador do povoado Belem, trouxe a baila o nome do povoado Brejão numa conversa em seu povoado. Que o povo de Brejão vivia sob condições de quase escravidão exercida pelo grupo João Santos que impunha regras de obediência e submissão a várias áreas do município de Buriti. A fama do grupo João Santos de opressão percorria o interior do Maranhão desde os anos setenta. A empresa comprou o Brejão das mãos de políticos maranhenses. A transação fora executada daquele jeito que todos sabiam e poucos perguntavam. o documento existente no cartório era só uma mera desculpa para justificar a fraude ou a legalização da grilagem da terra. O Estado do Maranhão não ia conferir os documentos para assegurar a legalidade ou não. Havia coisas mais urgentes para se preocupar. As faltas de preocupação e de ação por parte do estado do Maranhao referente as áreas publicas se traduziam numa incorporação do patrimônio publico por parte de empresas, de agentes financeiros e de políticos. Dessa forma, o negocio se concluía. No caso de Brejão, o então deputado Pedro Novaes vendeu o Brejão para o grupo João Santos que resolveu vender a propriedade assim como outras propriedades para gerar dividendos aos herdeiros da empresa. Na verdade, a terra não foi vendida. Ela foi arrendada para a família Introvini, plantadora de soja, e arrendar significa conceder uso provisório de uma propriedade mediante pagamento. O pagamento seria feito depois da venda dos plantios de soja. Por que uma empresa como o grupo João Santos em vez de vender arrenda a propriedade ainda mais num momento em que iniciara um processo de falência? Duas razões principais. Primeira: a documentação era falsa a propriedade não podia ser vendida. Segunda: a tentativa de fugir de pagamento de impostos devidos. A distancia de Brejão em relação a qualquer coisa do Maranhão e o desinteresse por parte do governo do Maranhão de qualquer coisa referente a zona rural favorecia as intenções de espertos como o grupo João Santos e dos Introvini de se darem bem. Só não se deram bem de todo modo porque seu Ferreira continua firme na sua casa ao lado de um babaçual no povoado Brejão resistindo as propostas para que aceite cinco ou dez hectares. Ele não aceita porque acredita que o seu direito a terra lhe garante muito mais terra.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

O convite

Ele chamou o amigo para um dia, quem sabe, andar por aquelas ruas que outrora andava-se com cuidado para não enfiar os pés na lama. Quem anda por essas ruas não corre mais o risco de sujar os pés porque elas foram urbanizadas. Quando foi a urbanização e quem a realizou? Quem dá importância para isso agora? No fundo, no fundo, as casas cresceram em cima de regiões alagadas, influenciadas pela agua do mar e pela água do rio Anil. Por muito tempo, ele se desentendera de qualquer coisa relativa a ocupação desordenada do espaço urbano de São Luis. A sua praia não era aquela dos mangues e dos alagadiços que os homens aterravam par erguerem suas casas e abrirem ruas. O homem desordena e reordena o espaço de acordo com suas necessidades. Para o bom entendedor, meia palavra basta ou, escrito de outra forma, para bom entendedor um meio role pelas ruas enlameadas basta. Não foi o caso dele. Por ser adolescente, a mãe o incumbiu de achar a casa de uma amiga sua. A mãe dava uma ordem e ai daquele que a questionasse ou descumprisse a ordem. Então, ele preferiu questionar consigo mesmo o porquê de andar por aquelas ruas curtas e pequenas cujos terrenos aterrados absorviam as fundações de casas espremidas umas as outras. Esse pensamento expressava um preconceito de classe e expressava um horror pela realidade social com a qual se deparava. A amiga de sua mãe morava perto e ao mesmo tempo longe de sua casa. Uma hora o relacionamento entre classes sociais se deteriora em outra hora esse relacionamento se recompõe. O amigo comentou que na quadra abaixo um grupo de jovens, em sua maioria oriundos das ruas curtas e pequenas, jogava Travinha, jogo de bola no meio da rua com duas travinhas representando as traves do futebol de campo. Esse jogo de Travinha se realizava graças ao convite de dois jovens que, por saberem da situação dos amigos, convidavam-nos a jogarem na rua mais larga onde moravam.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Povos indígenas e o conformismo da historia do Maranhão

Ele queria provar que a presença indígena no Maranhão se fazia muita das vezes de maneira sutil, quase imperceptível. E a sutileza nem sempre é percebida como se requer. A exposição constante da influencia portuguesa, da influencia africana e até de uma suposta influencia francesa impregnam o cotidiano maranhense, principalmente, da capital São Luis. Certa vez, ele comentou seu interesse com uma namorada pela investigação da existencia de povos indígenas em determinados territórios os quais frequentava no norte e nordeste maranhenses, caso de Buriti de Inácia Vaz, Urbano Santos, Santa Quiteria, Barreirinhas, Humberto de Campos e Morros. Comentara anteriormente com um amigo que menosprezara a conversa com aquele jeito de que não vê procedência e sentido naquilo tudo. Não se sentiu derrotado e voltou ao assunto com a namorada cuja família tinha raízes na baixada. E qual foi a resposta? “ Em São Bento não há indícios de presença indígena”. Epa, como assim? A Baixada maranhense é sumamente conhecida e reconhecida por guardar artefatos arqueológicos que comprovam a presença indígena milhares de anos antes da chegada dos portugueses. Ela apenas repetia a visão e a versão de um escritor da região. Um conformismo intelectual ou a preguiça intelectual atrai conformismo social e vice versa. Os povos indígenas foram imprescindíveis para a própria colonização portuguesa no século XVII. Sem indígenas não haveria mão de obra escrava no inicio da colonização, pois os negros só chegariam em grande quantidade do século XVIII pra frente. Os recursos humanos da economia maranhense eram formados basicamente por indígenas capturados e essa presença indígena se estendia por todos os campos da sociedade agrária maranhense. A alimentação diária das camadas pobres maranhenses deixaria muito a desejar caso os indígenas tivessem sido exterminados como setores políticos e econômicos pretendiam. O maranhense come peixe e mariscos por causa da influencia indígena que ficou submersa por séculos. O homem é o que come e parte da população maranhense come pescada amarela, peixe pedra, peixe serra, curimatá, traíra, surubim, peixes de agua doce e salgada, e caranguejo, siri, sururu e surubim, animais que são pescados ou extraídos. Quem ensinou o maranhense do litoral a pescar no rio ou em alto-mar? Os conformismos intelectual e social acarretaram o apagamento de grande parte da historia indígena no Maranhão e o apagamento da consciência do papel dos povos indígenas na historia do Maranhão como um todo.

