sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A novidade não veio da praia


Não chega a ser novidade. Tanto não é que ninguem grita assim que o vê. Ver o quê? Bacurizeiros se intrometendo nas capoeiras dos posseiros no povoado Carrancas, municipio de Buriti. Crescem donos de si, apesar do mundo que os cerca.
As pessoas não esperam que os bacuris caiam. Elas os derrubam antes que amadureçam para que o máximo possivel de bacuris fique em suas mãos enquanto que nada fica para o restante dos moradores.
O José viu um bacurizeiro novo empilhadinho de bacuris no terreiro do seu irmão Francisco e revelou o fato ao Vicente de Paula, seu pai. Não era novidade, mas rendeu boas conversas durante o dia.
Mayron Régis

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

As Paisagens


A cena não se repetirá mais. A varanda da casa do Zé Branco recebia os seus parentes para uma conversa breve no meio da tarde depois de uma longa ausência. A mulher do Zé Branco se sentara ao seu lado, A febre não largara a neta Julian que abraçava os avós. Apanhava-se bacuri no balde para queba-lo e comer a carne. Próximo a casa, cascas de bacuri se amontoavam. A propriedade do Zé Branco se encarrega de 100 hectares de Chapada, onde resistem bacurizeiros e suas variadas formas de esgalhar.
Mayron Régis

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A FUMAÇA DA CARABINA


“Um passeio pela Balaiada do século XIX – 170 anos de início da revolta popular”
      
       Eles rondavam o sertão a procura da terra, grandiosas faram suas batalhas e ideologias em defesa de um mundo melhor. Corajosos, saíram da Vila de Manga rumo ao Baixo Parnaíba, eram os vaqueiros rebeldes. Adentraram chapada a fora atravessando vilarejos, escondendo-se dos legalistas e formando o povo. Talvez tirasse da selva sua alimentação, suas famílias ficavam sob a proteção de guerreiros.
       Os heróis eram aqueles vaqueiros, quilombolas, caboclos, camponeses pobres, índios e artesãos que sob a coragem de lutar por um ideal desafiaram o poder provincial do país. Mas existem mentiras em algumas páginas da história, porque quem a escreveu às vezes foi quem torturou os mais fracos. Os papeis mostram que a insurreição começara em 13 de dezembro de 1838. Sabe-se que a população do sertão maranhense já vinha sofrendo e se revoltando muito antes do fato de Vila da Manga; houve na verdade várias balaiadas; muitas revoltas contra as atrocidades dos fazendeiros, latifundiários, escravocratas que herdaram a estrutura fundiária no interior do estado. O que foi a Balaiada? Uma “insurreição”, “rebelião”, “revolução”, “sublevação”, “guerra civil”, “movimento revolucionário”, “revolta” ...? Tudo isso ela foi. Foi na verdade a insatisfação do povo humilde, dos analfabetos, das camadas mais pobres e miseráveis do interior, atores que fizeram o movimento. A Balaiada foi uma guerrilha camponesa, um levante que durou quatro anos de lutas entre nossos irmão e as forças militares do império, indo de 1838 a 1842. Alguns tentaram tirar proveitos dos corajosos rebeldes -, os “bem-te-vis”, que acovardaram-se e no auge da radicalização da revolta caíram fora. Nossos heróis cravaram seus nomes no imaginário popular, como o povo poderia esquecer de tamanho feito em busca da liberdade e pela igualdade de direitos. Um salve aos nossos líderes incansáveis que sonharam um dia, entre esses vultos o Raimundo Gomes, o Balaio, o Negro Cosme e todos os outros que tombaram.
       O sangue que regou o chão das chapadas do sertão do leste maranhense ainda hoje clama por justiça nos esconderijos e mocambos. Tentaram apagar os feitos que os verdadeiros heróis deixaram, o legado de sonhos e esperança. O movimento teve como espaço o nosso sertão, as veredas por onde ouve muitos combates marcaram as embocaduras do litoral, as imediações do rio Parnaíba, do Itapecuru e do Munim, adentraram região do Baixo Parnaíba afora penetrando nos atuais municípios de Barreirinhas, Tutóia, Araioses, Brejo, São Bernardo, Buriti, Milagres do Maranhão, Chapadinha, Urbano Santos, Vargem Grande, Nina Rodrigues, Icatu e Umberto de Campos. Muitas pelejas, vestígios ainda restam em valas e boqueirões. Os rios estão lá para contar o que passou.
       Guerreiros balaios de ontem e de hoje, os tempos se foram, as lutas continuam as mesmas. Os problemas de desumanidade, de desacatos aos direitos humanos, de impactos ambientais que atinge os camponeses e camponesas são os mesmos ou até piores do que os daquela época. O chão é o mesmo, as comunidades também. As armas se transformaram, outras continuam sendo os bacamartes e granadeiros de sempre. Aqueles heróis foram os pioneiros que num grito de dor utilizaram da força do braço e do pensamento para construir suas bandeiras em busca de respeito e dignidade. Esse capítulo importante está gravado no panteão dos mártires e na “fumaça da carabina” que se perpetuou nos ventos da história.

