O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no último dia 19 de outubro, um estudo sobre o saneamento básico no país. Nele, um fato soa um tanto quanto curioso: constata que os resíduos de agrotóxicos são a segunda principal fonte de contaminação das águas brasileiras, atrás apenas do esgoto sanitário.
A análise apresenta ainda que, com 6,24%, os agrotóxicos ficaram a frente dos despejos industriais e da atividade mineradora como origens de contaminação. O uso indiscriminado dessas substâncias acaba afetando tanto a vida quanto a saúde da população.
A doutora Silvia Brandalise, presidente do Centro Boldrini, especializado em câncer infantil, localizado em Campinas e professora de Ciências Médicas da Unicamp, diz que por ser um composto derivado de benzeno, o agrotóxico é extremamente prejudicial à saúde, podendo disseminar o câncer. “O agrotóxico, a maior parte deles, tem como matéria-prima básica os derivados de benzeno. Os derivados de benzeno têm como ação importante a quebra de cromátides, que são elementos que compõem o cromossoma. Uma exposição aos derivados de benzeno ou à radiação, você consegue fazer uma mutação. Sendo assim, o câncer e outras doenças, que são mutações sucessivas, vão acontecendo na célula cronicamente exposta a esses produtos”, explica.
A utilização dos agrotóxicos em larga escala na agricultura chegou a tal ponto que é preciso parar com o despejo desses produtos, segundo a coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), Rosany Bochner. “A verdade é que chegamos a um limite. Não tem mais como falarmos apenas em diminuir ou usar outro tipo. É preciso acabar com o uso. Acreditamos que é necessário até mudar a maneira de como o Brasil lida com a produção de alimentos. Seria uma revolução maior”, afirma a coordenadora.
Outro grande problema apontado por Rosany é a questão dos alimentos geneticamente modificados, pelo fato de utilizarem “muito agrotóxico para o seu cultivo, em especial a soja. Com isso, toda a soja carrega uma quantidade enorme de produtos químicos na sua composição. Sem contar que os produtores que não utilizam os transgênicos, mas possuem agricultores vizinhos que os produzem, acabam por ter suas plantações também contaminadas”, explica.
Ainda segundo a coordenadora, o Brasil se habituou a utilizar a monocultura como forma predominante nas plantações, o que força os agricultores a aplicar os agrotóxicos.
“O que é proposto por especialistas de produção é a agroecologia. Entretanto, esse conceito iria mexer em uma questão cultural, já que hoje você tem todo mundo comendo a mesma coisa o tempo todo. Não há mais a produção de uma fruta, por exemplo, em determinada época do ano, e sim, a produção dela o ano inteiro, por conta da manipulação”, acrescenta Rosany.
Saúde
Chamados pela indústria de “defensivos agrícolas”, o uso de pesticidas ainda podem provocar danos na medula, a ponto de um transplante se fazer necessário. “O defensivo agrícola é um veneno para o homem, pois ele altera o cromossomo da célula. Uma das ações que ele faz no ser humano é diminuir a produção dos glóbulos brancos. Com a queda de glóbulos brancos, a imunidade cai. Isso provoca uma aplasia de medula, quer dizer, a medula óssea não produz mais os elementos do sangue. Nesse cenário, que é uma destruição global da medula óssea, só o transplante de medula pode resolver”, relata Brandalise.
Diversos estudos já comprovaram que foi detectada uma quantidade significativa de agrotóxicos em águas da chuva. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), existem teses que já provaram que essas toxinas foram encontradas no leite materno, o que prejudica na formação do bebê. Tanto para médicos, quanto para especialistas, a fiscalização das leis que regulamentam o uso dos agrotóxicos, e até a extinção deles, é essencial para que a saúde da população seja a prioridade na hora de se produzir um alimento.