terça-feira, 20 de julho de 2021

As ilhas quilombolas

Os postes iluminavam a estrada vicinal. Mesmo assim, a escuridão da noite dominava tudo ao redor o que impedia de ver qualquer coisa a poucos metros. O que para muitos significava uma distancia impressionante, para outros significava pouca coisa. Dentro do terreiro, pisava o chão encharcado pelas águas do rio Mearim. Fora do terreiro da casa, via as nuvens que sobrevoavam os campos inundáveis. Nem pensava em apanhar as nuvens aparentemente tão perto como também não pensava em pisar os campos por ser inexperiente naquele tipo de ambiente. Bem, o tipo de ambiente referido se tratava dos campos inundáveis um tipo de ambiente que mescla seis meses de submersão (embaixo de água) com seis meses seco ou com pouca água por cima da areia e da vegetação. Umas três vezes o convidaram para embarcar em algum barco ancorado as margens provisórias do rio Mearim e navegar até alguma das ilhas que se formam durante as cheias do rio porque se não fosse de barco teria que ir andando pelos campos e haja perna para uma empreitada como essa. Os quilombolas habitam essas ilhas: ilha do Teso em Anajatuba e Ilha das pedras em Santa Rita. Sustentam-se a base da pesca e muito recente viram os peixes fugirem por conta das ações da empresa portuguesa EDP que ergueu sua linha de transmissão de Miranda a São luis em pleno inverno o que assustou e afastou os peixes.

domingo, 18 de julho de 2021

Festejo de São benedito em Anajatuba

Anajatuba município do Maranhão localizado próximo a foz do rio Mearim. A historia física cultural e ambiental desse município está totalmente ligada a historia das comunidades quilombolas. Uma dessas historias diz respeito ao bairro de São Benedito que antes era uma comunidade quilombola rural e passou a ser uma comunidade quilombola urbana já que a zona urbana de Anajatuba engoliu a comunidade. Uma senhora escrava morava nessa comunidade antes dela se chamar São Benedito e antes dela ser reconhecida como quilombola. Atribuía-se a expressão terra de preto porque só viviam nessas terras escravos e descendentes de escravos. Os latifundiários de Anajatuba designaram essa senhora para cuidar de seus parentes leprosos. Com medo de pegar a doença e contaminar sua família, a senhora prometeu organizar e realizar uma festa em homenagem a São Benedito. Se essa historia chegou até os dias atuais foi porque a senhora recebeu a graça de não pegar a doença e desde então todo dia primeiro de janeiro acontece no quilombo a festa em homenagem a São benedito, uma festa que incorpora também a figura de São Lazaro.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

comer bem na praça do Carmo

comer bem na praça do Carmo De uns tempos para ca, ele passou a investigar o que as pessoas ao seu redor comiam e onde comiam. Quem quiser comer bem ou comer uma comida razoável pelas bandas do centro de São Luis vai penar como um fantasma que não encontra um local para descansar. Porque comer em um restaurante seria importante? Almoçar com os amigos ou almoçar com um cliente ou almoçar sozinho, qualquer dessas ocasiões requer uma exposição física e psicológica, ou seja, precisa sair da clausura doméstica. Em alguns casos, diverte-se almoçando fora, e na maioria do casos, deseja-se ganhar tempo almoçando na rua. Recentemente, uma foto da praça do Carmo na década de 40 (?) apareceu no instagram. A pessoa que postou a foto expos uma serie de aspectos sociais e humanos que animavam a praça como o consumo de caldo de cana e pão com queijo. Até os dias mais recentes, pessoas que viveram esses anos suspiravam de saudades pelo caldo de cana e por outras maravilhas da culinária popular como o quebra queixo. Esse tipo de produto despertava saudades só que esse tipo de produto mais enganava o estomago e mais enganava o cérebro do que realmente alimentava a pessoa. É claro que alimentar a população pobre do Maranhão nunca foi uma preocupação das elites que por séculos governaram o estado. Nem se discutia o que viria a ser comer bem. Para a maioria das pessoas, comia-se o que tinha e caso não tivesse a comida do dia a dia tipo arroz, feijão, carne e farinha se dava um jeito. A zona rural do Maranhão as pessoas pobres viviam dando um jeito ou um jeitinho para não passarem fome. Essa historia de valorizar caldo de cana e pão com queijo vai muito nesse sentido de mascarar os efeitos da falta de acesso a uma comida decente no interior do Maranhão e na capital do estado. É 0

sábado, 10 de julho de 2021

O russo desconfiado

Assim Joseph Brodsky descreveu Anna Akhmatova, poetisa russa, no ensaio “Musa Lastimosa” do livro “Menos que um”, publicado pela Companhia das Letras em 1994: “ com 1,77 metro, cabelos escuros, pele branca, olhos cinzento claros semelhantes aos leopardos da neve, esbelta e incrivelmente graciosa...”. Desculpem o jogo de ideias, uma descrição dessas passa longe da sensação de frio que se espera ter com qualquer experiência literária proveniente da literatura russa. Os primeiros contatos com os russos acontecem por meio de comentários ou citações presentes em obras de escritores não russos. A breve biografia literária do escritor americano Charles Bukowski que consta no final do seu livro “Cartas na Rua” detalhou suas influencias literárias e uma delas era Ivan Turgueniev, escritor russo do século XIX. Só anos mais tarde, leria “Pais e Filhos” de Turgueniev, traduzido diretamente do russo na edição da Cosac e Naify. Não há menor duvida que a maior contribuição de Bukowski para os seus leitores foi te-los incentivado a ler Turgueniev assim como Celine, escritor francês do começo do século XX. Brincadeiras a parte, ter lido os ensaios de Brodsky em 1994 motivou um olhar absolutamente inesperado. Ele escrevia em inglês e não em russo sua língua materna. Por vários trechos dos seus ensaios, Brodsky reconhece que a língua inglesa é insuficiente para dar conta de construções estéticas que no caso do russo é bem simples. A forma como ele se achega a Akhmatova e a Mandelstam reflete humildade, algo incomum em se tratando de escritores ainda mais russos. Brodsky nascera russo com ascendência judia e os judeus mantem uma relação complicada com a cultura e a historia dos países onde se assentam. Alguem precisava explicar e esmiuçar na forma de linguagem o que ocorre pelas cidades e pelos campos, pois a medida que cidades se erguem e campos nascem algo envelhece e morre. O estilo de Brodsky tinha mais a ver com o inglês do que com o russo e por isso transmitia uma sensação de objetividade ou de secura bem diferente do russo que se esparramava em várias frentes literarias sociais e politicas . Um russo desconfiado de sua capacidade, dir-se-ia

