quinta-feira, 8 de outubro de 2026

aldeias altas

Havia uma cidade aqui antes dessa cidade se formar. Uma cidade que não se sabia bem o nome, quantas pessoas nela moravam e que distância alcançava. Tampouco se sabia os nomes de rios igarapés e comunidades. Não tinha porque o povo saber dessas coisas porque o queria mais saber é de onde vinha o dinheiro. E o prefeito e os vereadores eram os mais interessados em dinheiro. Quanto mais interessados em dinheiro menos interessados em saber de outras coisas. O tanto de igarapés que não brotou mais uma gota dagua e que desapareceu da face da terra sem ninguém dar importância. Em contraposição, outros igarapés continuam despertos mesmo sem nome como o igarapé que nasce na comunidade Gostoso município de Aldeias Altas. Os moradores o tratam por igarapé sem especificar um nome, mas sabem os nomes dos igarapés maiores que ele deságua alagadiço e gameleira. Tudo terminando no rio Itapecuru. Se a comunidade de gostoso ( que o prefeito de Aldeias Altas afirmou que tomaria no ... em sua luta pelo território contra a empresa Costa Pinto) não estivesse lá os mais de 900 hectares que protegem o igarapé teriam virado plantio de cana.

tabatinga

Quase quatro horas de estradas íngremes e enfim foram agraciados com as visoes das Chapadas de Santa Quitéria e da comunidade de Tabatinga. De longe vieram beirando a bacia do rio Preguiça e por outras estradas retornariam. Tai um coisa para se investigar: o porquê do nome preguiça para essas águas límpidas e silentes. É verdade que dá vontade mesmo de não fazer mais nada a não ser se jogar e mergulhar fundo. Ainda dá, mas pode ser que a vontade passe porque em várias Chapadas de Anapurus Urbano Santos Santa Quitéria e Barreirinhas os desmatamentos e os plantios de monoculturas aumentam e sem cobertura vegetal as águas das chuvas descem produtos químicos que contaminam as águas como aconteceu em Cabeceira da Tabatinga. E visível o impacto e as comunidades tradicionais como a Tabatinga evitam qualquer contato. O agronegócio contamina, o poder público não faz nada e as comunidades se viram para obter água

fala e escrita

Não se fala como escreve e nem se escreve como fala. A fala antecede a escrita. Vejam bem as falas em um almoço que aconteceu em uma cidade do cerrado maranhense. O o prato principal era chambari e debatia se a ascendência indígena sobre o povo maranhense. "Quem bebia água de cabaça?", perguntou o dono da casa. Para bom entendedor meia palavra basta e a filha respondeu " eu ia para roça com meu pai só para beber água de cabaça". A cabaça e um artefato em que os agricultores guardavam água para beberem em momentos que a sede apertava. As falas de pai e filha sugeriam códigos entre os dois. Quem nunca tivesse tido contato com a fala cabocla ficaria boiando. A fala cabocla e de gente que viveu parte da vida nos matos caçando pescando rocando plantando colhendo e alimentando as criações. O cabocles tem estreita relação com as atividades primárias de produção. E e nos ambientes e reuniões familiares que, qndo menos se espera, essa fala aflora através de um comentário uma brincadeira uma alusão uma lembrança que recupera a herança indígena que muitos fazem questão de esquecer.

sanharo

Assim que desembarcaram, Dona Angelita provocou o galego: "Você lembra meu neto. Ele não corta o cabelo". A tirada matreira fez com que ele soltasse uma risada. "Quantos anos tem seu neto?" "Ah!!! não sei. Deve ter uns vinte e poucos anos", respondeu com impaciência. "Ele mora em Chapadinha?" "Não, ele mora aqui mesmo na comunidade". Por um momento, ele teve um vislumbre de como seria esse neto. Ele não ficou embaraçado pela provocação de Dona Angelita. Ele lembrava seu neto assim como ela lembrava dezenas de avós que conhecera pelo Maranhão afora. Os parentes de dona Angelita foram se achegando aos poucos para a reunião com o Fórum Carajás como se cada passo fosse uma indagação. Como tudo em Sanharó é de memória, dona Angelita puxou a informação de que os Amorim não tem documentação da área onde residiam. Essa foi uma ocasião especial para a comunidade do Sanharó, beira do rio Munim, porque o Fórum Carajás veio de muito longe para entreter os moradores com informações sobre meio ambiente, identidade quilombola, produção agrícola, licenças para mineração e etc. Quando se despediam, dona Angelita incorporou uma receptividade quase extinta daquelas que só existem na memória dos mais velhos : "Quando vier de novo avise para preparar uma galinha caipira". É nas comunidades tradicionais e quilombolas que as memórias se iluminam e nessa iluminação as coisas voltam aos seus lugares legítimos.