Todavia, mesmo as legislações já vigentes que regulam a utilização desses produtos são pouco respeitadas pelo setor. “Existe legislação que proíbe a pulverização com veneno uma árvore que já tem frutos, por exemplo. Mas na prática se vê aviões pulverizando pés de banana, de laranja, etc., já com o fruto na árvore. Ou seja, a quantidade de derivado de benzeno que vai ficar nessa fruta é enorme”, salienta a doutora.
Além do fato de existirem diversos “produtos que estão com a quantidade muito maior de agrotóxico do que seria permitida pela Vigilância Sanitária. Nisso, os consumidores ingerem uma hortaliça ou uma verdura com um altíssimo teor”, enfatiza.
Intimidação
No entanto, apesar de já existirem diversos estudos que relacionam a contaminação da água por venenos agrícolas, Rosany destaca a dificuldade que há em associar causa e efeito nessa questão.
“O Sinitox registrava apenas intoxicações agudas. Contudo, com a contaminação da água, pode-se levar uma população a desenvolver uma desintoxicação que será crônica. O sistema de saúde não irá registrar essa intoxicação como causada pelos agrotóxicos, pois ao longo do tempo é que irão aparecer os problemas. Verificar esse nexo causal, provar que existe essa relação, é muito difícil”, explica.
“É nessa incerteza que as indústrias se beneficiam, porque quando se vai fazer qualquer tipo de denúncia, ela exige que tenha uma comprovação de nexo causal. Como ainda não se tem essa relação, essas empresas acabam entrando na justiça contra quem declarou qualquer coisa, intimidando as pessoas de fazerem qualquer tipo de declaração. E por essa pressão, as pessoas acabam não falando sobre o assunto”, conclui.
Por Leandro Carrasco
Da Página do MST
www.mst.org.br
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Campanha em Defesa das TERRAS, das ÁGUAS e dos POVOS do Piauí
Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes”. Dom Helder Câmara
Você sabia que as terras públicas do Piauí estão sendo vendidas a preços muito baixos ao invés de serem regularizadas para quem nelas mora e trabalha? Que a área de desmatamento e plantio de eucalipto da Suzano Celulose, depois de concluída a implantação, será do tamanho do Estado do Sergipe? Que o Piauí hoje é o quarto Estado brasileiro em número de requerimentos solicitados para pesquisa mineral, ficando atrás apenas da Bahia, Minas Gerais e Goiás? Que esse número é mais de 10 vezes maior do que os pedidos registrados até 2004? Que a energia que será produzida pelas 05 hidrelétricas tem destino certo: os projetos do agronegócio? Que o Piauí entrou na rota da transnordestina para atender aos reclamos das mineradoras por transporte de minérios sem beneficiar no Estado? Que os empregos gerados pelos vários projetos para o Estado do Piauí são trabalhos pesados, descartados pelos profissionais considerados qualificados pelo mercado? Tudo isso e muito mais fazem parte da mudança de identidade do Estado do Piauí de pobre para Estado do Desenvolvimento.
Nessa busca de mudança de identidade o governo do Estado teve um papel importante, buscou gerar informações sobre as riquezas ambientais do Piauí: cobertura vegetal, minérios, água e terras em quantidade e em qualidade como atrativo para empresas do agronegócio e para a inclusão do Estado no Programa de Aceleração do crescimento – PAC. Assim nasceu o novo mapa de minérios em 2009, que atraiu empresários e infra-estrutura através de obras do PAC numa declarada intencionalidade de garantir a implantação e manutenção dos projetos privados.
Projetos de infra-estrutura
- Os de energia – carvão e elétrica;
- Aproveitamentos hidrelétricos através de barragens – cinco no rio Parnaíba;
- Rodovias – a transcerrado;
- Ferrovia – a transnordestina;
- Terras – venda de terras públicas como regularização fundiária.
Projetos privados
Monocultura – soja, cana-de-açúcar, cacau dentre outros;
Celulose – plantio de eucalipto;
Mineração – níquel, ferro, opala, diamante, vermiculita, dentre outros.