quarta-feira, 7 de julho de 2021

o Labirinto

Os pais, as mães e as avós de quem brincava de esconde esconde trinta e um alerta, pegador, cola descola, pega bandeira, cancão ou amarelinha, travinha e etc viam nessas brincadeiras uma tremenda perda de tempo. Tinha deles que nem deixavam seus filhos saírem para rua a noite com receio destes se perderem. Para os meninos ganhar a rua era mais simples do que para as meninas. Os parentes mais velhos mantinham sob rígida vigilância as meninas das quais cuidavam. Achavam que despertariam a cobiça de sujeitos mal-intencionados. Ou então achavam que os vizinhos fariam comentários dos quais se envergonhariam. Assim aconteceu com uma amiga no final dos anos setenta e começo dos anos oitenta no bairro Floresta, vizinho ao bairro da Liberdade. Os vizinhos a viram sentada no para choque do ônibus de linha brincando com meninos e delataram-na a mãe que a castigou na hora que chegou em casa vinda da escola. O bairro Liberdade despertava essa compulsão de sair pelas ruas e avenidas sem prestar conta de nada e sem prestar atenção em nada como se calçada e asfalto fossem uma coisa só. O morador da Liberdade desobedecia sem nenhum sentimento de culpa as regras de conivência no transito que diziam calçadas para pedestres e ruas e avenidas para carros e ônibus. Tudo era uma coisa só. Como alguns proprietários não fechavam totalmente suas casas, a criançada se escondia nos seus terraços abertos. Faziam silencio e torciam para que o dono da casa e cachorro continuassem dormindo. Nessas brincadeiras, a criançada obedecia aos conselhos dos mais velhos e circulavam pela quadra, onde todos se falavam e todos se conheciam. O bairro Promorar, vizinho a Liberdade, nasceu num terreno pouco convidativo por essa época, começo dos anos oitenta. O governo João Castelo aterrou uma área de mangue e em cima dele construiu cinquenta cubículos, porque casas decentes não eram, e para estes cubículos famílias de quilombolas de Alcantara, expulsos pela base aeroespacial, foram transferidos. O bairro Liberdade engoliu parte das áreas influenciadas pela maré e novas ruas apareceram formando um labirinto onde poucos se atrevem a entrar.

domingo, 4 de julho de 2021

O capitalismo (des)humano enfim chegou ao Maranhão

Em toda sua vida, ele escutara o nome Baixa da égua somente em relação a uma comunidade de Urbano Santos. É comum utilizar Baixa da Egua para designar lugares longe de tudo e de todos "Vai para Baixa da Égua". Bem no final do município de Urbano Santos, as pessoas rapidamente se esquecem das conversas longas e das caminhadas em direção a Barreirinhas, Santa Quiteria e Anapurus, municipios vizinhos a Urbano Santos. As pessoas se esqueceram das promessas feitas por proprietários tradicionais em troca de seus votos. Os proprietários agem em favor de políticos que, muitas vezes, são seus parentes. Promessa de tudo que é lado e de tudo que é jeito. Caso o politico se eleja, empregam o filho, empiçarram a estrada. constroem prédio da escola, regularizam a posse da terra, incentivam a agricultura familiar e etc. Os proprietários e os políticos prometeram tanto que descumpriram quase tudo. Algumas pessoas vão reclamar da estrada esburacada, da nomeação do filho pelo prefeito, da escola inacabada, da produção agrícola mínima e etc. De todas essas promessas, a maior de todas elas e que englobaria todas outras seria a regularização fundiária dos territórios onde essas pessoas vivem. A não regularização acarreta num futuro próximo o despejo da comunidade em consequência de uma liminar dada pelo juiz da comarca em favor do antigo proprietário que quer vender ou do novo proprietário que acaba de comprar. Os proprietários tradicionais se queriam resolver um impasse com um morador dava o veredito “Voce tem um dia para arrumar suas coisas e tirar pra fora”. A geração mais nova de proprietários propõe acordo com a comunidade ‘Damos a cada família cinco hectares”. Pelo visto, o capitalismo mais humano chegou enfim ao Maranhão para tira-lo do atraso.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

"Olha pra mim"

Nas suas módicas lembranças, a casa onde morou por treze anos se diferenciava das demais por uma singularidade: fora um posto de saúde antes deles morarem nela. Essa descoberta faria no inicio da adolescência, revelada por uma garota negra que o apresentou a família, moradora de uma rua vizinha a sua. Uma outra lembrança, ele carregaria pela vida. Lia com vigor e paciência. qualquer livro ou revista que caía em suas mãos delicadas. A sua família colecionava basicamente a enciclopédia Barsa e a Delta Larousse. Ele colecionava quadrinhos da Marvel e da DC Comics. Uma coleção que mal cabia numa caixa de papelão e da qual se orgulhava. A leitura não o cansava de maneira alguma e talvez, por conta de várias leituras que fez, passou a colecionar passagens de sua vida e da vida de amigos para relembrar anos mais tarde. A mais recente dessas (re)lembranças aconteceu no Chico Discos, um misto de café, bar, sebo e livraria incrustado na confluência da rua dos Afogados com a rua São João. Marcara com amigos que demoravam a chegar. Pois então, reencontrou uma amiga no Chico Discos. Ela entregou uma encomenda ao Chico e foi a sua mesa para reatar conversas perdidas. Não é tão simples reatar conversa passados anos de falta de contato. A conversa beira a formalidade e num determinado momento o que era um simples converse se converte numa conversa complexa sobre s origens. Ela morou na Floresta, bairro vizinho a Liberdade. Eles foram vizinhos e só naquela tarde ficaram a par desse cruzamento. A família dela provinha de Codó: a avó chegou nos anos 30 em São Luis para trabalhar na fábrica Canhamo, o avô foi estivador e a mãe tentara trabalhar como empregada, mas não se adaptou. A avó então determinou que ficasse “olhando a casa” enquanto saia para trabalhar. “Eu vou sair para trabalhar. Olha pra mim”, esse olhar era tomar de conta da casa e depois dar satisfação ao proprietário. A linguagem transparece as relações de posse “Ei tu que não estas fazendo vem aqui fazer alguma coisa”. Apagou-se esses usos incorretos da linguagem. A (re)lembrança desses usos, contudo, não se apagou 0 comentário

