segunda-feira, 4 de junho de 2012
Trabalhadores Rurais de Açailândia celebram Festa da Colheita, protestam contra a Vale e cobram políticas públicas para o campo
A 5ª edição da Festa da Colheita aconteceu no último domingo (3), no Assentamento Francisco Romão.
No último domingo, mais de 700 pessoas tiveram um dia diferente. Café da manhã com alimentos retirados da terra, música, dança, almoço comunitário e apresentações culturais fizeram parte da programação da Festa da Colheita. Esse ano foi a 5ª edição da festividade, que acontece nos interiores do município de Açailândia. O evento aconteceu no Assentamento Francisco Romão, a 70 km de Açailândia e contou com a presença do Bispo Dom Gilberto Pastana, do Padre Claudio Bombieri (Missionário Comboniano), do vice-prefeito do município, Antônio Erismar de Castro (PT), de líderes sociais e sindicais e de trabalhadores rurais de diversos assentamentos.
A festa foi organizada pelos moradores em parceria com os membros da Paróquia São João Batista, de Açailândia, da qual essas comunidades rurais fazem parte. O objetivo foi celebrar o dom da colheita e refletir sobre a terra como local de trabalho. De acordo com o Bispo Dom Gilberto Pastana, da Diocese de Imperatriz, esse evento representa a importância de um chão para que todos os agricultores possam morar e trabalhar. “Vivemos em mundo onde os agricultores estão sendo cada vez mais expulsos de suas terras dominadas pelo agronegócio. Eu penso que essa festa da colheita reflete essa realidade e ao mesmo tempo organiza esse povo para que permaneçam em suas terras e exijam políticas públicas a fim de que haja cada vez mais população no campo e no campo a gente possa ter condições de viver como o Senhor quer que a gente viva”, afirma.
As atividades da 5ª Festa da Colheita ocorreram durante todo o dia. A programação contemplou uma missa, apresentações culturais, a partilha de alimentos e manifestações de denúncia e de reivindicação de direitos. “Achamos que essa festa tem uma importância política por conta da problemática que a gente enfrenta com a Vale para fazer com que ela cumpra o seu papel social e respeite o meio ambiente e os direitos das pessoas na região de Açailândia”, conta Francisco Martins, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Açailândia.
Ao mesmo tempo em que a festa objetiva o agradecimento a Deus pelo fruto da colheita também promove a reflexão sobre as dificuldades presentes no cotidiano dos trabalhadores do campo. As comunidades rurais de Açailândia são impactadas por inúmeros problemas socioambientais decorrentes da implantação e expansão do Programa Grande Carajás, conduzido pela mineradora Vale.
Reivindicações
O Assentamento Francisco Romão é uma comunidade de 102 famílias que moram as margens da linha ferroviária. “Hoje o nosso maior problema é a relação Vale e comunidade. A gente mora bem próximo à área de duplicação dos trilhos, nós perdemos estruturas de casas em virtude de uma linha de ferro que passa dentro do assentamento”, afirma Luziane Silva, presidente da associação dos moradores do Assentamento Francisco Romão. Segundo ela, essa realidade é comum para todos os assentamentos que se localizam no Corredor de Carajás, são comunidades afetadas pelo desmatamento, pelas extensas áreas de eucaliptos geneticamente modificados, pelas obras de duplicação dos trilhos da Vale, e pelas guseiras e carvoarias.
“Durante toda a festa, o trem passava a cada 50 minutos e ficou claro para todos o quanto ele inferniza a vida das pessoas. Como a Vale vem descumprindo sua obrigação legal de propiciar segurança e vigilância, precisávamos nós mesmos fiscalizar e orientar as crianças e adultos sobre o perigo de permanecer perto da linha. Com a duplicação que está por vir, os riscos e os danos infelizmente tendem a aumentar muito, mas Vale, IBAMA e Prefeitura parecem não estar preocupados. É um descalabro”, afirma Danilo Chammas, advogado e membro da Rede Justiça nos Trilhos, também presente à festa.
