domingo, 5 de novembro de 2023

todo principio

Todo princípio de dezembro, ele faz seu experimento para descobrir se o inverno será chuvoso ou não. Coloca sal num papel com os nomes dos meses escritos em vários espaços a noite e na manhã seguinte bem cedo pega o papel para ver como o sal se comportou. Se o sal umidificar os meses relativos ao inverno quer dizer que o inverno será bom. Se ocorrer o contrário, quer dizer que o inverno será fraco. Esse experimento e uma das tantas armas que o agricultor possui para se preparar pelo que vem pela frente. E um experimento cujas raízes históricas vem do catolicismo. Ele acontece no dia dedicado a uma santa católica na segunda semana de dezembro. No imaginário popular os santos e santas intercedem pelos desafortunados. Na total carência de informações técnico científicas, há de se precaver de alguma forma. Os modelos da metereologia atendem os interesses das grandes empresas e grandes fazendeiros. Os agricultores familiares buscam seus modelos nos santos e na religião.

perdia de vista

Ele perdia de vista aquele oceano aquela praia e aquela gente que mal se definia por um olhar. Carecia de mais de mil palavras para descrever. Nem conseguia. O seu dicionário era curto comparado com o oceanes daquelas pessoas. Um oceanes de tal largura de tal profundidade e de tal infinitude. Eles saiam para pescar perto e longe. Sururu, sarnambi, pescada, pacamao, caranguejo E etc. Aprende se a pescar como se aprende a falar. Dona Catarina, chamavam na de proprietária de Santa Maria de Guaxenduba porque ela lutava para que o território da resex/quilombo continuasse com os moradores, lembrava dos dias em que se arrastava pela lama para pescar pacamao num lugar não muito perto de onde conversavam olhando para o oceano e para seus netos que brincavam num córrego de água doce. Ela preparou um suculento almoço para aquelas visitas. Não se quer mais nada: pescada e sururu. E muito oceanes. As visitas almoçaram e uma delas notou alguém se movendo por entre as águas do oceano. Élida filha de Dina Catarina decodificou os procedimentos do rapaz a beira mar. "Ele traz sururu dentro da caixa. Deve ter molhado e quando molha fica pesado pra carregar andando pela praia. Melhor empurrar junto com as águas do mar e no ponto certo sai para carregar sobre a areia da praia". Oceanes puro. As visitas queriam entender aquele mundo bem de frente mas queriam entender o mundo deixado pra trás. Durante o trajeto de São Luís para Icatu se esforçaram para decifrar as palavras que formavam a história daquela região. " O que e Icatu? O que e Guaxenduba?". Aquela brincadeira era só pra passar o tempo? Enfim, eles viram o tempo passar na varanda do restaurante de dona Catarina e Élida.

desmatamento novo

E um desmatamento novo?" Desmatamento novo para eles que não percorriam a região dos cocais havia meses. Pelo descampado, o desmatamento contava com meses de intensa atividade e se tornou visível só mais recente. Os caras do agronegócio não brincam em serviço.O desmatamento que eles vislumbraram ficava entre os municípios de Codo e Caxias. Azar que possuía uma imaginação fértil. Passou a imaginar o que os caras desmataram numa rapidez paralisante. Bacuri, pequi, babacu? Que mais? Para plantar soja? Em uma de suas muitas viagens parara em uma barraca a beira da estrada na qual dois homens vendiam mudas de espécies nativas do cerrado. A barraca se inseria no território da comunidade de Buriti Corrente que se tornara assentamento do INCRA graças a coragem dos moradores que peitaram a empresa costa pinto que e proprietária de milhares de hectares e que planta cana de açúcar. Os dois homens indicaram a existência de várias áreas vendidas para produtores de soja e que nelas podia se encontrar vários pés de bacuri e vários moradores. Estes moradores tiveram que deixar essas áreas. Esse seria o caso das famílias de buriti corrente se não houvessem resistido a pressão da costa pinto.

apenas escreva algo

Apenas escreva algo. Algo honesto. Escreva que se perdeu no caminho. Que os caminhos se modificaram ou se moveram com os desmatamentos das Chapadas para os plantios de soja. Ele colhia bacuri de vários tamanhos todos os anos nas chapadas dos seus parentes. Tanto bacuri que juntava gente na safra entre janeiro e abril. Os proprietários brigavam com quem pegava sem pedir permissão. Os que pegavam sem pedir permissão achavam que não faziam nada de mais e nem nada de mal e continuavam colhendo. Nos meses de verão, as pessoas evitavam as chapadas porque elas vertiam secura. Com as chuvas, a feição das chapadas mudava. O número de pessoas aumentava como se não houvesse outro lugar para estarem. Corriam feito ensandecidos para catar bacuri antes dos outros. A questão entre os proprietários de chapada e os catadores de bacuri nunca se resolveu. Quer dizer, resolveu na hora em que os proprietários venderam suas chapadas para os gaúchos derrubarem os bacurizeiros e plantarem soja. Os catadores de bacuri se lamuriam e nada fazem. Afinal, quem venceu a questão?