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Relembrar

Gostaria de relembrar a casa onde cresceu. Sim, ele lembrava dela. A sala de estar que era o espaço de jogar bola durante o dia e a noite servia de garagem para os carros que seu pai de vez em quando comprava. O quintal em cuja área mal cabiam jarros de plantas. A família criava um cachorro ao qual deram nome de Bonitão. O tanque de armazenar água para lavar roupa e banhar. A copa em que almoçavam, jantavam e estudavam juntos. A cozinha que as mulheres preparavam comida e limpavam. A televisão ficava no quarto dos filhos e todos assistiam-na por alguns minutos. Os filhos sempre passavam a impressão que eram brilhantes nos estudos. Quanto mais brilhantes mais chances de vencerem na vida. Sabe, ele gostaria de relembrar a casa que esqueceu.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Mesa de bar e musica

Bebia sozinho pela eternidade de algumas horas no bar do Deco. Almoçou sururu com arroz. Um prato bem simples. Não comeria todo. Nos seus melhores dias comia um pouco mais da metade da comida que punham a mesa. A reforma da feira da Praia Grande trouxe mudanças para o aspecto em geral da feira e uma dessas mudanças a que se submeteram os feirantes foi a compra de mesas de madeira para receber os clientes. As mesas de madeira são bem mais atraentes que as mesas de plástico. A diferença de trabalho artesanal para trabalho industrial explica. As mesas e as cadeiras de madeira não carregam nenhuma qualidade excepcional assim como as mesas e cadeiras de plástico, mas só fato de sentar numa cadeira e a uma mesa de madeiras sem expectativas de longo prazo representa muito para quem acha que a realidade não é só aquele consumo rápido e inconsequente. E para se ter ideia de quanto isso é verdadeiro, um amigo advogado lhe fez companhia. Não se falavam há alguns meses. Da ultima vez que se falaram, esse amigo lhe convidara para se fazer presente em sua casa nova para qual se mudara recentemente. Eles se cumprimentaram e esse amigo meio que solto na bagaceira procurava o que fazer numa cidade de São Luis de poucos ambientes abertos em pleno feriado de São Pedro. O calor, como sempre, dominava o ambiente dentro e fora da feira. Deem licença que o calor quer passar. Assim que é. Chuva nem que São Pedro mandasse. O amigo queria um ouvinte para suas agruras musicais. Perdera e vira se quebrar vários instrumentos musicais que comprara em Minas Gerais e São Paulo. Nem tudo eram más noticias. Anunciou que fizera uma descoberta musical. Do jeito que o amigo anunciara a descoberta, divagou para uma banda de rock clássico ou para um expoente pouco conhecido da MPB. O que ele revelou surpreendeu. Luis Caldas. “O quê?”. Sim. A musica baiana nunca mais foi a mesma depois de Luis Caldas, Sara Jane, Netinho, Araketu, Margareth Menezes e companhia limitada. Parecia improvável que um apreciador de rock, chorinho, mpb e etc aprendesse algo com Luis Caldas. E o mais improvável que a argumentação do amigo mudou a percepção de um Luis Caldas vulgar para um Luis Caldas musico de chorinho e interprete musical de Guilherme Arantes entre outras façanhas.

Projetos de infraestrutura (ferrovia e portos) e os impactos nas comunidades quilombolas, indígenas e rurais da baixada maranhense

A região por onde passará o ramal ferroviário Alcântara-Alto Alegre do Pindaré foi a que recebeu inúmeros contingentes de negros escravizados que desembarcavam em São Luis, eram vendidos e seguiam pela baia de São Marcos para descerem em vários pequenos portos nos municípios de Alcântara, Santa Rita, Anajatuba, Arari, São Bento, Viana e etc. Os destinos definitivos dos negros escravizados eram as fazendas de gado, arroz, cana de açúcar e algodão. Antes da chegada dos negros, os proprietários das fazendas escravizavam indígenas. O tráfico de negros substituiu os indígenas visto que estes desenvolveram várias formas de resistência a escravidão. A atividade do trafico negreiro se acelerou a partir da segunda metade do século XVIII. Até esse momento as levas de negros escravizados eram pequenas comparadas com estados como Bahia, Pernambuco e Rio de janeiro. O Maranhão é um estado com forte presença de negros, por qualquer lugar que se ande a pessoa esbarra em um quilombo, mas se observa vários indícios da cultura indígena que foi integrada tanto a cultura negra como a cultura branca. Os negros ao chegarem ao Brasil não conheciam as realidades geográfica, ambiental e alimentar desse pais. Ou eles aprenderam sozinhos essas realidades ou eles aprenderam com alguém e nesse caso os indígenas que moravam ao redor das fazendas ou que vinham pedir favores, comida e trabalho. A pesca era a principal forma de conseguir carne e os indígenas sabiam os melhores locais de pesca e quais peixes se davam melhor na cozinha. Numa situação de poucos recursos, os indígenas ensinavam como acender fogo e ensinavam como mante-lo aceso para assar peixe no meio do mato. Os indígenas ensinavam também o negro não se perder no meio da floresta e caso se perdesse não passar fome; quais matos podiam ser comidos, quais matos temperavam comida e quais matos viravam remédio. A região da Baixada maranhense, por onde passará a ferrovia, e a região de Alcântara, onde será construído o porto de escoamento dos grãos da região oeste maranhense, preserva características historicas e ambientais da época da escravidão, características pouco estudadas. Caso os projetos da ferrovia e do porto sejam concretizados a tendência é que processos de concentração de terra, desmatamento, poluição do ar e dos recursos, surgimento e agravamento de doenças sejam deflagrados e multiplicados e as populações quilombolas, indígenas e agricultores familiares serão os mais afetados. o governo do Maranhão pouco repassa informações sobre esses empreendimentos de infra-estrutura e os impactos que eles causarão. Por exemplo, ao todo, serão oito portos construídos ou ampliados na baia de São Marcos e as comunidades pesqueiras de São Luis como Cajueiro, Porto Grande, Taim, camboa dos Frandes enfrentam diversos impactos ocasionados pelos portos do Itaqui e da Madeira, construídos, e pelo porto do Cajueiro em planejamento. Caso os oito portos sejam construídos ou ampliados como ficarão a pesca de água doce e a pesca em alto mar? Provavelmente, os estoques pesqueiros se reduzirão a níveis mínimos significando a extinção dos pescadores e o desabastecimento de peixe nos mercados e feiras de vários municípios maranhenses.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Menos que um: o ensaio e a velhice