Marcha em Imperatriz
A festa da colheita serviu para motivar as pessoas que vivem diariamente os impactos dos grandes empreendimentos a buscarem políticas públicas que valorizem o trabalhador do campo e promovam a defesa da vida e do meio ambiente. Pensando nisso é que os sindicatos, movimentos e ONGs da região vão realizar uma marcha em defesa da vida e contra a destruição e mercantilização do meio ambiente na região tocantina. A manifestação vai acontecer no próximo dia 14 em Imperatriz a partir das 9:30h com concentração no pátio da Universidade Estadual do Maranhão.
Essa iniciativa busca ainda relembrar o Dia Internacional do Meio Ambiente, dia 05 de junho, e a realização da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que ocorrerá de 13 a 22 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro.
Rede Justiça nos Trilhos
Larissa Santos
Conflitos criam tensão no interior
POR JULLY CAMILO
O advogado Diogo Cabral, da Comissão Pastoral da Terra no Maranhão (CPT-MA), denunciou hoje (4) ao Jornal Pequeno
que comunidades quilombolas de Pirapemas e famílias acampadas em Bom
Jesus das Selvas estão vivendo sob constante ameaça de grileiros de
terras e ações de despejo.
De acordo
com Cabral, o clima de tensão em Pirapemas começou na última
sexta-feira (1º), quando plantações do quilombo Aldeia Velha foram
destruídas e homens armados passaram a rondar o local.
Segundo Cabral, os fazendeiros, identificados como Ivanilson e Zé
Araújo, teriam soltado vários animais bovinos durante o fim de semana,
na área onde existe o plantio de arroz e mandioca das comunidades
quilombolas.
O advogado relatou que
um dos líderes do quilombo Aldeia Velha, José Patrício, tem sido vítima
de coação e ameaça de morte. “O Zé Patrício, como é conhecido, integra a
lista dos 116 ameaçados de morte no Maranhão e faz parte do Programa de
Proteção do governo federal. Porém, nunca viu sequer um policial nas
proximidades de sua casa, que pudesse garantir sua segurança”, disse
Cabral.
De acordo com o advogado, Zé
Patrício contou que no domingo (3), por volta de 19h, um carro de cor
escura passou 10 minutos parado na porta de sua residência e vários
homens desconhecidos e armados teriam passado a madrugada rondando o
local onde as plantações foram destruídas pelos animais bovinos.
O quilombola disse ainda que nenhuma viatura policial teria aparecido
na área até o momento. “O clima é de muita tensão na comunidade, onde
vivem 35 famílias”, declarou Cabral.
Bom Jesus das Selvas
– De acordo com Diogo Cabral, a Justiça de Bom Jesus das Selvas,
determinou por meio de liminar de despejo, que 900 famílias deixem um
acampamento existente na área, ocupado há mais de um ano.
“A Justiça deu um prazo de 24 horas para que os moradores desocupassem o
local. Porém, as terras que estão sendo reclamadas pelo grileiro
identificado como José Osvaldo, que está envolvido em um homicídio de
trabalhadores rurais cometido em 1994, são pertencentes à União”,
afirmou Diogo Cabral.
Na última
quinta-feira (31), a Comissão Pastoral da Terra divulgou a 27° edição do
relatório anual “Conflitos no Campo Brasil 2011”, onde registrou o
Maranhão como líder do ranking de conflitos por terra no país, com 224
registros. O estado também é “campeão nacional” de ameaçados de morte no
campo. Segundo o relatório da CPT, 116 pessoas estavam ameaçadas em
2011 no Maranhão. Sete assassinatos no campo foram registrados no estado
em 2011.
www.jornalpequeno.org.br
Um dia de sorte no Baixo Parnaiba maranhense
Desaprendera com o tempo. Reaprender como se não há indicações de que caminho tomar? Aprender é uma questão de sorte ou, quem sabe, de má sorte. O carro pregou entre Anapurus, Santa Quitéria e Mata Roma. Só o Cerrado testemunharia algo a favor dos desvalidos numa região daquela incruenta. Assim que a moça subiu na garupa de uma moto com objetivo de conseguir um mecânico os moços se viram a mercê da sorte ou da má sorte. Qual das duas chegaria mais cedo?