Projetos públicos e privados formam uma cadeia só. Cada um traz suas consequências, mas é necessário analisar o conjunto para se avaliar os impactos. Dentre os revelados ao governo através dos estudos ambientais estão: deslocamento compulsório de comunidades rurais, redução de territórios tradicionais (quilombolas e indígenas); inundação de terras no Piauí e no Maranhão; inutilização de áreas férteis, inacessibilidade de áreas antes usadas para o pasto de rebanhos caprinos e bovinos da região; perda de rodovia asfaltada; perda de identidade cultural local; desaparecimento de grande contingente de espécies da fauna local; danos ao patrimônio cultural da região, dentre outros.
Na busca do Estado do desenvolvimento, alguns problemas já estão sendo observado como as terras públicas vendidas aos projetos privados, violando as posses tradicionais e de trabalhadores (as) rurais já existentes; processos autoritários de deslocamento compulsório sem as devidas indenizações; desapropriações com laudos contraditórios e não condizentes com a realidade e com valores subdimensionados, posseiros não indenizados; ampliação da área desmatada; carvoarias mantidas com vegetação nativa; não identificação das populações que serão atingidas pelas barragens; não reconhecimento da identidade quilombola de comunidades que serão atingidas; desparecimento de fauna e flora ainda não pesquisadas e clima de tensão e medo entre populações rurais que se encontram atacadas por um lado pelos projetos privados e por outro pelos projetos públicos que servem de infra-estrutura aos privados; ameaça á lideranças comunitárias, sindicais e religiosas.
Esta realidade nos convoca a construir a Campanha em defesa das terras, das águas e dos povos do Piauí. Uma campanha dos movimentos sociais; da sociedade civil, dos povos piauienses de modo geral, que tem o objetivo de mobilizar a sociedade piauiense em defesa das nossas riquezas e de nossas vidas.
Fazem parte das estratégias da campanha: articulação e mobilização das várias forças de enfrentamento ao processo em curso no Estado; identificação e monitoramento das áreas de conflito; monitoramento e denúncia da atuação das instituições dos poderes administrativo, legislativo e judiciário que executa o processo de violação do patrimônio piauiense.
A campanha em defesa das terras, das águas e dos povos do Piauí é a expressão ativa e viva da sociedade que denuncia:
- A ação criminosa do governo piauiense que vende suas terras, licencia grandes projetos que violam direitos das populações e degrada o meio ambiente;
- A ação criminosa do governo federal que financia a degradação ambiental e violação de direitos humanos sob o rótulo de “aceleração do crescimento”;
- A omissão de instituições de controle social e fiscalização que não fiscalizam e se fiscalizam não atuam para proteger o meio ambiente e as populações;
- A colaboração do poder judiciário no ataque ao direito das populações ao anuir com as baixas indenizações em forma de decisões judiciais.
Diante dessas denúncias, a sociedade piauiense exige dos poderes públicos e os devidos órgãos competentes, a garantia dos direitos das famílias atingidas:
- Levantamento imediato, minucioso e real, de todas as comunidades e famílias atingidas pelos projetos de barragens, mineração, transnordestina, transcerrados e as monoculturas de soja, cana-de-açúcar e plantio de eucalipto;
- Justa indenização dos reais valores correspondentes aos bens das famílias atingidas;
- Áreas de terras apropriadas e em condições adequadas para assentamentos de moradias e para a produção da agricultura familiar;
- Implantação de uma Política Ambiental, que preserve o meio ambiente, a cultura dos povos tradicionais e a biodiversidade.
E conclama a população piauiense, brasileira e internacional para engrossar a luta em defesa das terras, das águas e do povo piauiense, maranhense, cearense, de todos os Estados brasileiros e mundial.