cada um

Cada um fala como sabe e como pode. Pressionar para que? Com os paciência, a pessoa solta o verbo e fala até o que diz não saber. Não são todos os dias que se acorda de boa vontade para falar com os outros e ouvir palavras da parte deles. "Paz na terra aos homens de boa vontade...". Fica se devendo o contexto dessa passagem da bíblia, mas encontrar homens e mulheres de boa vontade e muito difícil. Deve se contar com sorte e um bom papo. A dona Catarina e a Élida, sua filha, tiveram boa vontade em atende los naquela manhã de segunda feira em seu restaurante a beira do oceano atlântico no povoado Santa Maria de Guaxenduba. Quase uma consulta, por essa razão o verbo atender. Eles as consultariam sobre um possível projeto de hidrogênio verde que poderia se instalar em Icatu. Hidrogênio verde, fracking gás de transição transição energética são termos que entraram de sola na vida das comunidades tradicionais e quilombolas. Eles as consultariam vislumbrando o oceano atlântico. Poucos pessoas o tratavam pelo nome Atlântico. E bom tratar as pessoas e os espaços pelos seus verdadeiros nomes. Daqui a pouco pode ser que queiram mudar os nomes Icatu santa Maria de Guaxenduba por algum nome mais moderno ligado ao hidrogênio verde.

ekes chegavam a noite

Eles sempre chegavam a noite por caminhos que surgiam inesperados entre campos de soja e a vegetação do cerrado. Nos primeiros anos, Vicente de Paulo, agricultor familiar do povoado Carrancas, alertou o que os plantadores de soja gostariam de desmatar mais de três mil hectares nas chapadas do povoado e dos povoados vizinhos. Se a memória não falhou, essa conversa ocorreu no ano de 2011 em frente a casa do Vicente de Paulo e de Dina Rita. Portanto, perfazem doze anos. Muita coisa mudou desde então. Uma das coisas que não mudaram foi a merenda que dona Rita sempre ofertava a eles em suas aparições noturnas. Galinha caipira, carne de gado, arroz, feijão e salada. Por vezes, ela via o tempo passar e não preparava a merenda. Tudo se resolvia com um café e uma farofa de ovo. Essa conversa de merenda veio a tona porque certo dia dona Rita e Vicente de Paulo viajaram para Brejo numa atividade da igreja católica. Como se diz, os amigos ficaram sem pai e nem mãe. Foram procurar a casa de Marcelo na Chapada da Bacaba. Atravessaram a Chapada de Carrancas, do Coruja das Laranjeiras. Tinham em mente um caminho que na prática se deformou as suas vistas. Desmatamentos e tratores revirando o areal para plantar a soja deslocaram os caminhos para outras direções não especificadas. Aquele cenário perdera o sentido para eles e para os moradores que cruzavam os caminhos todos os dias. Tiveram que voltar e dormiram na casa de Sebastiana filha de dona Rita e Vicente. " Tivesse dito preparava uma merenda para vocês", declarou. Sem problema.

Língua e História

Ele lia uma autora russa e um autor norueguês quase ao mesmo tempo. Não em suas respectivas línguas e sim em traduções para o português. Aprender a língua de um povo significa aprender sua história? Os portugueses que vieram morar no Brasil após o descobrimento em 1500 incorporaram os hábitos e as falas dos nativos e disso se valeram para escravizar indígenas e conquistar seus territórios. O que fica desse "aprendizado" das línguas para a história do Brasil e o que desse aprendizado leva em conta a história desses povos? O conto "O homem que sabia falar javanês" de Lima Barreto ironiza bem essa desconexão entre "saber" uma língua ou mais e narrar uma história ou mais. O personagem principal do conto finge saber o javanês e com esse fingimento assume ares de importância perante o cliente que quer contrata ló para traduzir um livro. Ele não se contenta só em fingir.Ele vai narrar a história de seu fingimento em uma língua (português culto) que poucos tinham acesso porque a maior parte da população era analfabeta. Quer dizer, quem aprendia o português no Brasil culto aprendia a mentir. E quando se usa a língua para mentir se desconhece a sua própria história.