A verdade trágica de qualquer sociedade. Abandona-se os velhos. Os livros, os discos, as roupas, os amores, as amizades e etc. A sorte foi lançada e o jogo jogado. Quem ganha e quem perde? Rememorar não é um lance de sorte e nem de azar. Acredite em coincidências, mas que elas não existem, não existem. Sempre duvidou do que viria pela frente. Vivia agarrado. Nada de excepcional. Uma amizade, umas musicas, uns filmes, o que mais? Sentia-se envelhecido com pouca idade. E não sabia o que fazer para sair dessa enrascada. Sonhava filmar um filme pornô, gravar uma musica, escrever um livro de muita responsabilidade, o que mais? Contentar-se-ia em ler muito. Quando desse, escreveria o que lhe aprouvesse. Um dos primeiros livros que abriu foi “Menos que um”, escrito por Joseph Brodsky, escritor russo. Os russos enfatizam muito a sua relação com a mãe Russia e com a cidade de São Petersburgo e Joseph Brodsky, por mais critico que fosse ao regime comunista, morria de amores pelas duas. Claro, a mãe Russia e a cidade de São Petersburgo vieram antes do Comunismo e por elas vale a pena escrever e embelezar a realidade. Por elas e pelo povo, muitos escritores morreram ou foram exilados sem nunca deixarem de externar o amor que sentiam. Os russos, tudo bem. E os outros? Os americanos, os europeus e os brasileiros não economizaram elogios a literatura e a cultura russas. A leitura de “Menos que um”, livro de ensaios de Joseph Brodsky, em 1993, com o tempo, de maneira inconsciente, fez com que ele lesse Anna Akhmatova, poetisa russa, e com mais tempo ainda fez com que lesse Ossip Mandelstam, poeta judeu russo. Fez algo maior: desenvolveu nele o gosto pelo ensaio, não do jeito que o brasileiro escreve que respeita sociologia por demais da conta e engessa o texto. O ensaio em Brodsky e em outros autores que leria mais tarde aguenta o abandono da velhice que tantos temem experimentar.

A biblia ou as biblias de cada um

Explique, por favor, se for possível, o porquê de um livro como a bíblia se tornar uma obra de referência para boa parte da população mundial. Tem que se ter em mente que a sequencia de livros presentes em seu interior não corresponde a uma unidade. O Deus do antigo testamento difere do Deus do novo testamento. O antigo testamento narra, em parte, a historia do povo judeu enquanto que o novo testamento narra a vinda do messias, não aceito pelos judeus, na forma de um homem e o nascimento do cristianismo logo após a crucificação de Jesus Cristo. A grande diferença do antigo para o novo testamento é verificada no que tange a porque Deus decidiu que os judeus eram o povo escolhido. O que se lê pelo antigo testamento se refere a um Deus que exige lealdade a todo instante. Os judeus reclamavam de Deus por permitir que fossem escravizados, por passarem fome e etc. Eles queriam a prova da existencia de Deus e do compromisso dele. Deus se contrariava, mas tudo bem. Deu um jeito para que os judeus fugissem do Egito, para que caísse o maná dos céus no deserto e para que Moises compreendesse a linguagem divina e assim escrevesse os dez mandamentos. Compreender a linguagem divina não deve ter sido fácil para Moises. O que realmente Deus queria de seu “povo escolhido”? Como escrito anteriormente, não era simples a conversa que partia de Deus. A bíblia e seus livros, enfim, foram as tentativas de decodificar os sinais emitidos por Deus e narra-los de uma forma que o leitor pudesse compreender sem perder o extase presente na sua palavra. No judaísmo e no cristianismo, dá-se uma importância desmedida ao poder da palavra escrita e ao poder da palavra falada. Nenhuma outra religião exerce essa capacidade de conjugar escrita e fala. Essa hipótese explica em parte a bíblia ter se firmado como obra de referência. Não é uma hipótese que responda por tudo. O fervor contamina, não constrói. Uma outra hipotese possível demonstraria que a bíblia foi o único livro a ser aceito dentro da casa da maioria das pessoas na passagem da idade média para a idade moderna. Essa aceitação devia muito a crença de que a palavra de Deus se fazia presente naquele livro. A bíblia ter se tornado o principal livro impresso e lido na idade moderna redundou em que para a sociedade como um todo? A compreensão de um Deus único e raivoso que cobra lealdade o tempo todo e na construção de um discurso e na construção de representações baseados em algo que se prova apenas com a leitura de um livro, a bíblia.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Nomes aos bois