Realização:
Fórum Piauiense de Convivência com o Semi-árido
Apoio:
Movimento Quilombola; Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (ENECOS); DIHUCI-UFPI; MST; PASTORAL DO MIGRANTE; SINDSERM, PSTU; CSPCONLUTAS; MTC; ADCESP; INTERSINDICAL; BARRICADAS; RENAP-PI.
Enviado por Lucas Vieira.
http://racismoambiental.net.br
Chapada Limpa e Ciriáco: Licitação planos negócio e projeto produtivo
Programa das nações Unidas para o Desenvolvimento-PNUD
Aviso de Licitação
Solicitação de Propostas BRA/08/002
Objeto: Elaboração de 3 planos de negócios e 3 projetos produtivos para as Reservas Extrativistas do Ciriáco, Extremo Norte do Tocantins e Chapada Limpa, sendo 1 plano e 1 projeto para cada unidade de conservação.
Propostas até: 12.12.2011
http://www.undp.org.br/licitacoes/ListarAvisos.asp
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Cerrado
Por José Alberto Gonçalves
As diferentes paisagens, ecossistemas, climas e proximidade de biomas tão distintos quanto os da Mata Atlântica, da Caatinga, do Pantanal e da Amazônia favoreceram o desenvolvimento de fauna e flora marcadas pela grande variedade de animais e plantas (gramíneas, arbustos e árvores) no Cerrado.
O cerrado típico possui árvores baixas de troncos tortuosos e galhos retorcidos, de até 20 metros, folhas espessas e casco grosso, e se encontram esparsas em meio a arbustos e um tapete de gramíneas. Profundas, as raízes das árvores atingem de 15 a 20 metros, condição que lhes permite absorver água do lençol freático e sobreviver na estação quente e seca, quando o capim nativo parece palha, favorecendo incêndios.
Mas nem toda a vegetação do bioma é representada pelo cerrado típico. Há, ainda, as formações do cerradão e dos campos cerrados, sujo e limpo, compostos, sobretudo, por gramíneas. O cerradão lembra o cerrado típico, mas já é considerado uma formação florestal. Difere do segundo pelas árvores mais altas e copa mais fechada. Exemplos de árvores do cerradão são o pequi, a copaíba e a pindaíba.
De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a flora do Cerrado conta com mais de 10 mil espécies de plantas, com 4.400 endêmicas (exclusivas dessa área). Muitas delas são empregadas na produção de alimentos, artesanato, cortiça, fibras, óleos e remédios.
Também há elevado grau de endemismo na fauna, que compreende 837 espécies de aves, 161 espécies de mamíferos (19 endêmicas), 150 de anfíbios (45 exclusivas do bioma), 120 espécies de répteis (45 endêmicas). A fauna invertebrada é bastante diversificada. Habitam o cerrado do Distrito Federal, por exemplo, 90 espécies de cupins, mil de borboletas e 500 de abelhas e vespas. Cupins e saúvas, tão temidos nas cidades, desempenham papel fundamental ao decompor matéria orgânica, fertilizando o solo.
A degradação das regiões de cabeceiras desses rios, que também são poluídos pelo esgoto das cidades e agrotóxicos e fertilizantes da agricultura, já afeta negativamente outros biomas, como o Pantanal, onde se tornou comum trombar com bancos de areia em uma viagem de barco.
Com a construção de Brasília no fim da década de 1950, teve início a ocupação do Cerrado. Aliás, o principal objetivo da transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o planalto central foi interiorizar o povoamento e o desenvolvimento econômico no Brasil.
A partir da década de 1960, produtores rurais de diferentes partes do Brasil, especialmente da região Sul, foram estimulados pelo governo a migrar para o Cerrado. Ampla infra-estrutura rodoviária e energética foi instalada para apoiar a produção agropecuária.
A Embrapa, fundada em 1973, foi outra peça estratégica para o sucesso da agricultura em terras ácidas e de baixa fertilidade. Desenvolveu tecnologias para diminuir a acidez do solo e torná-lo mais fértil e sementes adaptadas às condições climáticas do bioma. O antes infértil Cerrado transformou-se na maior fronteira agrícola do mundo, respondendo por mais da metade da safra nacional de grãos e algodão. Abriga, ainda, quase 50% do rebanho bovino do país, fornecendo grande parcela da carne exportada.