Quando ainda não haviam se dado conta de como chegar ao povoado Coceira, município de Santa Quitéria, sem ser pela Barra da Onça, eles se arriscaram a perguntar para um segurança da fazenda Bandeira, de propriedade da Suzano Papel e Celulose, qual ramal os socorreria de forma a chegarem aonde queriam ir.
A resposta do segurança os levou para tudo que é lugar, menos, é claro, para Coceira. Em determinado momento temeram por suas vidas visto que bateram de frente com uma barreira. A mente de um deles, de repente, aclarou-se que aquele local fora palco de verdadeiras patifarias entre a Suzano e o plantador de soja Gilmar que disputavam e ainda disputam quem pode mais em Santa Quiteria, Anapurus, Brejo e Milagres. O motorista não teve dúvidas, acelerou o carro e este respondeu a contento para que logo saíssem no povoado Coceira.
Por que modos alguém sonharia em topar com gente armada naquele Cerrado? Os povoados do Baixo Parnaiba maranhense, em outros tempos, celebrizaram-se pela sua candidez, mas a pressão para que os pequenos proprietários e os posseiros vendessem suas áreas para empresas de reflorestamento ou para plantadores de soja atiçou não só o mercado imobiliário como também o mercado da insegurança. O carro pregara em meio ao Cerrado em um trecho que aconteceria de tudo um pouco ou até não aconteceria nada. Esperar-se-ia o pior, roubarem o carro e o equipamento de trabalho da equipe, mas, felizmente, o mecânico atendeu o chamado, viu o problema e consertou o motor.
A sorte os auxiliou, em parte, pelo sentido com que imprimem as suas buscas em lugares desprovidos de qualquer interesse para a maior parte da sociedade. O que ocorre numa situação dessas, normalmente? O recuo. A pessoa ponderaria o que naquele lugar o atraia para que saisse de seu conforto e perdesse seu final de semana. De fato, o que se obteve em tantos meses de desprendimento? Para as comunidades agroextrativistas de Santa Quiteria não houve retorno por parte do Iterma das suas exigências relativas a regularização fundiária. Depende de vontade politica a regularização fundiária das comunidades de Santa Quitéria, São Bernardo e Santana, e como o governo se exime de qualquer ordenamento territorial no Cerrado maranhense as empresas esbanjam saúde a custa da grilagem de terras e do desmatamento inconsequente do Cerrado.
O Iterma se comprometeu diversas vezes com as comunidades e desses compromissos se agendavam datas em que as equipes do órgão viajariam para Santa Quitéria. Elas realmente acorreram às comunidades para cumprir o contratado, só que a governadora Roseana Sarney mudou a direção do órgão. As comunidades aguardaram o momento mais adequado para continuar as suas gestões pela regularização fundiária.
É certo que o governo do Maranhão não contemplou nenhuma comunidade de Santa Quitéria com o título da terra e isso se deve à influência da Suzano e dos plantadores de soja junto ao governo através da secretaria de indústria e comércio gerenciada pelo senhor Mauricio Macedo, ex-funcionário da Alumar, contudo nesses mais de seis anos de insistência e de não-arrependimento em uma luta extenuante as comunidades de Santa Quiteria contrariam as aves de rapina que torcem pela sua má sorte e nessa contrariedade alargam seus projetos de obtenção de terra para outros como a construção de galpões de galinha caipira e o manejo de brotações de bacurizeiros. Que o digam Coceira, Baixão da Coceira, Lagoa das Caraíbas, São José, Tabatinga, Pau Serrado, Cana Brava e Vertentes.
Mayron Régis
Agrotóxicos: A silenciosa praga das lavouras
Regiões agrícolas com forte uso de agrotóxicos têm mais suicídios e mortes por câncer. A reportagem é de Carla Rocha, Fábio Vasconcellos e Natanael Damasceno e publicado pelo jornal O Globo, 03-06-2012.