convresas

A história é feita por homens e por lembranças afastadas. Alguns homens conversavam em frente ao comércio de carne do senhor Arnaldo. Passava um pouco depois das onze horas. A conversa rolava com eles sentados, mas com a chegada de mais pessoas ficaram de pé. O que menos importava era conversar sobre carne de gado. O assunto da conversa girava em torno de peixe. Os fundos do bairro monte Castelo davam de cara pro rio Anil. Nesse dia, a estrada da vitória assumia uma feição mais interiorana com pouco trânsito de veículos e pouca circulação de pessoas. A estrada da Vitória se esticava entre a Liberdade e o Monte Castelo. Seria de muito bom gosto trocar o nome Estrada da Vitória por Estrada dos Ipês. É muito ipê, o que acentua esse lado interiorano. A conversa principal se repartiu em conversas paralelas. "Os seus pais ainda vendem mesocarpo do coco babaçu?""Sim, vendem""Uma amiga perguntou e eu disse que via o filho do casal de vez em quando e me informaria com ele". Então, a conversa viajou para um Turu antigo quando se flagrava sítios abarrotados de mangueiras bacurizeiros, pequizeiros jaqueiras e babacuais. Uma coisa que se aprende é que uma árvore não surge por acaso. Um homem ou um animal fez o serviço de comer a fruta e jogar o caroço sobre a terra.

alimetnação

Uma roça se sustenta no solo e se conforma de acordo com o espaço territorial. Antes de fazer uma roca, o agricultor familiar deve escolher com sabedoria que área irá desmatar e qual o tamanho desse desmatamento para que tudo ocorra dentro de suas possibilidades e de suas medidas. Um debate clássico que ainda perdura e porquê a agricultura familiar não se diversificou ou não incluiu outras culturas em seu planejamento. Não é tão simples. As narrativas de Sergio Buarque de Holanda sobre a ocupação dos Cerrados no século XVI e XVII demonstram que no percurso empreendido os paulistas decidiram com auxílio dos indígenas que áreas seriam propícias para serem plantadas com trigo mandioca ou milho. A história da alimentação e claramente uma história de seleção e de adaptação. Os agricultores foram selecionando e vendo quais cultivares melhor se adaptavam ao solo e ao clima. E necessário nesse proceder que o agricultor conheca o terreno e conheça o ambiente. O fórum carajás um dia desses visitou o terreno do agricultor familiar Vicente de Paulo na chapada do povoado Carrancas município de Buriti. Entre tantas conversas, uma se destacou. Vicente de Paulo elogiava sua roca de arroz que por conta das chuvas recentes crescia bem. O arroz e básico para o maranhense e junto com a mandioca estruturam a vida econômica e social das famílias da zona rural. Quem não tem roca vai depender exclusivamente do Estado da política tradicional ou de empresas.

gregorio de matos

A viagem na qual Gregorio de Matos foi desterrado para Angola no século XVII e uma dessas viagens pouco mencionadas e pouco comentadas pela história literária e pela história cultural no Brasil. Outras viagens pouco trazidas a luz da análise foram as que padre Antônio Vieira vivenciou pelo Império português. Em algum momento, um ouviu falar do outro ? Ou quase se esbarraram em algum porto ? Esse seria um daqueles encontros improváveis . Qualquer viagem traz dentro de si um pouco de desterro. Sair de sua cidade ou do seu espaço mítico territorial por menor o tempo que seja impacta diretamente a memória e a linguagem. A língua do lugar e dos seus povos se configura uma língua estranha. Pronúncia se rápido as palavras e nem sempre o contexto e apreendido e compreendido. O desterrado se sente obrigado a entender o que e dito porque dificilmente o contrário acontece.