sexta-feira, 15 de outubro de 2021

os caminhos irrefletidos da alma humana

Olha só os campos naturais. Nada de espetacular a olhares frios e superficiais. Até onde a vista alcança, quer dizer, uns poucos metros a sua frente. Dificil andar pelos campos naturais para quem pisa em terreno seguro. Olhando de longe, pensa logo que é moleza andar por essas terras. Dá até pra dizer vou bem ali e volto já. Tamanha a facilidade porque nos campos naturais não se vê obstáculos visíveis. Os obstáculos oferecidos pelos campos naturais ficam um pouco mais embaixo. Basta escavar que aparece. Muita água no subsolo e que nos meses de inverno bom e esplendoroso se ergue e sobrepõe-se ao solo. Nos meses de verão, o horizonte cabe num olhar: o mangue, as ilhas, o capim e o fogo. Nos meses de inverno, não se pensa no horizonte como a distancia a ser vencida. O barco a motor vence a distancia em poucos minutos com seu vagar solene sonolento. Poucos sabem quais são e onde ficam os portos onde embarcam e desembarcam aqueles que navegam por esses caminhos irrefletidos da alma humana.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Lendas e Mitos nos campos naturais de Anajatuba

Bem no fundo da sua alma, bem lá no fundo, ele ambicionava conhecer a foz do rio Mearim, no município de Arari, e as margens do rio em toda a extensão desde a foz até a baia de São Marcos. Trazia esse desejo tão expressivo. Um desejo que datava de pouco tempo e que não sabia bem como expressa-lo porque podia parecer algo de outro mundo. Afinal, o que há de tão significativo em um rio? As cidades, na maioria das vezes, originam-se dos rios porque elas se erguem sobre suas margens. A relação da cidade e seus moradores com a água doce se reflete na memória coletiva e na memória individual. A região dos campos naturais do rio Mearim, uma região acochada de água por seis meses, convive com a lenda de bolas de fogo que se transformam em uma mulher, a Cangapara. A lenda da Cangapara é uma forma de afastar visitas indesejáveis e proteger o território de quem possa vir a ameaça-lo com projetos de ganhar dinheiro fácil. A Eliane, presidente da União das comunidades quilombolas de Anajtuba, foi convidada para viajar a ilha dos Caranguejos por um pesquisador. Ao ouvir o nome ilha dos Caranguejos, ela se retraiu. “Vou nada. É um lugar encantado. Ninguem dorme lá”. Lendas e mitos de forte elemento hídrico que se contrapõe ao e complementam o espaço das cidades. As cidades não vivem sem água doce, mas, ao mesmo tempo, tem grandes dificuldades de convivência com esse elemento. Para resolver o dilema da convivência, as cidades constroem portos, estruturas de captação de água, estruturas de tratamento de esgoto e etc. nem tudo, porem, resolve-se com construções metálicas. As construções imemoriais (lendas, mitos) provam justamente esse ponto

domingo, 10 de outubro de 2021

Reintegração de posse nos campos naturais de Anajatuba

Amanheceu . Não saberia dizer a hora certa. Amanheceu onde mora como deve ter amanhecido em outros lugares. Um dia, quem sabe, veria o minuto exato em que a escuridão da noite some para dar lugar a claridade do dia. O dia começa cedo com as pessoas despertas e prontas para tocarem a vida, com o comerciante levantando as portas do comércio e com a fervura da água do café. Um dia normal começa assim e para terminar normal não precisa mais do que isso. Caso falte alguma coisa para completar o dia, é só ir ao comércio perto da casa. o dia oito de outubro de 2021, para a comunidade de Afoga, municipio de Anajatuba, provavelmente, transcorreria da maneira usual. Contudo, não foi bem assim. As horas passaram e carros da policia militar chegaram a comunidade para cumprir uma liminar de reintegração de posse expedida pelo Juiz de Anajtuba em favor do senhor José Mauricio Dias Barroso. Os moradores de Afoga se surpreenderam com o aparato policial. Moveu-se uma verdadeira operação de guerra para cumprir uma decisão judicial contra uma comunidade tradicional de mais de cem anos situada a beira dos campos naturais. A questão judicial envolve os campos Naturais onde os moradores do Afoga soltam seus animais e criam seus peixes. Os campos naturais não tem dono pois é uma área da união. Essa compreensão de não haver um dono perdurou por décadas. Bem, esssa compreensão vem mudando e ação de reintegração de posse do senhor José Mauricio Dias Bezerra prova essa tese. Os campos naturais são uma área rica em água, solo e capim. O senhor Jose Mauricio com essa ação pretende se apossar desse espaço para criar gado. O que originou a ação de reintegração de posse foi a compra de dois hectarespor parte do senhor Jose Mauricio. A partir dessa compra, ele quis esticar mais a sua propriedade para um total de 34 hectares. Entrou coma ação contra a comunidade alegando que os moradores invadiram seu terreno. O advogado dos moradores não se pronunciava no processo o que levou o juiz decidir a favor do Jose Mauricio. Como sempre, o judiciário toma decisões sem tomar os devidos cuidados com referencia ao processo. 0 comentário

