terça-feira, 17 de novembro de 2020

O caminho grande e a solidão

O crescimento urbano de São Luis deslocou o foco das atenções do centro da cidade, que se notabilizou como principal espaço de atividades econômicas, para outras regiões como o norte e o centro leste da ilha. Não se denominava centro histórico a parte antiga. Essa denominação surge a medida que as famílias abandonam seus casarões e mudam-se para casas mais modernas em ruas não muito distantes das ruas onde moravam nos primórdios da cidade. A forma mais usual de expressar movimento era “vou a rua tal”. Com o aumento populacional e de ruas no contexto da cidade, as pessoas passam a se expressar “vou a rua tal no bairro tal”. Tinha vezes que não se sabia o nome da rua. Nesse caso, “vou ao bairro tal vê se descubro onde é a rua tal na qual mora não sei quem”. Numa época em que a cidade crescia, mas não de forma avassaladora, a principal artéria de circulação era o Caminho Grande que existia desde o século XVII. Quem procurava uma casa devia ser tranquilo, afinal pelo caminho moravam poucas pessoas. Pelo final dos anos 40 e começo dos anos 50, o Caminho Grande, na região conhecida atualmente como João Paulo, perde parcialmente o seu aspecto bucólico com as construções do quartel do exercito, de casas e de praças. Existe uma foto tirada do quartel do exercito em direção a praça Duque de Caxias por essa época. A foto é praticamente o Caminho Grande, a entrada do quartel, a praça e um caminhão e diagnosticava a sensação de solidão de viver ou trabalhar naquele espaço físico distante de qualquer coisa (com nada ou quase nada pra se vê e escutar).

sábado, 14 de novembro de 2020

Um golpe chamado proclamação da republica

Os parentes diziam que ele, nos seus primeiros anos, não lia e sim admirava as imagens dos livros que abria, principalmente, os livros de Historia. Em sua casa, no bairro liberdade, os pais compravam a Delta Larousse e a Barsa. As representações de batalhas o atraiam entre tantas imagens. Essas representações estéticas, que ele não sabia quem pintara, confrontavam-no com a excepcionalidade perante a sua rotina familiar e a sua rotina escolar. Aprendia-se Historia pela fixação em imagens e datas historicas. Decoreba, quer dizer. A imagem de Marechal Deodoro da Fonseca empunhando um sabre, em cima de um cavalo, e proclamando a república no dia 15 de novembro de 1889 era inesquecível para uma criança. Quem escreveu o texto não explicava quem fora Deodoro da Fonseca, os motivos que o levaram a proclamar a republica, quem Deodoro depunha com seu ato solitário, o que vinha a ser a republica e etc. Os livros se dirigiam a crianças e, como tais, ressentiam-se de uma romantização individualista dos grandes eventos sociais e políticos pelos quais a sociedade brasileira passara. As pinturas de cenas historicas da realidade brasileira seguiram um modelo importado da pintura neo clássica francesa, vide o caso de Pedro Américo que pintou a proclamação da independência e cenas de batalhas da guerra do Paraguai. O pintor não se intimida com a absoluta falta de dados e imagens sobre o evento (Pedro Américo não esteve no riacho Ipiranga e nem no Paraguai). Ele explora essa insuficiência de informações dele e do publico e carrega as cores e tensiona as linhas em representações estéticas de conflitos em que o Brasil venceu. Contraponha-se as pinturas de Pedro Americo a pintura do assassinato de Marat herói da revolução francesa feita por David e certifique-se a grande diferença entre o neoclassicismo francês e seu herdeiro brasileiro. A imagem vista no livro de ensino fundamental ressalta uma vitória protagonizada por Deodoro da Fonseca, em frente ao palácio onde morava família imperial, mas ele venceu quem e o que num golpe chamado proclamação da republica?