Fazendas de gado, pouca vegetação, capim adoidado, igarapés aterrados por ordem de proprietários e proibição de pesca aos moradores das vizinhanças. Primeiras impressões no caminho para Cuba, comunidade quilombola do município de Santa Inês. Sim, pensou muito que poderia ser uma viagem a Havana, capital de Cuba, sobrevoando o oceano. Essa viagem ficaria para sabe Deus quando. Naquele dia, pensava em Cuba e o que ficaria sabendo dela e das outras comunidades (Marfim e Onça) que formam o único território quilombola de Santa Inês. O que resta de floresta amazônica se encontra na comunidade Cuba com o sugestivo nome de Cedro. Os testemunhos dos moradores indicam que os quilombolas chegaram aquela parte do Maranhão no começo do século XX. Eles abriram caminho pela mata. Nesse local, distante de tudo e de todos, fincaram moradia por existir muita água, muita terra, muita caça e muita madeira. Eram só eles nesse recanto. Um dos moradores mais velhos relembrou a sua infância e adolescência “Minha mãe morreu cedo e nosso pai nos criou sozinho. Com o tempo, ele ia para roça na nossa companhia”. De vez em quando, aparecia um novato que pedia a um dos fundadores da comunidade licença para roçar em um determinado ponto da terra. O novato roçava e cansado da lida diária vendia aquele pedaço para os fazendeiros da região que aos poucos abocanhavam mais e mais pedaços aumentando suas fazendas. Atualmente, sobrou para a comunidade de Cuba 200 hectares e nesse tanto de hectares se visualiza a reserva do Cedro que pelo nome sugere a presença da madeira Cedro, madeira de lei cara. Uma rede de grilagem de terras formada por corretores de imóveis e fazendeiros vem se esforçando para capturar e desmatar essa reserva. Os nomes que se destacam nessa rede: Egberto, o grileiro, Henrique Salgado, ex-prefeito de Pindaré, e Felipe Bringel, empresário de Santa Inês. O nome Egberto aparece em primeiro porque ele é o que chega de mansinho, tratando o quilombolas como amigos e irmãos. Quem não quer se agradado? Os quilombolas passaram décadas apartados da vida social e econômica de Santa Inês e esse apartheid social gerou necessidades de contatos fora da comunidade. O Egberto viu nisso oportunidades de negócio, ou seja, venda de terras dos quilombolas de Cuba para empresários. Um desses empresários foi o senhor Henrique Salgado, ex prefeito de Pindaré, que ao descobrir de que área se tratava repassou para o senhor Felipe Bringel, empresário do ramo médico e pecuarista. Funcionários do senhor Bringel se dirigiram a comunidade com motosserras com a intenção de cortar madeira da reserva do Cedro. Cortou-se algumas árvores. O senhor João, morador antigo, impediu que os cortes continuassem. No dia seguinte, um trator se deslocou a mando do senhor Bringel para o desmate que náo ocorreu porque o senhor João botou um cadeado na cancela que fecha e abre a entrada da reserva. O tratorista perguntou quem fechara a cancela o que seu João respondeu “fora ele” e ao ouvir isso o tratorista avisou que retornaria no dia seguinte e passaria por cima de quem quer que fosse. “Pois venha”, disse seu João. A comunidade e organizações da sociedade civil expuseram as ameaças a nível nacional. O senhor Bringel, por conta da repercussão, pediu desculpas aos quilombolas e afirmou que devolveria o terreno ao Egberto. A câmara de vereadores de Santa Inês, nesse caso, tomou partido do Egberto. O Adaozinho, vereador e corretor de imóveis, fez um pronunciamento em favor de Egberto “de que tudo é legal” e uma comissão de vereadores numa visita a comunidade defendeu os interesses do grileiro e do fazendeiro. Entre os vereadores, estava o presidente da câmara que falou para “os quilombolas deixarem pra lá aquela reserva”. Os quilombolas abriram mão do seu território várias vezes e não desejam faze-lo mais.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

cine monte castelo

Assiste-se tranquilamente a degradação do espaço publico. Assistira “Os Saltimbancos Trapalhões” com o irmão mais velho no cine Monte Castelo em 1983. Lembrava dos Trapalhões, de Lucinha Lins e da trilha sonora de Chico Buarque, mas passados quase quarenta anos ele não esquecia do cinema, o único cinema de bairro da cidade de São Luis. Para ele, a cidade de São Luis se resumia ao seu bairro, a Liberdade, o bairro de sua avó, a Cohab, e o centro, onde estudava. Tinha conhecimento de outro cinema no centro sem que pusesse os pés nele. Portanto, o cine Monte Castelo terminava sendo a derradeira opção de lazer chique para os suburbanos de São Luis. Ele não sabia que residia nos subúrbios e nem sabia o que era isso. O que sabia do seu bairro eram as ruas por onde transitava. E o que sabia do bairro Monte Castelo era o cinema. A sessão em que assistiu “Os Saltimbancos Trapalhoes” rendeu uma dose de magia por algum tempo. Anos depois, ele se mudou com a família para o bairro do Monte Castelo. Bem ou mal analisando, mudar-se para um bairro como esse significava ascender socialmente e ascensão social é um dos pilares da sociedade capitalista. Com o tempo, o cinema perdeu prestigio em comparação com outros cinemas da capital maranhense, que via as coisas envelhecerem de tal forma e tão rápido que nem se dava conta quando o estabelecimento fechava. Ele também não se deu conta do fechamento do cinema, por mais que pegasse ônibus todos os dias na parada em frente. A sua atenção se voltava para os outros cinemas mais modernos que eram construídos pela cidade afora. A cidade crescia e nesse crescimento levava junto as opções de lazer. Quem não quisesse ficar de fora da diversão, seguia a correnteza. Os cinemas modernos também envelheceram e fecharam suas portas. Deixaram saudades? É possível. A saudade nem sempre se expressa dentro do desejável. Ele fez amizade com um senhor ligado a família proprietária do cine Monte Castelo. Conversa vai e conversa vem, o senhor jogou uma ideia de gravarem um documentário que contasse a historia do cinema. O Cine Monte Castelo, enquanto funcionou, chegou a representar algo de importante para São Luis? As vezes, a pessoa precisa ver a historia por outro ângulo para compreende-la melhor. O cine continuou abandonado. Uma rara exceção em que o abriram foi para celebrações evangélicas. Ainda bem que demorou pouco tempo. Dentro do cinema não se assiste mais filmes, mas se a pessoa exigir pouco no muro que cerca o terreno atrás pode-se ler “Jesus te ama/eu também” e “Se existe algo melhor que a felicidade/ desejo a você”. É rápida e esquecível a leitura, tanto quanto a cerveja servida no barzinho perto.

sábado, 19 de junho de 2021

aperto no coração

Trocar o nome de uma rua todas as vezes em que um transeunte se sentir insatisfeito não é possível e nem se cogita tal insensatez, mas os transeuntes que passam habitualmente pela mesma rua ou pelas ruas deveriam ser obrigados a se informar o porquê ou os porquês das denominações que o prefeito, a câmara de vereadores e a cidade de maneira geral dá. Descobrir o porquê do nome rua Grande ou o porquê de rua Oswaldo Cruz, nomes pelos quais se conhece a principal artéria viária do centro de São luis, é moleza. Essa rua recebeu o nome rua Grande devido a que nos primeiros séculos da ocupação portuguesa ela era o caminho Grande que ligava o centro da cidade a zona rural. O nome Oswaldo Cruz homenageia o sanitarista que implantou politicas sanitárias de combate ao mosquito transmissor da febre amarela no Rio de Janeiro no começo do século XX. Feliz de Oswaldo Cruz que encontrou em São Luis uma fonte de homenagem, pois á rua Afonso Pena funciona o Instituto Oswaldo Cruz que realizava exames de sangue e etc para a população maranhense. Nesse caso, ta bem explicado os porquês da rua receber duas denominações, mas e quanto a outras ruas como é o caso da rua do Sol cuja denominação quem se atreveria a explicar? À primeira olhada, simpatiza-se com a rua do Sol pelo seu casario e por apertar os pedestres nas calçadas e os motoristas na rua asfaltada. Deveria passar a se nomeada por rua do Aperto. O problema desse nome é o tom jocoso e as ruas em São Luis tendem a homenagear pessoas, datas e santos. Por essa explicação, pode se entender rua da Paz, mas a rua do Sol fica devendo. Em contraposição a rua do Sol, afirmar-se-ia rua do Aperto onde as pessoas se apertam nas calçadas e os carros se apertam nas ruas (com muito aperto no coração). Não só nas calçadas e nas ruas. Com muito gosto, as pessoas também se apertam no sebo do Arteiro e cavoucam nas prateleiras livros e revistas. Nos últimos anos, as coisas ficaram apertadas para ele do ponto de vista financeiro e mesmo assim ele resiste e desaperta daqui e dacolá. Caminhar pela rua do Sol ou do Aperto e não encostar no Arteiro se constitui num crime contra alguma ordem social.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Transição do Imperio para Republica em “Batuque na Cozinha”, musica de João da Baiana