José Antonio Basto


domingo, 11 de dezembro de 2016

Aonde cair morto


Aonde cair morto
 
O Francisco, vizinho de Vicente de Paula, mudou-se para uma pequena propriedade no município de Duque Bacelar. Quando inquirido sobre o porquê da mudança, ele respondeu que na Chapada, onde residia com a mulher e com as filhas, não colhia boas safras de nenhuma cultura. Francisco culpava o solo e o clima da Chapada de Buriti pelas suas agruras agrícolas e pelas suas dificuldades socioeconômicas. Demonstrava não ter nenhuma dúvida de que na propriedade, para a qual se mudaria, conseguiria desenvolver melhor suas atividades de agricultor. A falta de água na Chapada também contribuiu para a sua decisão. Ele e os amigos escavaram duas vezes um poço no qual só toparam com areia. A família se servia do poço do Vicente de Paula. No começo, carregava-se água em uma bicicleta. Depois de algum tempo, improvisou-se uma rede de distribuição de água até perto da casa do Francisco. O Vicente permitiu que eles puxassem água por reconhecer as suas dificuldades e também por precisar de alguém que morasse perto e resistisse as investidas do agronegócio. Antes de se fixar na Chapada, a família (mãe e irmãos) do Francisco não tinha onde cair morta. O Vicente convidou-os e eles passaram a ser vizinhos. A gratidão não durou muito. A mãe do Francisco se aliou ao André, plantador de soja. Pauta dos dois: depoimento contra o Vicente de Paula e a favor do André em audiência na justiça de Buriti e a troca da posse na Chapada por uma propriedade com documentação (não importava aonde). Consumou-se a troca. Pelo que se sabe, Francisco se mal diz diariamente pois quente por quente Duque Bacelar é muito mais quente que Buriti. É um terreno acidentado, enquanto que a Chapada é plana. A remuneração vem dos campos de soja que recrutam trabalhadores para catar gravetos antes do preparo da terra.  Outro dia, perguntou-se novamente por que Francisco aceitou a decisão da mãe que o levou a viver na situação que vivia atualmente. Não se respondeu ou se respondeu de outra forma: “Bastava ele ir à Chapada. Cortava umas madeiras. Vendi-as. Daria uns 300 reais. Agora nem isso.”
Mayron Régis

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Operação de combate à extração de madeira cumpre 16 mandados no MA

07/12/2016 10h06 - Atualizado em 07/12/2016 17h08


Investigações foram comandadas pelas PRF e pelo Gaeco do MP-MA.
Fiscal da Sefaz e policias militares tiveram mandados de prisão expedidos.

Do G1 MA
Uma operação para combater uma organização criminosa que extrai ilegalmente madeira da Amazônia Legal e de outras áreas de preservação ambiental para produção de carvão foi realizada na manhã desta quarta-feira (7), na Região Metropolitana de São Luís e mais oito cidades do Maranhão. As investigações foram comandadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelo Grupo de Atuação Especial no Combate a Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Maranhão (MP-MA) com o apoio das polícias Federal e Civil e do Grupo Tático Aéreo.
O objetivo foi cumprir 16 mandados de prisões preventivas e temporárias. Entre os alvos estão um fiscal da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz) e dois policiais militares. Donos de depósitos de carvão vegetal e de carvoarias também tiveram os mandados expedidos.
Foram presos preventivamente Roberto Carlos dos Santos Bastos, Jaison Douglas Costa, Narciso de Ribamar Moreira Filho, Rogério Canals Martins, Ivanildo Caldas Porto, José Ribamar Cunha Torres (servidor da Sefaz) e os policiais militares Merval Frazão dos Santos Filho e Washington Sousa Belfort; e tiveram prisão temporária Leidinaldo dos Santos Silva, Alci Lopes Viana, Renato Viana Santos, Carlos Magno Mota Everton e José de Arimateia de Sousa.
Policiais civis cumpriram mandados de busca e apreensão na Secretaria de Estado do Meio ambiente e Recursos Naturais (Sema), no Calhau, em São Luís. No local, foram apreendidos documentos da Sema relacionados a processos administrativos de autorização de extração de madeira em fazendas de Sucupira do Norte, Buriti, Parnarama, Santa Quitéria e Caxias.
As equipes apreenderam, somente na capital, 32.580 kg de carvão vegetal. Em Barra do Corda e Fernando Falcão, o Centro Tático Aéreo da Polícia Militar destruiu fornos de produção de carvão, dezenas de sacos de carvão vegetal foram apreendidos, assim como um veículo roubado.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

