quinta-feira, 8 de outubro de 2026

sanharo

Assim que desembarcaram, Dona Angelita provocou o galego: "Você lembra meu neto. Ele não corta o cabelo". A tirada matreira fez com que ele soltasse uma risada. "Quantos anos tem seu neto?" "Ah!!! não sei. Deve ter uns vinte e poucos anos", respondeu com impaciência. "Ele mora em Chapadinha?" "Não, ele mora aqui mesmo na comunidade". Por um momento, ele teve um vislumbre de como seria esse neto. Ele não ficou embaraçado pela provocação de Dona Angelita. Ele lembrava seu neto assim como ela lembrava dezenas de avós que conhecera pelo Maranhão afora. Os parentes de dona Angelita foram se achegando aos poucos para a reunião com o Fórum Carajás como se cada passo fosse uma indagação. Como tudo em Sanharó é de memória, dona Angelita puxou a informação de que os Amorim não tem documentação da área onde residiam. Essa foi uma ocasião especial para a comunidade do Sanharó, beira do rio Munim, porque o Fórum Carajás veio de muito longe para entreter os moradores com informações sobre meio ambiente, identidade quilombola, produção agrícola, licenças para mineração e etc. Quando se despediam, dona Angelita incorporou uma receptividade quase extinta daquelas que só existem na memória dos mais velhos : "Quando vier de novo avise para preparar uma galinha caipira". É nas comunidades tradicionais e quilombolas que as memórias se iluminam e nessa iluminação as coisas voltam aos seus lugares legítimos.

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