João da Baiana compôs “Batuque na Cozinha” em 1917. Sem mais delongas, é uma composição em que o sambista narra o dia em que parou na cadeia devido a uma altercação envolvendo ele e um senhor branco que flertava com sua mulher. Simples assim, só que uma construção artística, qualquer que seja, não se limita ao que está expresso explicitamente. Por quase todo o tempo da musica, a letra de João da Baiana, como o titulo indica, zanza pela cozinha. A cozinha se consagrou como um espaço feminino e dos afazeres domésticos e culinários. O homem, ao entra na cozinha, busca comer e beber. Caso aconteça de um homem ir além disso, as mulheres perguntarão “não tem o que fazer? ” ou ordenarão “Vai procurar o que fazer”. As mulheres são experts nesse tipo de frase. Uma outra frase típica: “ Aqui não é lugar disso, vão fazer isso em outo lugar”. Criança que se preze brinca em qualquer lugar e as mulheres lutam para manter a ordem. O que escreveu e cantou João da Baiana? “Batuque na cozinha sinhá não quer por causa do batuque queimei meu pé”. Quando João da Baiana compôs a musica havia alcançado a idade de 30 anos. Então, o sambista através de um fato do cotidiano relê a historia dos negros, da escravidão, do samba e da cidade do Rio de Janeiro. Pelo que cantava João, a cozinha além de ser um espaço em que se preparava comida também era um espaço de batuque por mais perturbador que fosse afinal “por causa do batuque queimei meu pé”. Ora, batucava-se na cozinha porque nesse espaço havia comida e havia as mulheres que os homens flertavam. É claro que a cozinha da casa grande cabia um bom numero de pessoas. Só que João da Baiana não vivenciou a escravidão como seus parentes vivenciaram. Ele nasceu livre no Rio de Janeiro um ano antes da abolição da escravatura pela princesa Isabel. Associações que poderia fazer da sua realidade com o tempo da escravidão decorriam das historias que escutava da boca dos seus parentes quando frequentava suas casas e os terreiros de religião afro no final do século XIX e começo do século XX, começo da republica. Um dos principais problemas que o governo republicano enfrentará nos seus primeiros anos será o problema da habitação. “Não moro em casa de comodo, não é por ter medo não, na cozinha muita gente, sempre tem alteração”. Quanta diferença a casa de comodo no Rio de Janeiro para a casa grande na Bahia. Nesta, por mais que não fossem donos da casa, os negros admiravam a casa espaçosa enquanto que naquela a casa mal dava para morar uma família. E no decorrer da canção, João da Baiana brincará com as mudanças sociais e econômicas provocadas pela abolição da escravatura e pela proclamação da republica. Na casa grande, quem mandava era a Sinhá que não aceitava o batuque na cozinha. Na sua frente, pois bastava ela sair para rolar o batuque. A casa de comodo onde os negros se acomodavam no Rio de Janeiro era um tanto diferente. Nessa casa por pouco menos espaço para tudo e para todos que tivesse, os moradores não abdicavam do direito de batucarem e esse batuque atraia pessoas de todo o tipo e de todos os lugares. Essa variedade de pessoas num mesmo espaço era incomum para uma sociedade excludente e hierárquica como a brasileira, onde branco não se misturava com negro e vice-versa “seu comissário foi dizendo com altivez/ é da casa de comodo da tal Inez/revista os dois bota no xadrez/Malandro comigo não tem vez”. A musica “Batuque na Cozinha” é um espelho da transição do império para a republica e do regime escravocrata para o trabalho livre. Se no império quem defendia a ordem hierárquica da casa grande era a Sinhá, na Republica que defenderá a ordem hierárquica da casa de comodo será o comissário de policia.