Contudo, a expansão da fronteira agrícola entre as décadas de 1960 e 1990 priorizou mais as tecnologias para domar um solo hostil à agricultura do que um tratamento equilibrado entre o lado econômico e a necessidade de proteger os ecossistemas.
Segundo o Ibama, o avanço da fronteira agrícola deu-se com base em desmatamentos, queimadas, uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Pelo menos metade da área do bioma foi desfigurada, com o surgimento de voçorocas, assoreamento de rios e contaminação dos ecossistemas por produtos agroquímicos.
A mais nova ameaça ao Cerrado é o aquecimento global. De acordo com Ricardo Machado, professor do departamento de zoologia da Universidade de Brasília (UnB), os modelos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revelam alto grau de probabilidade para o deslocamento das condições climáticas da área central para o sul do bioma, sobretudo o Estado de São Paulo. Em linhas gerais, o clima deve ficar mais quente no centro do Cerrado, levando os animais a procurar áreas mais amenas no sul do bioma.
“O problema é que São Paulo foi uma das primeiras regiões a perder sua vegetação com sua ocupação pela agricultura e pela pecuária”, lembra Machado. Sem mata, o animal não tem como se alimentar nem como se reproduzir.
O Cerrado é o segundo bioma do país com maior número de espécies da fauna ameaçadas de extinção – 111, ou 17,7% do total de 627 espécies ameaçadas, de acordo com o “Livro Vermelho da Fauna Brasileira ameaçada de extinção”, publicado em 2008 conjuntamente pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Fundação Biodiversitas, em parceria com a Conservação Internacional e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Também há pesquisas em curso para desenvolver técnicas de aproveitamento econômico de frutos, óleos e resinas do Cerrado, sem que seja necessário remover a vegetação. O ecoturismo é outra opção interessante para o bioma, que é repleto de esplendorosas cachoeiras e praias de rios, chapadas e mata com muitas espécies distintas e exclusivas do Cerrado. Para coroar esses esforços, é possível que em breve o Cerrado seja incluído na Constituição como patrimônio nacional, a exemplo da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, do Pantanal, da Serra do Mar e da Zona Costeira.
No segundo semestre de 2009, o Cerrado ganhou maior atenção da opinião pública, em decorrência de sua inclusão nas metas do Brasil para diminuir o ritmo de crescimento de suas emissões de gases de efeito estufa até 2020. Entre 2002 e 2008, o desmatamento no Cerrado foi responsável por emissões de 350 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) ao ano em média, praticamente a mesma quantidade liberada na atmosfera pelas queimadas e remoção de florestas na Amazônia no período.
O dado foi divulgado em setembro último pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), que calculou as emissões com base em números preocupantes sobre o desmatamento do bioma. No mesmo período de 2002 a 2008, a taxa média de desmatamento no Cerrado alcançou 21 mil quilômetros quadrados a cada ano, mais que o dobro da vegetação que foi derrubada na floresta amazônica em 2009.
O levantamento também revelou que 48% da vegetação original do bioma foi eliminada, restando pouco mais da metade da mata. A fim de frear a remoção da vegetação e diminuir as emissões de gases-estufa do bioma, o governo federal comprometeu-se a investir recursos e promover incentivos econômicos com vistas a reduzir em 40% a taxa de desmatamento do Cerrado até 2020.
Para cumprir a meta, o governo conta com o sucesso do plano de controle do desmatamento no Cerrado, lançado em setembro passado. Conforme o plano, a meta será alcançada com a recuperação de terras degradadas, fiscalização mais rigorosa para coibir o descumprimento da legislação ambiental e atividades sustentáveis, tais como o aproveitamento de frutos, sementes e óleos de plantas nativas para a produção de alimentos, cosméticos, fármacos e biocombustíveis.