terça-feira, 5 de outubro de 2021

A ausência de regularização fundiária dos territórios quilombolas no Maranhão

Numa situação de total ou parcial ausencia do Estado, as comunidades quilombolas do Maranhão se sentem completamente a mercê do avanço do agronegócio e a implantação de grandes empreendimentos sobre seus territórios. A comunidade quilombola de Jacarezinho, município de São João do Soter, leste maranhense, certificada pela Fundação Palmares e com processo de regularização fundiária aberto no Incra, nega-se a aceitar as propostas de acordo vindos de um plantador de soja paraguaio que deseja desmatar parte do território de Jacarezinho. Foram várias investidas através de mensagens de Zap e das visitas de advogados contratados pelo plantador de soja. O território de Jacarezinho é objeto de cobiça por grileiros de todos os lugares que não vão parar quietos até conseguirem concretizar o negócio com a derrubada da floresta. A vista mais recente de um advogado a mando do paraguaio aconteceu há alguns dias atrás . a advogada atende pelo nome de Carla e antes de prestar serviços para plantador de soja e grileiros auxiliava a comunidade de Jacarezinho no seu processo de regularização fundiária. Ela conhece a comunidade e usa esse conhecimento a favor do seu patrão despudoramente. Em todas as suas visitas, a comunidade lhe bateu as portas. A demora em regularizar os territórios quilombolas por parte dos órgãos fundiários para os plantadores de soja e grileiros é um sinal que está tudo bem para que possam forjar um documento no cartório e pedir uma licença de desmatamento na Secretria de Meio Ambiente que autorizará na hora. A vagareza no processo de regularização fundiária é um dos problemas que mais aflige as comunidades quilombolas porque é nesse vácuo que as empresas entram para ocupar os territórios tradicionais. O caso da EDP que instalou uma linha de transmissão nos campos naturais de Santa Rita, Anajatuba e Itapecuru contextualiza bem os problemas advindos com a desregularização fundiária praticada pelo Incra, Iterma e DPU no estado do Maranhão. Como a empresa sabe que as comunidades quilombolas não tem documentação definitiva dos seus territórios e que os campos naturais não são vsitos como espaço ambiental de relevante importância para a sociedade, ela detona com o que ela vê pela frente. A sua segurança de que não vai acontecer nada fica por conta do escritório de advocacia que a representa e da justiça que atende os seus pedidos de liminar na mesma hora.

domingo, 3 de outubro de 2021

O abandono dos rios

Ia a praia com os outros. Os outros o levavam. Se pudesse escolher, escolheria ir para um rio qualquer de sua cidade. Que pena, essa sua cidade não comporta nenhum rio. Outrora havia rios que cruzavam a cidade por todos os lados. Chegou a ve-los em suas versões esquálidas. Via-os de longe porque ou os via de dentro de um carro ou os via de dentro de um ônibus. Longe e do alto. O rio espera ser visto de perto e de suas margens. As pessoas chegavam perto dos rios e banhavam-se neles. Presumiam que dentro deles sentiriam tranquilidade. A cidade cresceu e as pessoas abandonaram os rios e os seus hábitos de lavarem-se e de lavarem suas roupas e louças neles. Os rios que as pessoas faziam questão de mergulharem foram trocados pelas praias. O que motivou a troca? A longa faixa de areia que vai de uma ponta a outra da cidade? A impressão de que as vidas das pessoas a beira da praia independem umas das outras? Bom lembrar o quanto as pessoas mantinham distancia do mar séculos atrás. O mar era visto como uma via de transporte. Banhos de mar viraram recomendação no século XIX. Aventava-se a possibilidade de que com os banhos de mar a saúde das pessoas melhoraria. Foi um pulo para que as pessoas adotassem o banho de mar como pratica social de saúde física e mental. Isso tudo significou o abandono dos rios e quem é abandonado estampa na cara o que sente. No caso dos rios, a principal estampa é a degradação ambiental.