José Andrade teve câncer de pele no
nariz e num braço, amputou um dedo e sofre de depressão. Com problemas
de surdez, vive com a irmã Maria Geralda. Eles já perderam dois irmãos,
vítimas de câncer.
Veneno em doses diárias
As lesões vermelhas no rosto, que vez ou
outra se espalhavam para braços e pernas, não o fizeram parar de roçar a
lavoura. Era seu ofício desde os 15 anos, de sol a sol. Por anos,
conviveu com crises, mais ou menos intensas. Teve que amputar o dedo
indicador direito, que encaroçou como uma espiga de milho. Para as
lesões num braço, quase no osso, precisou fazer enxertos de pele. A
audição, frágil, evoluiu para uma quase surdez. Vinte e cinco anos
depois de os sintomas surgirem, mais de 40 dias de internação e
biópsias, José de Andrade, de 77 anos, descobriu que
podia ser mais uma vítima do uso indiscriminado de agrotóxicos. Era só
ele e a enxada, sem capa ou máscara. Às vezes, até sem galochas.
- A gente macerava o veneno, que era em
pó, com a mão, antes de misturar na água. Depois sentava para almoçar.
Durante 30 anos usei os produtos sem proteção. Pegava sol, chuva, tudo.
Aplicava contra o vento; saía todo molhado. Não sabia do risco – conta o
agricultor, que estudou muito pouco e não entendia as instruções do
rótulo dos produtos.
Um levantamento do Globo com base em dados do Datasus e do IBGE revela
que o Rio tem altas taxas de mortalidade por câncer e suicídio – que
pesquisas científicas sugerem ter associação com o uso de agrotóxicos –
em três regiões agrícolas. O mapa de ocorrências desses dois problemas
coincide com as manchas de produtividade de tomate, escolhido para a
pesquisa por ser uma das principais culturas do estado e ter apresentado
alto índice de resíduos tóxicos nas últimas análises.
O Centro-Sul aparece na frente em mortes
causadas por neoplasias, com 133 casos por cem mil habitantes (22%
acima da média, que é de 109); depois vem a Região Serrana, com 125
(14%); e o Noroeste Fluminense com 117 (7%). Um detalhe salta das
estatísticas: no Centro-Sul, onde estão grandes produtores de tomate,
como Paty do Alferes, os índices são acentuados entre adultos de 40 a 49 anos. Nessa região, os índices estão mais de 52% acima da média do estado.
O suicídio é mais frequente no campo.
Enquanto a taxa na Região Metropolitana é de 1,58 caso por cem mil
habitantes, no Noroeste Fluminense chega a 5,89 (51% acima da média, que
é de 3,9), a mais alta. Na Região Serrana, são 5,25 casos por cem mil
(34%); e no Centro-Sul, 5,50 (41%).
No Brasil, agrotóxico movimenta US$ 7 bi
Maior consumidor mundial de venenos
agrícolas, que, em 2010, movimentaram US$ 7,3 bilhões, o Brasil responde
hoje por 10% do mercado internacional (mais de 900 mil toneladas por
ano). As cifras são também de um mercado recheado de polêmicas, como a
dos possíveis efeitos desses produtos, o que divide fabricantes e
pesquisadores. Para entender a realidade que está por trás desses
números, repórteres do Globo foram buscar a história contada pelos próprios agricultores.
O que José de Andrade relata
é uma rotina marcada por uma mistura de necessidade extrema e
ignorância absoluta sobre os efeitos prejudiciais dos agrotóxicos. Aos
40 anos, sem qualquer explicação para uma série de distúrbios
psicológicos, ele saiu de seu pequeno sítio em Secretário, distrito de
Petrópolis, e foi caminhando até Santana do Deserto, em Minas Gerais.
- Deu problema na mente. Um dia, saí
andando sem querer voltar. Dormia no meio do mato. Depois de 40 dias, o
pensamento assentou. Voltei para casa – conta.
