segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Vitória histórica da agricultura familiar em Buriti

Um conflito socioambiental se iniciou em 2016 no município de Buriti, baixo parnaiba maranhense. Um conflito a mais ou a menos não faria a menor diferença para a região, pois o baixo parnaiba se configura como uma das regiões do estado do Maranhão com mais conflitos socioambientais. No entanto, o conflito ganhou uma dimensão regional visto que ele afetava comunidades tradicionais que fincaram suas raízes nas Chapadas e Baixões de Buriti há quase cem anos. As comunidades tradicionais do Araça e do Brejão brigaram por quase cinco anos com a empresa João Santos e a família Introvini para que reconhecessem os direitos das comunidades a Chapada do Brejão, uma área de mais de cinco hectares. O grupo João Santos vendeu a Chapada para os Introvini num processo de liquidação de propriedades e ativos com vistas a arrecadar recursos para os herdeiros antes que a justiça decretasse falecnia da empresa e as propriedades fossem hipotecadas. Os dois grupos econômicos negociairam a Chapada mas esqueceram de incluir as comunidades que usufruíam da Chapada e do Baixão. As comunidades se rebelaram contra os propósitos das empresas de fecharem negocio o que acarretaria a expulsão da comunidade do Brejão e o desmatamento do Cerrado com consequências terríveis para o meio ambiente e para a vida das pessoas. As comunidades questionaram a negociação pois duvidavam que o grupo João Santos era realmente proprietário de cinco mil hectares. Em seguida, questionaram o processo de licenciamento aberto pela família Introvini e confirmado pela Secretria do Meio Ambiente do Maranhão. Os questionamentos do licenciamento sugeriam que o estudo de impacto ambiental omitia diversas informações sobre o meio físico e o meio social. As omissões de praxe que a SEMA não investiga. A secretaria licenciou o empree3ndimento que desmatou mais de dois mil hectares sem responder os questionamentos das comunidades e da sociedade civil. Os recentes fatos relacionados com o conflito foram o despejo de agrotóxico sobre a comunidade do Araça e os moradores desta comunidade terem impedido os trabalhos dos funcionários dos Introvini na Chapada. O conflito parou na Vara Agrária porque os Introvini entraram com um interdito proibirotio contra a comunidade do Araça e os caos de conflito agrário não fica mais na comarca e sobem para São Luis. No dia 14 de setembro de 2021 a vara agraria vistoriou a área em conflito e constatou que as comunidades residem do lado desta área o que indica a posse dessa terra e constatou crimes ambientais cometidos pelos Introvini. Para cessar o conflito entre as partes, a vara agraria perguntou se haveria possibilidade de acordo. As partes concordaram. Os introvini continuam com o empreendimento mas abrem mão de várias áreas de Chapada ricas em bacuri que foram desmatadas mas não foram plantadas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Dupla identidade

Na segunda semana de setembro de 2021, a comunidade quilombola de Tanque da Rodagem fechou a rodovia que liga a cidade de Matões ao restante do estado e que passa pelo seu território. Os quilombolas respondiam, dessa forma, a presença de jagunços armados e tratores que derrubavam casas tudo a mando de fazendeiros/plantadores de soja paranaenses que planejam expulsar os quilombolas e despeja-los em algum pedaço de terra qualquer. Os quilombolas de Tanque da Rodagem não reconhecem o acordo aceito pela direção da associação que aceitou uma área de 120 hectares doado pelos fazendeiros enquanto abrem mão de uma área de mais de dez mil hectares. Algumas famílias aceitaram o acordo em que não só abriam mão de suas posses no território quilombola como também assumiam que invadiram a terra a partir de 2010. O agronegócio para desmobilizar as comunidades tradicionais defende e apregoa a tese que essas comunidades invadem terras que se destinam ao plantio de monoculturas como soja e eucalipto. Quem primeiro chegou com essa conversa em Tanque da Rodagem foi a Suzano papel e Celulose que entrou com uma ação de reintegração de posse. Uma empresa que sai sabe Deus de onde ameaça a comunidade de remanejamento para se apossar de seu território e plantar milhares de eucalipto para sua fábrica de celulose planejada em Palmeirais do Piaui. O planejamento da empresa desprovia a comunidade de seu território e comunidade tradicional sem seu território ancestral não se configura como comunidade tradicional porque uma não vive sem a outra. É justo perguntar as famílias que assinaram o acordo: que identidade repousa na terra que os plantadores de soja lhes doaram? Ela equivale a mesma identidade construída por décadas em Tanque da Rodagem? Ou ela terá que se reconstruída com bases sociais vinculadas ao agronegócio?