sábado, 2 de outubro de 2021

Refazenda

Por quase setenta anos, quem queria fazer musica no Brasil tinha uma certeza: antes de qualquer coisa o musico devia gostar de samba. O samba se tornou a maior expressão cultural do pais graças ao governo Getulio Vargas que viu no gênero possibilidades de controle ideológico e social da sociedade brasileira. Em alguns momentos, essa certeza de que o samba era a maior expressão artística cultural foi contestada por movimentos modernistas como a Bossa Nova, Jovem Guarda e tropicalismo. Movimentos que em suas genéticas apresentavam elementos oriundos do samba por mais que defendessem a modernização do gênero com a inclusão de samba, rock e outros gêneros musicais em sua composição. O que esses movimentos criticavam era que devido as transformações econômicas sociais e culturais pelas quais o Brasil passava a musica não podia ficar limitada a padrões estéticos consagrados nos anos da republica velha e ditadura varguista. O samba se formata na ditadura de Getulio Vargas mas suas raízes aparecem no começo da republica período que ficará conhecido como republica velha. Afirmar que quem cantava samba trazia consigo um forte tom emocional que transmitia uma sensação de saudade não seria nenhum exagero. O titulo do primeiro disco de João Gilberto “Chega de Saudade” investe contra a emotividade do gênero. Como foi escrito, os genros musicais modernistas criticavam o samba não com a inenção de depo-lo e sim com a intenção de reinventa-lo. Um pouco dentro das discussões que se travavam nos anos 60 de reinventar o Brasil e assim por diante. Reinventar o Brasil seria superar o modelo de desenvolvimento social e econômico que imperava desde a colônia. Superarem todos os setores. O golpe de 64 e o golpe dentro do golpe de 68 visavam manter as estruturas do jeito que elas estavam. E mantiveram. Os gêneros musicais modernistas que cobravam a atualização do samba em termos estéticos e políticos ou foram abafados ou foram acondicionados no sistema de produção de informações. Gilberto Gil em 1975 grava o disco Refazenda cuja musica principal tem o mesmo nome. A musica cantada por Gilberto, e que a Nação Zumbi regravou no álbum “Radiola” em, tem como base o verbo “refazer” e brinca com seus sentidos e um desses sentidos é a palavra refazenda. A economia brasileira ficou conhecida por ser uma grande fazenda de cana, café, gado e etc. e os primórdios do samba vem das batucadas dos negros na fazenda. O que Gilberto coloca é que para ele se refazer deve dar alguns passos para trás como aconteceu com a sociedade brasileira pós golpes de 64 e 68. Isso inclui aceitar que o Brasil é uma refazenda em que o que pode ser cantado é tamarindo, abacate, namorar e etc. Gilberto Gil, discretamente, rele o samba tradicional e faz uma critica politica tanto ao samba como o Brasil arcaico. Era possível ainda elaborar processos estéticos que confrontassem a realidade e esses processos estéticos passavam pelo samba e suas tradições. Se a pretensão dos modernistas dos anos 60 era reinventar o Brasil, as produções de final dos anos 70 em diante partiram do premissa de que o Brasil é essa refazenda conservadora e temos que lidar com isso. O Mangue Beat, movimento modernista dos anos 90, é o ultimo grande suspiro dessa linhagem de releitura do samba e a critica a sociedade a partir dessa leitura. Depois desse ultimo suspiro, o que se escuta é a negação completa do samba e da historia de suas relações com a sociedade.

musica sertaneja

Simplesmente, ele detestava determinadas músicas sertanejas. Não saberia dizer o quanto. as músicas retratavam um país pelo qual passou ao largo toda a sua vida. Conhecia seu pais de narrativas e imagens que apreendia ao abrir um livro ou uma televisão ou um computador. As musicas sertanejas transbordavam em emoções pouco usuais para um ser urbano como ele. quer dizer, pouco usuais para ele porque seus vizinhos escutavam essas e outras musicas de volume alto. Quer se queira ou não, ter vizinhança pressupõe viver surpresas. Naquele dia, porem, a surpresa viria da sua própria casa. A empregada deixara o rádio ligado no quintal. Tocava uma música sertaneja. Reconhecia a dupla sertaneja. Os nomes ele esqueceu. Nada grave esquecer os nomes daqueles dois. Ah sim!!1 Chitãozinho e Xororo cantavam Galopeira. Relembrar os nomes o satisfez e provocou um debater interno. Porque os intelectuais brasileiros não conseguiam elevar o debate em torno de uma determinada musica sertaneja? Uma determinada musica sertaneja que alimenta diversos comportamentos sociais e econômicos da sociedade brasileira.