sábado, 12 de junho de 2021

Uma crônica sobre futebol e meio ambiente

Ãs Rodas de conversa quase sempre desembocam no assunto futebol. Fala-se muito de futebol no Brasil. Fala-se pelos cotovelos sobre futebol e fala-se por todos os viés possíveis. Futebol e politica e etc. Não se viu ainda relacionar futebol e meio ambiente nas rodas de conversa e muito menos em textos. Quem debateu ou escreveu futebol e meio ambiente no mesmo espaço físico favor comprovar com um áudio ou um texto. Na verdade, meio ambiente pouco comparece nas crônicas do dia-a-dia da cidade. E não precisa que seja uma crônica diretamente ligada ao tema. Que tal, uma crônica que reativasse a memória urbana sobre os espaços rurais onde crianças brincavam antes desses espaços virarem conjuntos habitacionais ou ocupações irregulares? Assuntos como meio ambiente se grudam na memória menos por construções físicas e mais por experiências individuais que se entrelaçam. Um grupo de adolescentes joga futebol num terreno baldio e anos mais tarde só um deles se prenderá a esse jogo lembrando os mínimos detalhes tanto do ambiente como dos outros jogadores. Engraçado, esse texto pode virar uma crônica que aborde indiretamente os temas futebol e meio ambiente. Em qualquer espaço social (rural ou urbano) do Maranhão pode se encontrar um campo de futebol bem ou mal cuidado. Não é só um espaço que inspire pratica desportiva como também é um espaço que inspira a convivência social. Os proprietários zelam esses espaços com o firme propósito de que as pessoas se agradem deles e retornem mais vezes. O que está em jogo para os proprietários e para seus clientes transcende o mero jogo de futebol e quem perde e quem ganha. Aliado ao jogo de futebol vem outros jogos. Entreter o publico no espaço físico requer mais do que futebol. Requer que se disponibilize diversão consumo e musica o tempo em que o publico se fizer presente naquele espaço. Iniciou-se esse texto com a ideia de juntar futebol e meio ambiente. O futebol veio e o meio ambiente ficou de fora por enquanto. Quando o assunto é desmatamento, uma das comparações que a imprensa se utiliza é foram desmatados não sei quantos campos de futebol. A família Introvini se engrandece como uma das maiores plantadoras de soja da região conhecida como Baixo Parnaiba maranhense. Esse engrandecimento, eles obtiveram graças aos inúmeros desmatamentos do Cerrado maranhense, principalmente, no município de Buriti. Pode se ver um desses últimos desmatamentos realizados pelos Introvini na Chapada do povoado Carrancas. Mais de cem hectares de Chapada que os moradores do povoado se valiam para coletar bacuri, pegar madeira e soltar seus animais foram desmatados para em pouco tempo virarem plantios de soja e os bacurizeiros virarem pranchas de madeira para os interessados. Destino miserável e trágico para tantos bacurizeiros que por muito tempo cresceram sobre aquele solo e que por muito tempo viram homens se alimentarem dos bacuris caídos ao chão. O futuro para a população de Buriti se encaminha para um grande plantio de soja e para pequenos campos de futebol nos povoados. Futebol e meio ambiente chegaram ao fim juntos nessa crônica desportiva.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

A ocupação

A influencia da maré é uma expressão que se refere a lugares sujeitos aos movimentos da maré. Não saberia precisar quantas famílias vivem em lugares influenciados pelo sobe e desce da maré na ilha de São Luis. Essa falta de informação não é obra do mero acaso assim como as pessoas erguerem suas moradias nesses lugares não decorre de uma simples decisão pessoal. A bacia do rio Anil congrega boa parte da população de São Luis e em parte isso se deve a sua localização e como essa localização influenciou a ocupação histórica por parte dos indígenas, em primeiro lugar, os portugueses, em seguida, e os negros escravizados, por ultimo. Na visão de muitos, o Caminho Grande, da segunda metade do século XVII em diante, consolidou-se como principal via de acesso de São Luis para a zona rural, por onde trafegavam carros de boi que transportavam mercadorias vindas da europa e vice versa. O Caminho Grande comportava o trafego pesado e lento e até chegar ao seu destino final esse trafego parava em entrepostos comerciais para onde se destinavam parte da mercadoria. O rio anil, pouco comentado, comportava o trafego mais rápido de pessoas que não tinham como morar próximos a cidade e preferiam morar em sítios próximos ao leito do rio. Esses sítios com o tempo deram origem a bairros pobres e proletários. Por mais que o Caminho Grande ocupe um local de destaque na historia da ilha de São Luis, sem o rio Anil, seus afluentes e outros rios pouco se saberia dos alagados onde a agua doce interage com a agua salgada, lugar de berçário de várias espécies de peixes e de crustáceos e lugar de várias nascentes de água doce, portanto se não houvesse presença de indígenas, brancos e negros para construírem ou reconstruírem suas vidas nesses lugares não haveria pescado e nem haveria água doce para os moradores das partes altas da cidade. Sem as quintas, próximas a região de alagados, onde negros escravizados buscavam agua e frutas, e das quais cuidavam, o modo de vida das famílias abastadas se dificultaria, pois teriam que procurar água em lugares imprevisíveis. Se em partes do Centro, o abastecimento de água se configura em verdadeira provação em plena atualidade, imagine como devia ser a luta diária pela água nos primeiros séculos de ocupação da ilha de São Luis. O problema de abastecimento de agua que já era grave foi acompanhando o processo de ocupação da cidade a medida que ele se adensava pelo restante da ilha e a medida que ele urbanizava os mananciais. Qual o custo socioambiental, para a cidade de São Luis, da ocupação recente da faixa litorânea por condomínios? Segmentos da classe media que migram para esses condomínios em outros tempos morariam próximo aos córregos. A migração desses segmentos da classe media para áreas litorâneas consideradas chiques significou o total esquecimento do Estado da sua responsabilidade referente a implementação de politicas de saneamento básico e de moradia nas bacias do rio Anil, rio Bacanga e etc.

sábado, 5 de junho de 2021

Os campos inundáveis e as comunidades quilombolas

Eles foram convidados a jantar na casa de uma amiga. Um deles brincou que em Viana, inevitavelmente, você come peixe em qualquer ocasião. E ele acertou. A amiga cozinhou um bagre no leite de coco babaçu. Ela serviu o jantar depois das oito horas porque os rapazes foram antes a beira do lago admirar aquelas águas que balançavam em suas mentes. A amiga assessorava um grupo de organizações da sociedade civil no Maranhão. O jantar transcorreu sereno por mais de uma hora e nesse transcurso ela os informou da existencia de pistolagem e de milícias a serviço de proprietários de terras naquela região. A informação não os surpreendeu afinal a dona Rosário, quilombola e quebradeira de coco do povoado Bom jesus, município de Matinha, revelou a eles um sem numero de ameaças de morte que sofreu assim como sofreram também seus companheiros da comunidade de Bom Jesus e da comunidade de São Caetano. Saber de pistolagem e milícias a beira da mesa não causou mal estar e nem indigestão porque, no fundo no fundo, compreendia-se o que estava em jogo. O jogo da sobrevivência alimentar versus o enriquecimento das elites. As comunidades quilombolas exigem que o acesso aos campos inundáveis seja liberado a fim de que elas possam pescar. A pesca é um aspecto indissociável da historia das comunidades quilombolas. As comunidades quilombolas, em momentos de dificuldades financeiras e ambientais, veem na pesca uma saída para a fome e para a geração de renda. Os fazendeiros, por seu lado, veem nos campos inundáveis apenas um espaço onde podem soltar seus búfalos e suas cabeças de gado. Peixe só rende algum trocado nas feiras como se viu no dia seguinte ao jantar na feira de Viana. Criar gado rende bastante dinheiro para fazendeiros e empresas do agronegócio. Viana é uma cidade onde os moradores comem muito peixe de agua doce nativo em comparação com outras cidades do Maranhão onde se come ou peixe de criatório ou carne.