domingo, 8 de novembro de 2015
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
A (não) Reforma Agrária desenvolvimentista do Matopiba no Maranhão
Em
Artigo, Saulo Barros aborda a problemática do Plano de Desenvolvimento
Agrícola (PDA) do Matopiba, que abrange parte dos estados do Maranhão,
Tocantins, Piauí e Bahia. O Artigo traz ainda os conflitos no campo na
área onde o governo pretende implantar o plano. Conflitos que tendem a
acirrar. Confira:
(Por Saulo Barros da Costa*)
O modelo de desenvolvimento econômico e social com base nos
monocultivos, atrelado à máxima exploração de biomas e à perspectiva de
hegemonia territorial agroexportadora, são marcas do Plano de
Desenvolvimento Agrícola (PDA) do Matopiba, assinado pela presidente
Dilma Rousseff e a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(MAPA), Kátia Abreu, em 6 de maio de 2015. São ares de mundialização da
agricultura brasileira (Oliveira, 2014) em territórios do Cerrado
maranhense.
O Plano é demarcado na circunscrição dos estados do Maranhão,
Tocantins, Piauí e Bahia, passando pelos biomas Cerrado (90,94%),
Amazônia (7,27%) e Caatinga (1,64%), que chega à grandeza de 143 milhões
de hectares. O bioma Cerrado é alvo do Plano devido à espaçada
concentração espacial de empreendimentos agrícolas, com grande
notoriedade para as microrregiões de Barreiras/BA, Gerais de Balsas/ MA,
Alto Parnaíba Piauiense/PI e Jalapão/ TO. São os grandes expoentes
produtores de soja da dinâmica nacional.
Com acordo de cooperação direta entre Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (INCRA), através do Grupo de Inteligência Territorial
Estratégica (GITE), foi formulado um Sistema de Inteligência Territorial
Estratégica (SITE). Este Sistema é composto de escolhas de fatores
territoriais como divisão administrativa, dinâmica econômica e natural,
para escolha de cinco elementos que são: quadro natural, quadro agrário,
quadro agrícola, quadro de infraestrutura e quadro socioeconômico.
Estes estudos iniciaram em 2010 e balizaram notas técnicas, que
justificassem a criação do decreto presidencial nº 8.447.
Das 31 microrregiões eleitas pelo SITE, 15 são maranhenses, que
totalizam 132 municípios e 23.982.345,87ha, referentes a 72,25% do
território estadual. Dentro desta delimitação, o PDA do Matopiba adota
antecipadamente que deste montante de terras, apenas 23,7% encontra-se
legalmente ocupadas por Unidades de Conservação (14), Terras Indígenas
(15), Assentamentos (400) e Quilombos (23). A inicial premissa é que
18.530.709,87ha podem receber incentivos e investimentos de diferentes
magnitudes, com objetivo de expansão do agronegócio e alcançar novos
horizontes de exportação.
O território em questão do Matopiba possui outra face que não está
posta nos estudos do GITE, mas que assinala a trajetória de povos e
comunidades tradicionais do Maranhão, diante dos conflitos permanentes e
estrutura agrária concentrada e exploradora. Segundo dados do caderno
de Conflitos no Campo – Brasil (CPT, 2014), das 123 ocorrências de
conflitos no campo no ano passado no Estado do Maranhão, 82 estão na
delimitação do Matopiba, totalizando 5.522 famílias atingidas e em
conflitos permanentes nas relações de trabalho, com exploração e
expulsão de seus territórios, tanto pelo poder público como privado. O
Matobiba se caracteriza como um novo (velho) investimento que possui em
sua constituição a perpetuação desta estrutura social e agrária.
As denúncias são enfáticas ao descreverem a violência do Poder Público,
como no município de Santo Amaro do Maranhão, localizado na
microrregião dos Lençóis Maranhenses. 1149 camponeses e ribeirinhos em
conflito com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio), em busca de permanecerem em seus territórios e desenvolverem
suas práticas. Não será a criação de clusters produtivos que almejará a
mudança devida para as comunidades; é a permanência, a autonomia e os
seus territórios que estão em questão.
A comunidade quilombola Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru Mirim,
vivência um conflito histórico com a Vale pelo acesso e retomada de seu
território. São 500 famílias que são dilaceradas pelos trilhos da
Ferrovia Carajás, que impedem a dinâmica e acesso ao território. Apesar
do recente decreto assinado em 22 de junho de 2015 pelo Governo Federal,
a demonstração oficial de interesse para fins de desapropriação apenas
representa instância da luta, mas não sua efetividade. Os conflitos,
ameaças e explorações continuam, apesar de também serem entendidos
dentro da perspectiva econômica agrícola do Matopiba. A conflituosidade
mostra que o embate não está na política desenvolvida nacional ou
estadualmente, mas na efetiva mudança na trajetória do capitalismo que
concebe o campo como fins de exploração. O território é a vida dos povos
e comunidades.
