terça-feira, 6 de agosto de 2024

terra prometida

Terra prometida Promessas são feitas. Promessas são desfeitas. Deus prometeu ao povo judeu a terra prometida e eles vaguearam 40 anos no deserto até acha lá. Demorou, mas achou. Deus prometeu. Deus cumpriu. Com os judeus, Deus tinha um canal direto, Moisés. Os demais povos não tiveram a sorte. De serem o povo escolhido. Tiveram que se contentar com as promessas feitas pelos homens. Promessa de fim das guerras. Promessa de acabar com a fome. Promessa de curar as doenças. Promessa de nunca sair de sua terra. Promessas são feitas. Promessas são desfeitas. Os casos das comunidades quilombolas e tradicionais do Maranhão refletem muito como o ser humano vê o cumprimento ou o não cumprimento de promessas que vem de séculos. O caso da comunidade de Juçaral em Urbano Santos é emblemático. Promessa de que a terra onde nasceram, onde foram criados, onde roçam, onde se banham, onde bebem da água, onde criam seus animais, onde apanham bacuri seria deles. Promessa de que a justiça dos homens não veria os homens pela condição social, de quê todos os homens são iguais perante a lei. Promessa de que seriam ouvidos pelos políticos e pelas instituições do governo e da sociedade civil. Nenhuma dessas promessas foi cumprida. Promessas são feitas. Promessas são desfeitas.

seu chapa

O seu Chapa, é um senhor de idade que tem alguns problemas de saúde, entre eles a diabete que o levou a perder um dos pés. Ele é proprietário de mais de cem hectares de chapada no povoado Todos os Santos, município de Urbano Santos, uma chapada em que ele e a família coletavam bacuri e praticavam outras atividades econômicas. Por conta da diabetes e do pé que foi amputado, ele passou um tempo sem dirigir e sem visitar a chapada da família. Os cuidados com a chapada ficaram a cargo dos irmãos que moravam na comunidade de Cajazeiras. Num belo dia, aqui escrito de forma irônica, seu Chapa é informado que funcionários de uma fazenda de soja desmataram a sua parte na chapada. Uma das providências que seu Chapa tomou foi cobrar do STTR de Urbano Santos uma ida a Chapada para verificar os danos e fazer um vídeo denunciando a irregularidade. Com certa relutância, a diretoria do STTR se deslocou a comunidade e gravou um vídeo relatando o acontecido. Esse vídeo não foi divulgado nas redes sociais, mas por aquelas coincidências da vida ( se é que existem coincidências na vida), o vídeo para no "zap" do Fórum Carajás que imediatamente divulga em suas redes sociais e propõe ao seu Chapa uma visita da sua equipe no local do episódio do desmatamento. Por conta do que aconteceu com seu Chapa, ficou-se sabendo de outros acontecimentos em que os plantadores de soja invadiam a terra de comunidades e de pequenos e médios proprietários e nada era divulgado. Tendo em mente esses fatos foi que se apresentou uma proposta ao @fundocasasocioambiental para realização de um seminário no municipio de Urbano Santos para expôr esse assunto. Por: @mayronregisborges

taua mirim

Num banner produzido pela empresa MRS ambiental para apresentar as etapas de licenciamento do terminal privado de regaseificacao de GNL uma frase suspeita desponta entre tantas suspeitas: "quem são essas comunidades da ilha de Taua mirim". E uma frase no máximo suspeita porque o que quer uma empresa quando chega com toda a presunção de suas certezas e desfere na lata uma frase desse naipe. E uma frase que no seu intimo questiona a real existência e a real procedência de centenas de famílias que vivem há séculos na ilha. No mínimo dois séculos com informações obtidas por depoimentos podendo chegar bem mais para trás. Bem possível que índios brancos e indígenas se batiam desde os séculos XVI na ilha de Taua mirim. Uma das principais provas desse cruzar de gente de várias origens foi dada por uma moradora do povoado Embauba (os moradores pronunciam Embauba com acento agudo no a) que alcançou 90 anos com aparência de 70 anos. Ela relembrou sua bisavó que ajudou a carregar pedras na construção da igreja da vila Maranhão no século XIX e depois foi morar em Taua mirim. Segundo essa moradora metade da igreja da vila Maranhão e feita de pedra.