Ele passou a beber em excesso e só
aquietou das crises de depressão, durante as quais mal se levantava da
cama, recentemente, depois de ser tratado no Centro de Tratamento
Oncológico (CTO), hospital privado de Petrópolis, que atende pelo SUS. Ele teve alta depois de tratar um câncer num dedo, que perdeu após uma necrose, num braço e no nariz.
Dois irmãos de José morreram
de câncer. Um que o ajudava na lavoura teve um tipo semelhante ao dele,
amputou um braço e faleceu aos 50 anos. O outro, que não tinha contato
direto com agrotóxicos, morreu aos 70, vítima de um câncer na garganta.
Todos foram criados em áreas de plantações.
Estudioso do assunto – que já teve mais de 30 artigos científicos publicados -, Armando Meyer, professor adjunto e diretor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) da UFRJ,
fez parte de uma equipe que, em 2003, constatou um risco maior de morte
por câncer de esôfago e estômago entre agricultores da Região Serrana
em relação às populações do Rio e de Porto Alegre, que registram altas
taxas da doença. Dependendo da idade, o agricultor chegava a ter 300%
mais chance de morte.
- O poder econômico e político do
agronegócio no país é imenso. Os primeiros passos que tornaram o Brasil
um jogador pesado do agronegócio foram dados nos anos 70, quando um
decreto do governo determinou que uma parte do financiamento agrícola
deveria ir para compra deste tipo de insumo. E o segmento não para de
crescer em países como Brasil, China, Índia e Rússia. A situação de hoje
ainda é o legado do passado – observa Meyer. – O agricultor usa o produto de forma errada. A culpa não é dele, mas do governo.
Professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp e pesquisador dos efeitos do agrotóxico,Ângelo Trapé analisou os dados obtidos pelo Globo e não considerou as relações um indicativo importante:
- Estudos epidemiológicos que investigam
supostas relações entre câncer e agentes ambientais são longos, até de
décadas. Não é possível qualquer correlação com os dados apresentados.
Além disso, não há um estudo clínico epidemiológico que indique que são
cancerígenos os agrotóxicos registrados no país, aos quais aquelas
populações poderiam estar potencialmente expostas.
Desde 2000, a Anvisa já
retirou de circulação 11 ingredientes ativos de agrotóxicos
considerados nocivos à saúde. Dois são analisados com indicações de
banimento e 17 estão à venda com restrições. O gerente geral de
toxicologia do órgão, Luiz Cláudio Meirelles, explica
que o país lida com um passivo que exige uma série de estudos e
avaliações até a retirada de um produto do mercado. Para ele, os dados
obtidos pelo Globo merecem ser investigados:
- Há uma grande preocupação em torno dos
efeitos crônicos a longo prazo, no agricultor e no consumidor. Alguma
coisa acontece nessas áreas do interior para registrar taxas de câncer
acima da média. O levantamento aborda uma questão importante.
O lavrador Oséias de Oliveira Rodrigues morreu
devido a um câncer no cérebro em 2009, aos 37 anos. Ele estava na
lavoura desde os 8 anos e deixou dois filhos. Segundo sua irmã, Maria José Rodrigues, de 51 anos, nunca usou proteção durante a pulverização dos produtos na lavoura em Teresópolis:
- Ele sentia dores de cabeça e tontura
mas, nos postos de saúde, receitavam dipirona e remédios para enjoo.
Nunca associaram as dores ao veneno. Sequer perguntavam em que ele
trabalhava.
Responsável pelo departamento de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do Instituto Nacional do Câncer, Ubirani Otero afirma que o país precisa vencer o “silêncio epidemiológico”.
- O profissional de saúde atende um
paciente com câncer e não pergunta em que ele trabalha. Mais de 50% das
pessoas com câncer na Serra se tratam no Inca – afirma Otero, que costuma dizer que agricultores tomam “banho” de agrotóxico.
Breno Braga, médico do
Programa Saúde da Família que trabalha há oito anos na localidade de
Vargem Alta , no distrito de São Pedro da Serra, em Nova Friburgo,
diz que ligou casos de pacientes com depressão e suicídio a venenos
agrícolas. Maior produtora de flores do Rio, a cidade tem plantações com
uso intenso de agroquímicos.