“Estamos destruindo o que não se conhece”, lamenta Ricardo Machado, da UnB e um dos principais especialistas brasileiros em cerrado. Para ele, a riqueza biológica dos cerrados é um ativo valioso para uma economia sustentável no bioma. Dois exemplos ajudam a entender a proposta do pesquisador da UnB.
“O Brasil é conhecido na língua tupi como Pindorama, a terra das palmeiras. Temos no país mais de 300 espécies de palmeiras, muitas delas existentes no Cerrado. A pesquisa poderia estudar o uso pela indústria do óleo extraído dos frutos dessas plantas”. Outro potencial de manejo sustentável pouco explorado no bioma é o das gramíneas, abundantes nos campos. “O cerrado é rico em espécies de gramíneas, que poderiam alimentar o gado em vez de buscarmos espécies exóticas de capim como vem ocorrendo tradicionalmente”.
www.naturaekos.com.br/biodiversidade/cerrado/
O Bioma
Caixa d’água da América do Sul, savana mais rica do planeta em diversidade de espécies animais e vegetais e um dos maiores celeiros de grãos do mundo. Os três aspectos não deixam dúvidas sobre a importância do Cerrado para a economia e o meio ambiente do Brasil. Sua imensidão também impressiona. Ocupa 2 milhões de quilômetros quadrados, ou um quarto do território brasileiro, o que faz dele o segundo maior bioma do país, depois da Amazônia, com presença em 11 Estados e no Distrito Federal.As diferentes paisagens, ecossistemas, climas e proximidade de biomas tão distintos quanto os da Mata Atlântica, da Caatinga, do Pantanal e da Amazônia favoreceram o desenvolvimento de fauna e flora marcadas pela grande variedade de animais e plantas (gramíneas, arbustos e árvores) no Cerrado.
O cerrado típico possui árvores baixas de troncos tortuosos e galhos retorcidos, de até 20 metros, folhas espessas e casco grosso, e se encontram esparsas em meio a arbustos e um tapete de gramíneas. Profundas, as raízes das árvores atingem de 15 a 20 metros, condição que lhes permite absorver água do lençol freático e sobreviver na estação quente e seca, quando o capim nativo parece palha, favorecendo incêndios.
Mas nem toda a vegetação do bioma é representada pelo cerrado típico. Há, ainda, as formações do cerradão e dos campos cerrados, sujo e limpo, compostos, sobretudo, por gramíneas. O cerradão lembra o cerrado típico, mas já é considerado uma formação florestal. Difere do segundo pelas árvores mais altas e copa mais fechada. Exemplos de árvores do cerradão são o pequi, a copaíba e a pindaíba.
De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a flora do Cerrado conta com mais de 10 mil espécies de plantas, com 4.400 endêmicas (exclusivas dessa área). Muitas delas são empregadas na produção de alimentos, artesanato, cortiça, fibras, óleos e remédios.
Também há elevado grau de endemismo na fauna, que compreende 837 espécies de aves, 161 espécies de mamíferos (19 endêmicas), 150 de anfíbios (45 exclusivas do bioma), 120 espécies de répteis (45 endêmicas). A fauna invertebrada é bastante diversificada. Habitam o cerrado do Distrito Federal, por exemplo, 90 espécies de cupins, mil de borboletas e 500 de abelhas e vespas. Cupins e saúvas, tão temidos nas cidades, desempenham papel fundamental ao decompor matéria orgânica, fertilizando o solo.
Ocupação não valorizou ecologia do bioma
Conservar o Cerrado é uma necessidade premente por vários motivos. Um deles é preservar as nascentes dos principais rios das bacias do São Francisco, do Prata e do Amazonas. Sem mata para reter no subsolo a água da chuva, as nascentes secam e a enxurrada leva terra para o rio, o que o assoreia e prejudica a agricultura.A degradação das regiões de cabeceiras desses rios, que também são poluídos pelo esgoto das cidades e agrotóxicos e fertilizantes da agricultura, já afeta negativamente outros biomas, como o Pantanal, onde se tornou comum trombar com bancos de areia em uma viagem de barco.