O uso político do mito

Tem uma cena de "Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas" em que três homens aparecem encapuzados em frente a câmera. A conclusão e que os três são bandidos meliantes facínoras foras da lei ou coisa que o valha. No entanto, dentro do contexto do filme, os três encapuzados lutam contra a mitologizacao da cidade contra aqueles que transformaram a cidade em mitologia uma mitologia que empurra parte da sociedade para a miséria a fome e a violência. Qualquer cidade tem sua mitologia e vive dela . A mitologia do melhor São João a mitologia do melhor carnaval das melhores praias da melhor torta de camarão do maranhense bem educado da Atenas Brasileira do português melhor falado e etc. Em 1998, a Companhia das letras lançou "Olhos de Madeira" do italiano Carlo Ginsburg. O capítulo dois do livro tem como título "Mito" e como subtítulo "Distância e mentira". A parte que mais chama atenção e aquela em que analisa duas obras de Marx: "Crítica da Economia Política" de 1857 e "18 brumário" de 1869. A conclusão a que ele chega e que "para entender algo da história do século XX e necessário analisar o uso político do mito". No caso do Maranhao é preciso analisar o uso recorrente dos mitos pela política e o mascaramento da realidade sócio política e econômica com a utilização desses mitos.

quiabo

A sua mãe de vez em quando lhe pedia para comprar quiabo no comércio da rua paralela a rua onde moravam. Para botar no cozido. Ela se esquecia que nesse comércio não vendiam quiabo. Portanto, ele teria que caminhar uns bons bocados caso quisesse obedecer sua mãe. E bastante difícil encontrar quem venda quiabo. Perto de sua, só a casa do queijo vende. Das vezes que fora comprar, levava recomendações do qual adquirir e do qual não adquirir. Recomendações do tipo não compre quiabo grande. O seu pai assim falou " você vai para onde?"" Vai no mercado central e compra uns trinta reais de quiabo" Quase perguntou para que tanto quiabo. "Não compre dos grandes. Compre dos pequenos". De todos os mercados de São Luís, o mercado central e um dos mais menosprezados muito por conta da aparência da localização e das condições sanitárias. Ele não faz parte do centro. Ele fica saindo do centro numa baixa próxima a maré onde atracavam barcos de pescadores. O que não se acha nos comércios de bairro vai se achar no mercado central. Uma das razões para a dificuldade em comprar quiabo e o desprestígio que enfrenta. E quase uma ofensa querer saber de algum comerciante se ele vende quiabo. Na sua busca no mercado central por quiabo, uma feirante lhe respondeu prontamente que não vendia e só mexeu o rosto indicando quem vendia. Uma esnobe.

rodoviaria de bacabal

A rodoviária provisória de Bacabal fez lembrar a rodoviária de São Luís construída no bairro da Alemanha: tudo amontoado, desconfortável e nada agradável. A rodoviária se encontra em reformas e a solução encontrada foi adaptar um galpão para receber os ônibus de todo o Maranhão e de estados vizinhos. Onde há uma rodoviária provisória pode ter certeza que em seus meandros se esconde uma venda de comida dessas que se vê nas feiras mercados e nas beiras de estrada. E nela, e claro, você vai pedir um mocotó ou panelada, o nome e de acordo com a cidade onde se desembarcou. Faz um bom tempo que o mocotó ou a panelada passa a uma sensação de comida de beira de estrada. De tempos em tempos, alguém para na venda pede uma porção de mocotó bem sortida a dona/cozinheira esquenta uns minutos (o que não esquenta nada) e serve junto com arroz farinha macarrão. Foi mais ou menos assim que aconteceu na rodoviária de Bacabal. Vinha da assembleia da COPPALJ em Lago do Junco. A sorte lhe favoreceu e um carro deu carona. Só iria esperar umas cinco horas a chegada do ônibus. O que fazer enquanto isso? Um amigo cogitou a possibilidade de comer um mocotó delicioso que experimentara numa viagem que fizera. Pensou duas vezes antes de aceitar a possibilidade de se aventurar pelo galpão/rodoviária. Depois de alguns minutos de resistência feroz, capítulou e foi atrás do famoso mocotó. Enfim a venda se revelou. Indagou do mocotó e o preço. Fazia uma porção por vinte reais. E a possibilidade de diminuir a porção e o preço? Não abria exceção. Ah, tá bom, pode trazer. E o mocotó veio como de costume. Uma porção generosa de mocotó requentado que dava para umas três pessoas com tudo que tinha direito.

Avenida Magalhães de Almeida

As ruas quase desertas. As casas remotamente abertas. Surpreende que alguém abra o portão e entre por uma casa inexplorada. Não surpreende que nada mais aconteça. A casa retorna ao seu estágio natural de portões de ferro, fechaduras e janelas trancadas. Quantos pedestres andam por esses corredores mar adentro com as mãos geladas? Algumas casas ruas e avenidas um dia foram mar um mar que não se ouve mais. A avenida Magalhães de Almeida com suas casas modernistas fez descer o mar que anteriormente subia com pés descalços. A avenida Magalhães de Almeida provoca lembranças de algo usado como os pães cheios vendidos no abrigo da praça João Lisboa e como as revistas expostas aos montes nas bancas largadas sobre a calçada. Bancas que não vendem mais nem revistas e nem ousadias. O modernismo da Magalhães de Almeida aguenta a duras penas o que veio a ser seu futuro irreconhecível e inglório.