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os agregados de Buriti do Boi

Os agregados de Buriti do Boi Em que momento a classe de proprietários do Baixo Parnaiba maranhense passou a negar suas relações historicas com os agricultores familiares que para sobreviverem se agregaram como tábua de salvação as suas propriedades? Essa é uma pergunta recorrente com relação ao Baixo Parnaiba tendo em vista o papel que cabe aos proprietários tradicionais no tocante a expansão da fronteira agrícola. O papel dos proprietários tradicionais foi o de facilitar a entrada dos plantadores de soja no Baixo Parnaiba maranhense a partir do final dos anos 90. A característica dessa região nunca foi de grandes propriedades a não ser as clássicas famílias despudoramente latifunidarias como os Lyra, os Leite e os Barcelar. Os pequenos e médios proprietários se atinham a terrenos que começavam no Baixo, perto de cursos de água, e terminavam no topo da Chapada. A propriedade é sempre uma extensão do seu proprietário e de seus projetos econômico e sociais. No máximo, um proprietário anseia com uma casa grande um curral, algumas cabeças de gado e moradores para vigiar a criação. O tamanho médio de uma propriedade dava conta desse anseio. Entretanto, em qualquer conta, entra um senão. No caso das propriedades em questão, o senão é relacionado com o fornecimento de alimento para o gado. A chapada analisando a mentalidade dos proprietários, seria esse ativo econômico ambiental capaz de gerar e fornecer alimentos (capim) as suas criações. E os agregados funcionariam como seus empregados/vigias informais. Esse é o panorama da formação de parte da classe proprietária do Baixo Parnaiba maranhense no século XX. No avançar do século, os proprietários ou envelheceram ou morreram. Em qualquer um dos casos, quem herdou a administração da propriedade não tem os mesmos vínculos nem com a terra e nem com os agregados. No Maranhão, a figura do agregado ainda é uma figura que persiste e essa persistência dificulta o avanço do agronegócio sobre o Cerrado do Baixo Parnaiba porque o agregado é visto como alguém da família do proprietário e assim por diante. Quando o proprietário ou alguém ligado a ele decide vender a propriedade tem que observar os direitos do agregado. Muito difícil isso acontecer. As filhas do proprietário de Buriti do Boi, comunidade tradicional de Chapadinha, vendeu quinhentos hectares de Chapada para um gaúcho chamado Mirto. O documento oirignal da propriedade se refere a uma área de 200 hectares no Baixo e não na Chapada. O Mirto foi fazer os marcos na Chapada referente a sua pretensa propriedade. Os agregados de Buriti do Boi não permitiram porque o gaucho quer desmatar a Chapada para plantar soja e é a área rica em Bacuri. È uma área riquíssima em bacuri e da qual os agregados coletam o fruto e vendem para compradores de Chapadinha e Teresina. Na hora de vender a Chapada para o gaúcho, as herdeiras de Buriti do Boi não pensaram por esse prisma e sim pelo prisma de lucrar em cima de algo que nem é delas.