As barreiras do sagrado chão


     Um dia o viajante passara por aquela região denominada Baixo Parnaíba, um lugar sagrado na mais distante geografia do leste. Ao chegar, ficou ali sua bandeira de lutas, o estandarte que se perpetuou de geração para geração. A terra era vermelha... tudo que se plantava procriava numa fartura entanto. Muitas matas por onde já tinha acontecido guerras e combates sangrentos em busca da conquista da terra séculos atrás, tempo em que leis não valiam nada, exceto para os poderosos! Os rios perenes desembocam um a outro assim formando bacias importantes -, justamente nesses rios que apareceram esconderijos cavados sob grutas e grotas. Um dia passeando pelo cerrado ouvi o ronco da espingarda!  Gritou seu tiro para outras bandas, eram caçadores das comunidades tradicionais que vigiavam as variantes defendendo seu território de coletas de frutos e agricultura.
      O imaginário era o próprio chão – pois a terra se interligava com as ações dos povos que residiam ali... pessoas que sobretudo eram suas protetoras. Esperam respeito e valorização de direitos garantidos, mas não aplicados. Hoje tudo mudara... a ganância, a arrogância e o avanço do capitalismo que vem para destruir aquele espaço cultural é o que nos preocupa. Grandes batalhas haverão de dá início na briga pelo bem maior dos seres humanos: a água. O líquido valioso que ninguém consegue fabricar e necessita dele diariamente para beber, lavar, cozinhar... para viver, o corpo humano é derivado de água. Este bem maior, carência de todos nós desaparece a cada momento, com a culpa da mão do próprio homem que não pensou no passado para viver no futuro. O que faremos para rebater tamanho desastre contra o meio ambiente? Fica uma incógnita para formulação de nossa consciência. 
      O viajante pegava seu alforje, sua máquina de escrever, papeis, livros... seus pertences e sua mala, seguia pelas veredas do sertão arenoso saindo da chapada, adentrando nos portais dos lenções de lagoas cristalinas e cajueiros deitados sobre o chão. O Oceano Atlântico findava no horizonte sob a ótica poética com sua imensidão poderosa capaz de fazer pensar em novos tempos de esperanças.  Ali anoitecia e amanhecia, virou-se portanto uma morada e um mausoléu do artista, tendo como sua fortaleza “As barreiras do sagrado chão”.

José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O Matopiba não morreu: entenda o que há por trás do estudo que decretou o fim da região