- É muito difícil estabelecer uma
relação de causa e efeito, mas a localidade registra muitos casos de
depressão e suicídio, que impressionam porque atingem jovens entre 20 e
30 anos. É muito comum eles beberem o próprio agrotóxico – afirma Braga.
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/510134-a-silenciosa-praga-das-lavouras-
domingo, 3 de junho de 2012
Compensação social?
O deputado Antônio
Pereira anunciou na Assembleia um projeto de compensação social da Vale
em favor de cerca de 100 famílias de Vila Nova dos Martírios, expulsas
de terras onde praticavam agricultura de subsistência. O conflito
envolve a Suzano Papel e Celulose, um gigante do setor que se instalou
no Maranhão e volta e meia se vê envolvida em conflitos no campo. O
editorial abaixo registra relatório da Comissão Pastoral da Terra que
identifica a ocorrência de 224 conflitos no campo em 2011.
Não temos conhecimento do exato teor do projeto de compensação social, mas entendemos que ressurgimento dos conflitos, da pistolagem e a elevação do trabalho escravo, que colocam o Maranhão na liderança das tragédias no campo, estão solidamente ligados à presença de grandes empreendimentos no Maranhão. Por enquanto, estamos revisando as consequências, sem atacar as causas desses conflitos. E há gente morrendo por conta deles. Foram seis mortos no campo somente este ano.
A dívida social do Maranhão com o homem do campo é, provavelmente, imensurável e, embora se entenda que um projeto de compensação social é um paliativo aceitável, preferimos não retornar ao tempo em que quase todos os dias lavradores eram expulsos de suas terras, em que lideranças rurais habitavam mais a cadeia e o cemitério que suas residências. Residências que, diga-se de passagem, tombavam constantemente sob o peso de tratores, com anuência do poder público, ajuda da polícia e omissão da Justiça. Durante mais de meio século, os lavradores do Maranhão foram vítimas do terror de empresas agropecuárias e grileiros e muitas fortunas foram construídas a partir de falsificações cartoriais. “Terra para quem trabalha nela”. Não podemos continuar afiançando a violência e a especulação.
(JM Cunha Santos)
Não temos conhecimento do exato teor do projeto de compensação social, mas entendemos que ressurgimento dos conflitos, da pistolagem e a elevação do trabalho escravo, que colocam o Maranhão na liderança das tragédias no campo, estão solidamente ligados à presença de grandes empreendimentos no Maranhão. Por enquanto, estamos revisando as consequências, sem atacar as causas desses conflitos. E há gente morrendo por conta deles. Foram seis mortos no campo somente este ano.
A dívida social do Maranhão com o homem do campo é, provavelmente, imensurável e, embora se entenda que um projeto de compensação social é um paliativo aceitável, preferimos não retornar ao tempo em que quase todos os dias lavradores eram expulsos de suas terras, em que lideranças rurais habitavam mais a cadeia e o cemitério que suas residências. Residências que, diga-se de passagem, tombavam constantemente sob o peso de tratores, com anuência do poder público, ajuda da polícia e omissão da Justiça. Durante mais de meio século, os lavradores do Maranhão foram vítimas do terror de empresas agropecuárias e grileiros e muitas fortunas foram construídas a partir de falsificações cartoriais. “Terra para quem trabalha nela”. Não podemos continuar afiançando a violência e a especulação.
(JM Cunha Santos)
BAIXO PARNAIBA: UMA PERSPECTIVA EM COMUM
Qual é a expectativa de conclusão do galinheiro? Questões como essa que tratam do tempo ficam a espreita e surgem mesmo quando não se duvida que o outro cumpra o firmado. Quase um ano em que se riscou o mapa do Baixo Parnaiba maranhense com as marcações dos galpões de criação de galinha caipira e essa pergunta se reforma em outras tantas versões. Perguntar ao homem do tempo sobre a possibilidade de chover no dia seguinte, tudo bem, ele é pago para isso, mas perguntar ao agricultor familiar quanto tempo a comunidade levará para erguer o galpão é imperdoável. Cheira intromissão.