domingo, 5 de setembro de 2021

Um nome negro/indigena para um igarapé

O jornalista perguntou ao Valber o nome que ele e sua mulher davam ao igarapé que escorria pela sua propriedade de cinco hectares. Valber respondeu uma vez. E mais uma vez. O jornalista desconfiava se mais tarde se lembraria do nome certo. Pediu papel e caneta. O nome soava diferente. A mulher de Valber se sentara a sua frente para conversar e direcionar as pessoas que giravam a sua volta. “Quero lhe fazer uma pergunta”. “Se eu puder responder...”. “ Fora dos limites da nossa propriedade cresceram um bacurizeiro e um pequizeiro. Tenho medo que alguém os derrube para pranchar”. “ Tem alguma forma de impedir que isso aconteça? Quero ir a secrearia de meio ambiente de Santa Rita para que eles me orientem”. O jornalista explicou que não há uma legislação especifica que proteja nem o bacurizeiro e nem o pequizeiro da mata. Para quem não sabe há o pequizeiro da mata e o pequizeiro da Chapada. Este sim é protegido. A inexistência de uma legislação que proteja essas espécies não quer dizer que o cidadão esteja de mãos amarradas. Os bacurizeiros e os pequizeiros são espécies de vital importância para as populações pobres do Maranhão que vendem os frutos em natura ou as polpas de fruta. Os seus frutos carreiam dividendos para a população pobre de Santa Rita ou de qualquer município maranhense. Os frutos dão lucros sem cobrar nada em troca. Assim como o bacuri e o pequi, é a juçara. O Valber e dona Josely, mulher dele, são proprietários de um terreno de cinco hectares, o que daria um certificado de proprietários para eles, mas no fundo, no fundo os dois pertencem ao reino dos extrativistas, pois as juçareiras se encarregam de vicejar por todo o ambiente. Sem o extrativismo da juçara, a renda de Valber e sua mulher despencaria nos primeiros meses do ano. O jornalista insistiu em perguntar o nome dado ao rigarapé para que anotasse no papel e não pudesse esquecer. Valber respondeu: “Nambuquim”. “O que significa?”. “Não sei. O nome vem desde os tempos do avô da minha esposa”. O avô morrera com quase cem anos portanto o nome vinha de muito antes deles chegarem ali. Com quase 1005 de certeza, afirmar-se-ia que o nome possuía raízes indígenas e negras.

sábado, 4 de setembro de 2021

O turismo redutor

O ludovicense bem ou mal sabe direitinho o nome da sua rua e se por acaso alguém perguntar ele responderá com o maior gosto como se fosse a questão de prova que lhe dará um dez graúdo que nem um outro aluno conseguirá. Agora, pergunte se ele conhece rua tal, perpendicular a sua. Nunca ouviu falar. “è por aqui ?”. Constatar esse fato é curioso visto que sendo São Luis uma cidade reconhecida como patrimônio da humanidade pela Unesco os seus moradores deveriam se esmerar em aprender tudo em quanto sobre sua cidade. Não é o que se vê e não é o que se ouve. O ludovicense organiza seu interesse e seu conhecimento de acordo com os pontos turísticos. Antes do turismo virar moda e virar uma indústria em São Luis, o máximo de conhecimento histórico-artistico que um cidadão apresentava a um turista se resumia ao teatro Arthur Azevedo. Para a grande maioria da população fazer turismo combinava com praia e as praias de Sao Luis, pelo menos no quesito visual, conquistavam a atenção de qualquer um que pusesse os pés nela. Com os devidos investimentos em infra estrutura e recursos humanos , passou a se vislumbrar um turismo em que se disponibilizavam riquezas arquitetônicas urbanísticas e sociais através de grandes investimentos nas reformas de espaços públicos e construções historicas e na promoção de grandes eventos artísticos. Em alguns (a)casos, grandes mais na auto promoção do que outra coisa. O turismo, repetindo a mesma experiência de muitas cidades do nordeste, tornou-se a maior indústria da economia ludovicense. Ainda assim, cometendo os mesmos equívocos do turismo praieiro que privilegiava uma visão meramente degustativa da realidade e desinvestindo em setores econômicos capazes de alavancar o próprio turismo. Não se investe em educação voltada para a preservação do patrimônio histórico, não se investe em arqueologia, não se investe em cursos com foco em ecologia, produção de alimentos agroecoloicos e etc. A aplicação dos preceitos do turismo em São Luis reduz os potenciais da cidade a uns meros espaços físicos e umas meras narrativas que os turistas esquecem rapidamente. Como o discurso do turismo seja ele qual for foi montado para atender um publico especifico, a maior parte da população de São Luis o vislumbra em situações especiais. No restante do ano a rotina do empobrecimento intelectual prevalece