Publicado em 28/11/2016
Na última segunda-feira, o jornal Valor Econômico decretou a morte do Matopiba. A matéria usou informações de um estudo feito pela Agroicone segundo o qual a agricultura na região é arriscada e a área disponível para a expansão da produção é pequena. “A expansão agrícola em Matopiba é certamente uma roubada”, disse o pesquisador Arnaldo Carneiro Filho à jornalista do Valor, Betina Barros. Mas o que estaria por trás do atestado de óbito do Matopiba?
É preciso começar explicando que Arnaldo Carneiro Filho, responsável pelo estudo do Agroiconoe, é um ambientalista que trabalhou por anos em ONGs como a TNC e o Instituo Socioambiental (Isa). Trabalhou em um dos maiores centros de formação e doutrinamento de ambientalistas radicais do Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Arnaldo é um cara bom e tecnicamente competentíssimo, mas carrega o velho e conhecido mind set anti-agro do ambientalismo radical, coisa difícil de mudar.
A matéria do Valor que decretou a morte do Matopiba, talvez a última fronteira agrícola do Brasil, foi toda baseada em uma pesquisa conduzida por Arnaldo. O ambientalismo radical tem uma espécie de tara por matar fronteira agrícola. De acordo com a matéria do Valor, baseada no estudo de Arnaldo, o Matopiba estaria no limite de sua capacidade de expansão com menos de três milhões de hectares disponíveis.
“A compra de terras baratas em Matopiba foi um raciocínio equivocado do ruralismo de fronteira, baseado no ganho patrimonial. Mas não tem tanta terra com aptidão para soja. E a crise climática será pior ali que em Goiás, por exemplo”, disse Arnaldo Carneiro Filho. O estudo recomenda que os produtores evitem o Matopiba e invistam em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e até em São Paulo.
É engraçado como os ambientalistas radicais, não sabendo como dirigir o desenvolvimento em bases sustentáveis, simplesmente o matam. Já que uma região ambientalmente rica e economicamente pobre não tem como ficar economicamente rica sem ficar ambientalmente pobre, é melhor que fique economicamente pobre, é melhor que não se desenvolva, é melhor que os investimentos sejam feitos em outras regiões já antropizadas. Foi exatamente isso que os ecocanalhas fizeram na Amazônia.
A área disponível para agricultura no Matopiba levantada por Arnaldo e relatada pelo Valor é pequena porque o estudo só considerou as áreas de pasto com alta aptidão agrícola. O estudo ignorou propositalmente o potencial de expansão da produção em outras áreas onde o risco climático ainda é relativamente baixo e ainda é legalmente possível. A área disponível para expansão agrícola no Matopiba, de fato, não é tão grande como muita gente imagina. Aliás, nunca foi. Mas ainda há muito mais área para a expansão da agricultura por lá do que os ambientalistas radicais gostariam que houvesse.
O estudo do Agroicone ainda não foi publicado e o fato das conclusões terem “vazado” para imprensa é bem sugestivo. As declarações que Arnaldo Carneiro deu ao Valor não refletem a realidade. Refletem apenas aquilo que o ambientalismo radical gostaria que fosse realidade. Puro lixo ideológico. Lixo eco-ideológico. Tem muito disso por aí. O velho Código Florestal era um lixo eco-ideológico. Não entrou para o rodapé da história?
O Matopiba não morreu. O Matopiba continua lá, onde sempre esteve. Pulsando, com sempre esteve. Desafiando, como sempre fez. Barato com sempre foi. Quem quiser investir lá hoje provavelmente encontrá terras mais baratas ainda depois da matéria do Valor. A hora talvez seja justamente agora. Mas fiquem atentos: o Matopiba não é lugar para amadores. Fronteira não é lugar para amadores. Se você é um agricultor meia boca ou frouxo, fique onde está ou vá para Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais ou São Paulo. Fronteira tem risco. Fronteira é longe. Fronteira é desconhecida. Fronteira é para quem tem sangue no olho. Fronteira é lugar para homem, não é lugar para menino.

Agroicone desmente reportagem do Valor Econômico sobre o fim do Matopiba
A consultoria Agroicone divulgou nota oficial sobre a reportagem do jornal Valor Econômico que decretou a morte prematura do Matopiba. O texto se baseou numa entrevista feita pela jornalista Betina Barros com o ambientalista Arnaldo Carneiro, que trabalha no Agroicone. Este escriba avisou que os números do estudo não corroboravam os arroubos eco-retóricos de Arnaldo Carneiro. Existe um ditado lá no Maranhão (que faz parte do Matopiba) que diz o seguinte: “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”.
Clique aqui para conferir a nota de esclarecimento da Agroicone publicada no site Notícias Agrícolas.
Em tempo: este blogueiro concorda em gênero, número e grau com a nota de esclarecimento do Agroicone, mas não retira um único aspecto da opinião que emitiu sobre o arroubo eco-retórico do sr. Arnaldo Carneiro Filho. Aliás, lendo o relatório que foi publicado hoje junto à nota, a antipatia e o desconforto dos autores em relação à forma como a expansão agrícola tem ocorrido no Matopiba exala dos infográficos, muito bonitos por sinal.
Este escriba acha que estamos em um novo momento de construção da paz e de pontes entre o agro e o eco. Este novo momento vem na esteira de uma gerra imbecil inventada por ecotalibãs. Vez por outra surgirá um ecoltalibã enrustido ou um jornalista tentando recriá-la. O fratricídio entre o mundo rural e meio ambiente sempre foi lucrativo às ONGs e aos jornais. Este escriba se esforça muito para estar aqui a expor essa atitude.

Fontes: Blog Código Florestal/Agroicone

http://sna.agr.br/o-matopiba-nao-morreu-entenda-o-que-ha-por-tras-do-estudo-que-decretou-o-fim-do-matopiba/