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A fotografia filosófica

A fotografia os impelia a se reunirem e a conversarem pelos cafés de São luis. Um deles, filosofo fotografo, estava a um passo a frente dos demais. Conduzia o olhar na (in)certeza de que aquela cena não se repetiria. Quis saber se a foto da sacada de um casarão ficara boa. Havia ficado. “Dá pra ver os pombos voando? Eu joguei pedra neles para voarem.” Não viu pombo algum na fotografia. Os amigos afirmavam que suas fotos só saiam boas porque ele fotografava em celular. Ele não era um desses amigos. Via no filosofo fotografo uma timidez de alguém pouco afeito a exposição. Os vendedores insistiam que comprassem seus produtos (bregueços) na Feira da Praia Grande. O filosofo fotografo (FF) teve um lampejo e perguntou ao vendedor se poderia fotografa-lo. Obteve um sim. Acabara de almoçar um cozidão e planejava se reunir com o jornalista fotografo (jf), o jornalista radialista (jr) e a historiadora fotografa no café da praça João Lisboa. Deu uma preguiça no jornalista escritor (je) que sugeriu ao amigo que fosse à frente porque iria em seguida. ‘Não. Posso te esperar.” A conversa do Mercado das Tulhas ao Café se concentrou nos casarões históricos e no fato de que a habitação social não garantiria a valorização desses casarões. Precisaria da habitação social e da implantação de pequenos negócios. E falando de negócios, o jornalista radialista disse para o filosofo fotografo “Diz para o jornalista escritor vender o latifúndio dele em Codó e daí a gente compra um casarão histórico na rua de Nazaré e implantar os nossos respectivos projetos.”

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Os sabiás não cantam em palmeiras artificiais

O povo de São Luis ( esse ser abstrato que pode ser tanto uma referência a massa como ao grupo familiar no qual a pessoa se integra) mantem um habito de batizar as suas ruas com mais de um nome. A rua Couto Magalhães, bairro Monte Castelo, não mudou nada em sua fisionomia em mais de três décadas e nem as pessoas esqueceram os outros dois nomes pelos quais ela é conhecida e chamada: rua Ramon Afonso e Rua Mariana. A pessoa se for pedir um uber escrevendo o nome Couto Magalhães, pode esquecer. Agora se escrever rua Ramon Afonso, o Uber chega fácil. O nome rua Mariana se deve a existencia de um conjunto de casas pra alugar cujo nome é Vila Mariana. Contradizendo o que foi escrito anteriormente, a rua Couto Magalhães nos últimos anos mudou sua fisionomia pelo menos num aspecto. Construiu-se ou se reformou casas que assumiram caráter de casa que aluga quartos para pessoas de cidades do interior do Maranhão que vem a São Luis estudar ou se tratar nos hospitais Sarah Kubitschek e Aldenora Bello. Outras ruas do Monte Castelo também experimentaram essa inflexão. Casas, antes abandonadas ou parcialmente ocupadas, viraram pousadas. A demanda crescente incentivou as pessoas a se especializarem na prestação desse tipo de serviço de hospedagem e a investirem um montante de dinheiro na reforma das suas casas com essa finalidade. A economia de São Luis, como as ruas, mantem sua fisionomia tradicional de muito dependente dos investimentos praticados pelo Estado há mais de um século. Os investimentos feitos pelo poder público na reforma da praça João Lisboa implicam uma serie de dúvidas ao fim de sua execução. Por mais criticas que tenham sido feitas às reformas da praça Deodoro, não se pode negar que essas reformas resultaram em maior mobilidade para as pessoas que rumam para as ruas Passeio, Grande, da Paz, do Sol e Rio Branco. Não há motivos para que as pessoas permaneçam por mais tempo que o normal à praça Deodoro. A biblioteca Benedito Leite, construção neoclássica inaugurada nos anos 50 que a reforma valorizou, é uma estrutura física que afasta as pessoas. O neoclassicismo como gênero artístico abraça a ordem. A praça João Lisboa se diferencia da Deodoro. Ela não é um ponto de partida (caso da Deodoro) e sim um ponto de chegada (acolhimento). Por que privilegiar obras de recuperação de piso (igual a Deodoro) e não obras de recuperação ou melhoramento do paisagismo para acolher as pessoas (diferente da Deodoro)? A reforma da rua Nazaré que seria um ótimo exemplo de um paisagismo refrescante, exemplifica a pobreza do paisagismo executado pelo poder pulico ao plantar palmeiras. Nessas palmeiras artificiais, os sabiás não cantam. Comentários

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Aindal, quem lê Raimundo Correia?