Com a construção de Brasília no fim da década de 1950, teve início a ocupação do Cerrado. Aliás, o principal objetivo da transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o planalto central foi interiorizar o povoamento e o desenvolvimento econômico no Brasil.
A partir da década de 1960, produtores rurais de diferentes partes do Brasil, especialmente da região Sul, foram estimulados pelo governo a migrar para o Cerrado. Ampla infra-estrutura rodoviária e energética foi instalada para apoiar a produção agropecuária.
A Embrapa, fundada em 1973, foi outra peça estratégica para o sucesso da agricultura em terras ácidas e de baixa fertilidade. Desenvolveu tecnologias para diminuir a acidez do solo e torná-lo mais fértil e sementes adaptadas às condições climáticas do bioma. O antes infértil Cerrado transformou-se na maior fronteira agrícola do mundo, respondendo por mais da metade da safra nacional de grãos e algodão. Abriga, ainda, quase 50% do rebanho bovino do país, fornecendo grande parcela da carne exportada.
Contudo, a expansão da fronteira agrícola entre as décadas de 1960 e 1990 priorizou mais as tecnologias para domar um solo hostil à agricultura do que um tratamento equilibrado entre o lado econômico e a necessidade de proteger os ecossistemas.
Segundo o Ibama, o avanço da fronteira agrícola deu-se com base em desmatamentos, queimadas, uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Pelo menos metade da área do bioma foi desfigurada, com o surgimento de voçorocas, assoreamento de rios e contaminação dos ecossistemas por produtos agroquímicos.
A mais nova ameaça ao Cerrado é o aquecimento global. De acordo com Ricardo Machado, professor do departamento de zoologia da Universidade de Brasília (UnB), os modelos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revelam alto grau de probabilidade para o deslocamento das condições climáticas da área central para o sul do bioma, sobretudo o Estado de São Paulo. Em linhas gerais, o clima deve ficar mais quente no centro do Cerrado, levando os animais a procurar áreas mais amenas no sul do bioma.
“O problema é que São Paulo foi uma das primeiras regiões a perder sua vegetação com sua ocupação pela agricultura e pela pecuária”, lembra Machado. Sem mata, o animal não tem como se alimentar nem como se reproduzir.
O Cerrado é o segundo bioma do país com maior número de espécies da fauna ameaçadas de extinção – 111, ou 17,7% do total de 627 espécies ameaçadas, de acordo com o “Livro Vermelho da Fauna Brasileira ameaçada de extinção”, publicado em 2008 conjuntamente pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Fundação Biodiversitas, em parceria com a Conservação Internacional e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Maior atenção pública
Nos últimos anos, pesquisadores, governos, grupos organizados da sociedade civil e entidades empresariais têm procurado encontrar maneiras de conservar o que restou do Cerrado. O grande desafio é tornar a produção agropecuária mais sustentável social e ambientalmente, utilizando técnicas para proteger o solo da erosão, recuperando áreas de preservação permanente (matas ciliares nas margens dos rios, por exemplo) e as reservas legais (parte da propriedade que deve ser mantida com vegetação nativa).Também há pesquisas em curso para desenvolver técnicas de aproveitamento econômico de frutos, óleos e resinas do Cerrado, sem que seja necessário remover a vegetação. O ecoturismo é outra opção interessante para o bioma, que é repleto de esplendorosas cachoeiras e praias de rios, chapadas e mata com muitas espécies distintas e exclusivas do Cerrado. Para coroar esses esforços, é possível que em breve o Cerrado seja incluído na Constituição como patrimônio nacional, a exemplo da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, do Pantanal, da Serra do Mar e da Zona Costeira.
