sexta-feira, 5 de junho de 2020

Mares e portos: literatura e jornalismo



Sabes daquelas crises existênciais que assomem a qualquer hora do dia? Bem, ele experimentava uma dessas de manhã cedo. A experiência não era nova. Nem se lembrava qual fora a mais grave crise e nem quantas foram ao todo.  As crises são oportunidades e, portanto, as pessoas devem se reinventar a partir delas.  Não é o caso de reinvenção. O oficio de escrever não combina bem com esse papo de reinvenção. Uma amiga lhe enviou uma matéria de cultura do jornal da cidade em que se comemorava o dia da poesia. Quando era mesmo o dia da poesia? Essa data importava? Ele fora um dos quatro entrevistados.
Em 1998, o jornalismo maranhense era capaz de dedicar uma página inteira a poesia maranhense. Incrivel. O jornalismo maranhense sobreviveu a esse dia que ficou gravado pelo menos na memória da amiga. Agradeceu o envio da imagem do jornal pelo Facebook sem se inteirar das razões que fizeram com que a amiga não jogasse fora o caderno de cultura e o conservasse por vinte e dois anos em alguma pasta ou algum baú. Vai ver, ela se apegava a pequenas coisas que remetiam a amigos e a partes de sua vida. 
Com certeza, ela só reviu essa página com a foto do seu amigo porque se habituou a revirar as coisas velhas atrás de algo que escapava da sua compreensão. Coisas velhas?!!! O que comprova que uma coisa e velha? A página do jornal envelheceu, na hora de tocar se sente o enrugamento do papel, mas quem mais envelheceu nesses vinte e dois anos foram os quatro jovens que estudavam na Universidade Federal do Maranhão.O que mudou de lá para cá (além da posição dos moveis)? Ou nada mudou (as mesmas leituras)?
As leituras não eram as mesmas se bem que elas não contradiziam o seu gosto tradicional, fechado na adolescência, Machado de Assis e Dalton Trevisan.  A mais marcante dessas leituras recentes fora a de Elias Canetti, escritor judeu húngaro do começo do século XX e que figura como representante do alto modernismo da literatura europeia. Dá para incluir Canetti no modernismo europeu pela diversidade e pela universalidade de temas que ele abordou em seus livros. Conciliar os dois não é tarefa fácil; ainda mais com a sobriedade no trato com  a linguagem.  
Um dos quatro poetas da materia de 1998 se mudou para outro estado e é o único que se orgulha do termo poeta. Por morar em São Paulo e não dar nenhum indicativo que desejasse voltar a residir em São Luis, ele podia ser encarado como o mais universal de todos. Até que ponto  a palavra universal seria correta? A cidade de São Paulo celebra a palavra modernidade e suas reverberações  e não a palavra universalidade. Os outros dois deles ingressaram no serviço público e exercitavam de vez em quando a pena em  poemas (portos)inanimados. Eles velejavam (escreviam) o suficiente para que o gosto do mar (poesia) interagisse com suas bocas (suas intuições). O cenário cultural maranhense desanima os escritores de primeira viagem.
Pode-se perguntar quem ainda escreve poesia em São Luis e no Maranhão. Quem se atreve a escrever nessa cidade onde não se vê quase barcos no leito do rio e não se vê portos abarrotados de pessoas de origens dispares? (Invejava Joseph Conrad, escritor inglês de origem polonesa, que escrevera romances e ensaios com base na sua experiencia de capitão de navio mercante). Os portos de São Luis armazenavam línguas e linguagens em suas vielas. Os portos movimentavam cultura tanto quanto movimentavam negócios. Quem passou a borracha nesses portos para que sumissem do mapa? Quem desenhou os mapas chegou a navegar nas águas violentas do mar(poesia) ou os mapas vieram de sua imaginação? Os desenhos de portos nos mapas nada mais são do que as gravuras de poemas impressos em livros. Para os que nunca souberam o que é um porto e o que é um mar uma breve amostra em uma pagina de um livro ou de um jornal seria um bom começo.      
O litoral maranhense é o segundo maior do Brasil, mas quem o desvendou em suas historias anônimas? Em 1995, ele (o rapaz em crise) escreveu esse poema "nesse dia em que o tédio prevalece pelos lençois que não foram mudados há uma coisa diferente em seus olhos como o tempo que cai maduro das árvores e como os barcos que transportam sal". Esse poema é maritimo (anseia o mar) e como tal ele reflete o mar e reflete sobre o mar ( o mar nunca dorme, Massa e poder, Elias Canetti). Os atos de refletir e de provocar reflexão são as grandes passagens por onde trafega o oficio de escrever.   Os andarilhos escreviam na memoria os caminhos que trilhavam.  Eles refletiam sobre os caminhos que escolheriam e o porquê dessas escolhas. no momento em que escreveu esse poema, ele duvidava dos caminhos abertos. A poesia contrapunha o experimento linguistico ao mais do mesmo do jornalismo praticado nas redações dos grandes jornais maranhenses.  
Ao seu ver, os escritores e os jornalistas teriam o papel de narrar as historias dos seres anonimos que margeiam a historia do Maranhão (os pescadores de água doce e de água salgada compõe um setor da sociedade maranhense que quase não se ouve falar).  O que não falta é anonimato nas cidades e nos povoados maranhenses. Quem quer viver, deve se pautar por viver nas sombras. Por um descuido, pode acontecer de serem descobertos pelo jornalismo. Essa descoberta dura pouco. Na teoria, os julgos narrativos do jornalismo acompanharão tão somente as grandes mudanças socioeconomicas.  Na prática a historia é outra. Grandes mudanças socioeconomicas não ensejam narrativas de mão cheia que dão gosto de ler.O jornalismo para dar gosto de ler precisa da literatura, senão o tédio prevalecerá nos "lençois que não foram mudados".E a literatura para não deixar de se vincular ao cotidiano com seus olhos diferentes, precisa do jornalismo. 

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