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Máquinas pesadas atolam nos campos naturais de Anajatuba

Depois de muito tempo que ele entendeu para onde aqueles dois homens, uma mulher e uma criança se dirigiam. Aquela pequena comitiva tinha por direção as ilhas que se formavam nos campos naturais de Anajatuba quando as águas do rio Mearim subiam. Um dos homens retornava as ilhas para conferir a situação dos seus porcos que soltava no começo do inverno e que buscaria quando o rio baixasse. Programara-se para permanecer longe de casa por dois ou três dias no máximo. Sobre os ocupantes do outro barco (um homem, uma mulher e duas crianças) não prestou muita atenção. Dali onde partiam, podia-se navegar para Arari, Santa Rita, Bacabeira ou quem sabe São Luis. Nas ilhas dos Campos naturais, residem várias comunidades quilombolas que para se deslocarem em tempos de rio cheio navegam em pequenas embarcações a motor e em tempos de rio baixo se deslocam a cavalo ou a pé. Caminhar pelos campos naturais requer uma certa dose de experiência; por mais seco que os campos estejam quem anda pela primeira vez é capaz de atolar com bota e tudo. Os quilombolas que fugiam para essas ilhas pelas razões de sempre (escravidão, briga por terras, ameaças de morte e etc) nos séculos passados deviam passar por sérios apertos ao andarem pelos campos descalços. Eles andavam com pressa e descalços agilizavam os passos para que os seus perseguidores não os alcançassem no meio do caminho. Na pressa, os quilombolas largavam tudo que juntaram na antiga moradia, onde cresceram e formaram família. Os fugitivos escolheram as ilhas como refugio pelos fazendeiros ignorarem esses ambientes. Estes tambem podem ter concluído que os negros não dariam mais trabalho indo para lá. Provável que a ignorância/preguiça dos fazendeiros prevalecera porque difícil enumerar o tanto de ilhas que despontam nos campos e os quilombolas se espalharam por todas elas fundando núcleos. Praticamente impensável para os ignorantes/preguiçosos proprietários devassarem os campos atrás de quilombolas. Os fazendeiros/escravocratas foram espertos em deixar os quilombolas em paz nas ilhas pois temiam ou se perderem ou afundarem nos campos. A historia e a arqueologia dos campos naturais de Anajatuba, Santa Rita e Bacabeira é pouco estudada porque se fosse bem estudada a empresa EDP empresa sino portuguesa de energia tinha aprendido alguma lição com seus antecessores fazendeiros/escravocratas e evitado enviar suas maquinas pesadas revolverem os campos numa época em que ainda há bastante água por debaixo do solo. Deu no que deu, as máquinas atolaram, vazou óleo e peixes morreram.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Os embusteiros

Uma vez ele perguntou o que caracterizava os argentinos. Quem se dispôs a responder, não entendeu a brincadeira. Os argentinos eram exímios embusteiros porque vendiam uma imagem que não condizia com a realidade. Articulava essa ideia em torno da literatura argentina pela qual passara a ter um apreço. Até brincava que Jorge Luis Borges era um tio seu. Se quisesse, podia citar vários parentes seus perdidos pela literatura e pelas ruas de São Luis, cidade onde nascera em 1973. Pois bem, a literatura argentina permite que se brinque com as suas pretensões. A literatura brasileira, ao contrario, é mais séria. Essa vaga ideia de que os escritores argentino tendem ao embuste se alicerça na leitura de vários escritos de Borges em que se depreende um escritor cuja originalidade se baseia nos comentários das obras alheias. Diferente de outros casos, Borges escreve comentários não como critica literária e sim como ficção literária.