No segundo semestre de 2009, o Cerrado ganhou maior atenção da opinião pública, em decorrência de sua inclusão nas metas do Brasil para diminuir o ritmo de crescimento de suas emissões de gases de efeito estufa até 2020. Entre 2002 e 2008, o desmatamento no Cerrado foi responsável por emissões de 350 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) ao ano em média, praticamente a mesma quantidade liberada na atmosfera pelas queimadas e remoção de florestas na Amazônia no período.
O dado foi divulgado em setembro último pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), que calculou as emissões com base em números preocupantes sobre o desmatamento do bioma. No mesmo período de 2002 a 2008, a taxa média de desmatamento no Cerrado alcançou 21 mil quilômetros quadrados a cada ano, mais que o dobro da vegetação que foi derrubada na floresta amazônica em 2009.
O levantamento também revelou que 48% da vegetação original do bioma foi eliminada, restando pouco mais da metade da mata. A fim de frear a remoção da vegetação e diminuir as emissões de gases-estufa do bioma, o governo federal comprometeu-se a investir recursos e promover incentivos econômicos com vistas a reduzir em 40% a taxa de desmatamento do Cerrado até 2020.
Para cumprir a meta, o governo conta com o sucesso do plano de controle do desmatamento no Cerrado, lançado em setembro passado. Conforme o plano, a meta será alcançada com a recuperação de terras degradadas, fiscalização mais rigorosa para coibir o descumprimento da legislação ambiental e atividades sustentáveis, tais como o aproveitamento de frutos, sementes e óleos de plantas nativas para a produção de alimentos, cosméticos, fármacos e biocombustíveis.
“Estamos destruindo o que não se conhece”, lamenta Ricardo Machado, da UnB e um dos principais especialistas brasileiros em cerrado. Para ele, a riqueza biológica dos cerrados é um ativo valioso para uma economia sustentável no bioma. Dois exemplos ajudam a entender a proposta do pesquisador da UnB.
“O Brasil é conhecido na língua tupi como Pindorama, a terra das palmeiras. Temos no país mais de 300 espécies de palmeiras, muitas delas existentes no Cerrado. A pesquisa poderia estudar o uso pela indústria do óleo extraído dos frutos dessas plantas”. Outro potencial de manejo sustentável pouco explorado no bioma é o das gramíneas, abundantes nos campos. “O cerrado é rico em espécies de gramíneas, que poderiam alimentar o gado em vez de buscarmos espécies exóticas de capim como vem ocorrendo tradicionalmente”.
www.naturaekos.com.br/biodiversidade/cerrado/
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Anfíbios e répteis: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga
- BARREIRINHAS/
URBANO SANTOS
Localização: MA: Barreirinhas, UrbanoSantos, Santa Quitéria do Maranhão, São
Bernardo e Tutóia.
Importância biológica: Muito alta.
Hábitats: Dunas, caatinga e cerrado.
Ação recomendada: Proteção integral.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de espécies: média; número médio de
endemismos; média riqueza de espéciesraras/ameaçadas.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do sistema: Média. Grau de alteração: Média.
Justificativa: Contato entre dunas dos lençóis maranhenses e enclaves de cerrados em
contato com a caatinga.
http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/18281/1/Caatinga.pdf
URBANO SANTOS
Localização: MA: Barreirinhas, UrbanoSantos, Santa Quitéria do Maranhão, São
Bernardo e Tutóia.
Importância biológica: Muito alta.
Hábitats: Dunas, caatinga e cerrado.
Ação recomendada: Proteção integral.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de espécies: média; número médio de
endemismos; média riqueza de espéciesraras/ameaçadas.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do sistema: Média. Grau de alteração: Média.
Justificativa: Contato entre dunas dos lençóis maranhenses e enclaves de cerrados em
contato com a caatinga.
http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/18281/1/Caatinga.pdf
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