Com a construção do galpão, o agricultor familiar comprimirá mais o seu tempo já bastante encurtado pelos ofícios do roçar, do destocar as raízes e do queimar o mato que os esgotam. Quanto alguém pagaria por uma diária de serviço? O dia se vende assim como o esforço físico. Alguns veriam nisso justiça. O abastado contrata alguém para realizar um serviço, paga-o caso se sinta satisfeito e o dia se completa para ambos. Esse exemplo é uma exceção ou um caso excepcional dentro do cotidiano de uma propriedade rural no interior maranhense. Na maioria das vezes, os moradores pagavam renda para o proprietário, comportavam-se como seus súditos e a ele deviam tudo. O proprietário ungia um ou outro como seu escolhido em detrimento dos demais que pouco ou nada possuíam, nem as próprias vidas e nem as casas nas quais se encontravam.
No Maranhão, o grande latifúndio contribuiu para que a miséria e o analfabetismo, que predominavam em sua seara, não tomassem ares de tragédia nacional. Os proprietários mantinham seus bois com melhor alimentação do que fariam com os agricultores familiares, pois para estes não havia escolha. A escolha para os agricultores se revelava no endividar-se mais e mais quando se dirigiam à quitanda do proprietário da terra. Naqueles tempos, os agricultores se perguntavam do que adiantava plantar arroz, feijão, milho e mandioca e colher e quebrar o coco babaçu, do qual se tirava o azeite, se eles corriam na mesma hora para entregar parte da sua produção ao proprietário. Nesse corre-corre os agricultores se desvalorizavam como atores econômicos e como atores políticos. O proprietário se valorizava duas vezes: a primeira ao receber de graça a produção dos agricultores e depois ao vender na cidade.
As comunidades de agricultores familiares consentem com o envelhecimento da figura do proprietário rural que se vê incapaz de acompanhar a dinâmica socioeconômica e resolve vender a propriedade a um bom preço para uma empresa ou algum individuo com mais condições. A empresa ou o individuo raciocina em cima do custo tempo-espaço. Quanto tempo demora em desmatar uma área, queimar a lenha e cultivar toda ela com milhares de sementes de soja ou mudas de eucalipto? O tempo que se gastou em todo o processo nem leva em conta o tempo que chegou aos pés das árvores.
Os projetos de criação de galinha caipira no Baixo Parnaiba maranhense partem do principio da coletividade. Definitivamente, esse não é um principio que agrade muito ao proprietário ou a uma empresa como a Suzano Papel e Celulose. Um projeto de ação coletiva diverge da realidade com a qual as comunidades se defrontam porque durante muito tempo o proprietário ou a empresa estimulava a divisão e o individualismo entre os moradores. O estimulo para que o individuo aja em conformidade com o grupo na execução de projetos produtivos e projetos ambientais nasceu da observação dos danos que advém da separação do projeto individual com relação ao projeto maior. Antes o coletivo se coadunava ao projeto individual do proprietário ou da empresa. Para o proprietário importava o seu projeto politico e para a empresa importava o seu projeto econômico. Aonde o projeto da comunidade se encaixaria de uma forma capaz de salientar a sua gravidade? Os projetos políticos e econômicos escorraçaram as comunidades de seus centros gravitacionais para um planeta distante só os atendendo em época de campanha politica ou só os cortejando em campanhas publicitárias.
Nos projetos de criação de galinha caipira, os agricultores familiares se notabilizam pela estrutura física que erigiram e pelo tempo que dispenderam. A estrutura e o tempo remetem ao espaço onde se situam; todos contornam o terreno com a madeira que a Chapada fornece e o tempo se gasta de acordo com as tarefas. Essas atividades conferem aos participantes do projeto uma perspectiva em comum, dessas que se sente falta na atualidade.
Mayron Régis
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)