O Monte Castelo, para ele, representava o mundo social com sua igreja, sua praça, sua banca de revista, seu comércio, sua parada de ônibus e seu cinema e tudo isso em poucas ruas pelo qual ele passava em dias de assistir missa ou em dias de comprar revista em quadrinhos. Essa compreensão do espaço urbano começou a se transformar em 1987 quando sua família comprou uma casa em uma rua do Monte Castelo e mudou-se da Liberdade. Nesse processo de mudança, ele foi apresentado ao caminho por onde trafegara o trem São Luis-Teresina. O mundo era um pouco maior do que presumia sua consciência em formação. Vivera treze anos no bairro Liberdade, bairro de origem negra e de pessoas pobres que não tinham saneamento básico , segurança publica e coleta de lixo, e viveria dali em diante num bairro de classe média com mais opções de transporte e de educação. Os primeiros anos no Monte Castelo viram seu mundo se alargar mais um tanto quando visitou um colega do colégio Maristas que morava à rua Raimundo Correia e cujo irmão lhe emprestaria os discos do Black Sabbath. O Monte Castelo não era somente a parte alta como concluira. A rua Raimundo Correia aparentava ser uma rua sem saída, pois para se sair virava-se no sentido Bom Milagre ou virava-se sentido Paulo Frontin. A aparência da rua, nos anos 80 e parte dos anos 90, não condizia com a trajetória do escritor parnasiano Raimundo Correia, a quem ela homenageava (homenagem a um escritor que nasceu em um barco no litoral maranhense e que viveu a maior parte da sua vida longe do Maranhão). Os esgotos corriam a ceu aberto e o pequeno mercado se desmanchava a olhos vistos o que o descredenciava como referência para possíveis compradores do bairro. Intervenções do poder publico (governo do estado e prefeitura) fizeram com que esse lado mais visível se modificasse paulatinamente. A mais recente intervenção vem a ser a reforma do mercado do Monte Castelo depois de anos deixado as traças. Com essa reforma, o mercado se credenciara como espaço de compras para o publico consumidor do Monte Castelo. Um bairro com poucas opções de lazer e de cultura e, ao mesmo tempo, um bairro que pode se gabar de uma homenagem feita a Raimundo Correia. Não se gabou ate hoje. Afinal, quem se gaba de ler Raimundo Correia?

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O "principe dos poetas brasileiros" e o bairro Monte Castelo

Uma vez, conversando com um amigo, ele aventou a possibilidade de desenvolver uma pesquisa que elencasse as diversas ruas de São Luis cujos nomes se referiam a personalidades literárias e os motivos que levaram as pessoas a prestarem homenagem aquele escritor(a). O amigo não pensou duas vezes e desferiu “Tremenda bobagem”. A repreensão desferida não surtiu o efeito (in)desejado pelo amigo inclemente. A pesquisa tinha esse caráter de “bobagem”, mas só na aparência. Aquele primeiro revés retardou os seus propósitos por alguns meses e serviu para mudar a feição do que pretendia. No fundo, ele continuava pretendo o de sempre. Desenhar (elaborar) um mapa literário das ruas de São luis. Um mapa que ligasse literatura com o cotidiano das pessoas do Monte Castelo e de outros bairros. Como faria a pesquisa era o X da questão. Uma rua não saia de sua cabeça: a rua Olavo Bilac. Olavo Bilac virou um poeta chato para as gerações que descobriam a literatura pelos olhos da semana de arte moderna de 22. Isso se deve ao seu comprometimento com uma visão formal da literatura e da arte em que a forma tem mais importância que o conteúdo. Quem sabe perguntaria a cada um dos moradores da rua Olavo Bilac, vizinha a sua rua, se eles tinham ideia desse preconceito com relação ao poeta parnasiano e se eles tinham ideia quem fora o “sábio” que defendera essa homenagem ao “príncipe dos poetas brasileiros”. As pessoas criticam Olavo Bilac pelos seus versos parnasianos que transparecem uma obediência aos cânones parnasianos que deliberam a arte como espelho da realidade sem que se penetre no intimo desta, mas ignoram o seu lado cronista da cidade do Rio de Janeiro do começo do século XX crônicas que abordam a intensa urbanização por que passava a cidade e a crescente expulsão dos moradores pobres do centro. Possivelmente, a pesquisa descortinaria visões histórico e sociais de um Monte Castelo reservado, conservador e católico.

As fotos

As vezes, fica-se olhando as fotos de São Luis.. As fotos de uma São Luis que não se viveu e nem se viverá, pois a foto se refere a um ano enterrado em segredo em algum cemitério do centro da cidade.