O Matopiba é mais uma política moderna (e colonial) nos moldes
capitalistas que tem como base as cinco dimensões de recortes
territoriais, abrangidas pelo SITE: quadro natural, agrário, agrícola,
infraestrutura e socioeconômico. E os elementos culturais, políticos e
identitários? Ou será a aptidão natural e econômica que possibilita a
reprodução camponesa de povos e comunidades tradicionais? Santa Rosa dos
Pretos e o território Gostoso, Pati e Barro, em Aldeias Altas,
desenvolvem a aversão histórica política às bases do Matobipa:
autonomia, gestão e permanência territorial, segundo suas práticas e
saberes ancestrais, demarcando as bases de suas relações de poder.
Todo o impulsionar desta política segundo demandas do agronegócio,
encravadas na história de municípios como Balsas/MA e Barreiras/BA, é
arquitetada por um conglomerado logístico e exportador. Não obstante,
novos investimentos nos transportes, armazenamento e logística estão em
curso, como nos rumos das conversas ainda no primeiro mês do governo
Flávio Dino e a ministra Kátia Abreu. Tanto a expansão do Porto do
Itaqui, construção de terminais de grãos, quanto a possível criação do
porto privado da Suzano Papel e Celulose S. A. em São Luís, quanto as
disputas atuais na mudança radical no Plano Diretor da Ilha de São Luís,
são elementos desta engenharia, que atende um ramo econômico
territorial mundial, devastador em suas práticas, e resultante apenas em
commodities agrícolas, além da celulose. Na verdade o Matopiba é o
próprio agronegócio.
Na essência estamos diante de um modelo estratégico militar de controle
territorial, denominado de Sistema de Inteligência Territorial
Estratégica (SITE), do Matopiba. É uma prática de controle do território
pelo capital, com propagandas de emprego e renda, com intenções de
condicionamento ideológico e imaginário das comunidades e povos
tradicionais. Em tempos de crise econômica e fiscal, apenas fundamenta a
posição pela não reforma agrária e abissais concentrações no espaço
geográfico nacional, com bases num desenvolvimentismo agrário
exportador.
A (não) reforma agrária é explicitada quando, mais uma vez, comunidades
são vilipendiadas em greves de fome, como no último mês de junho, na
sede do Incra Regional Maranhão, demonstrando como a política
territorial nacional é escrita, privilegiando o desenvolvimento de
monocultivos em detrimento dos territórios das comunidades rurais.
*Geógrafo, doutorando em Geografia pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE), e agente da Comissão Pastoral da Terra no Maranhão
(CPT-MA).
Comunidade do Cajueiro protesta novamente contra o licenciamento ilegal da SEMA e contra o governo do estado no caso do retroporto da WPR
Na
manhã desta quinta-feira, dia 05/11, os moradores do Cajueiro
realizam novos protestos contra a decisão da SEMA de validar a
Licença Prévia e retomar o processo de licenciamento – ilegal –
do retroporto da WPR, que pretende se instalar na Comunidade.
Foram
várias reuniões entre a comunidade e representantes do governo,
desde antes de o governador Flávio Dino assumir.
Numa
delas, realizada no dia 4 de novembro do ano passado, antes mesmo da
posse, o então futuro secretário da Articulação Política do novo
governo, senhor Márcio Jerry, disse ao Cajueiro e demais comunidades
ameaçadas pelo projeto de construção do megaporto da WPR na área,
que direitos seriam respeitados; que não haveria "assimetria de
tratamento"; que o diálogo seria a marca, e que nenhum secretário
faria nada que não estivesse em consonância com o governador, cuja
última palavra daria em cada decisão, já que a responsabilidade
era dele, por ter sido ele o eleito pelo povo.
A
partir daí, reuniões com os secretários de Direitos Humanos, com o
de Indústria e Comércio, com o de Meio Ambiente, de Segurança
Pública, Igualdade Racial, nas quais sempre se ressaltava o "novo
momento" de se ouvir as comunidades, num "diálogo aberto",
em processos administrativos transparentes e que levassem em
consideração seus direitos.
Além
das ameaças ao Cajueiro, as comunidades expuseram que sempre estão
expostas à tomada de seus territórios em razão dos interesses dos
ditos grandes projetos para a região, e que há uma forma de impedir
essas expulsões e assegurar tranquilidade para as milhares de
famílias que habitam a zona rural há décadas: permitir a criação
da Reserva Extrativista de Tauá-Mirim, cujos estudos já estão
devidamente concluídos pelo Governo Federal, sendo atestada sua
necessidade para toda a Ilha de São Luís.
Sobre
a Resex de Tauá-Mirim, até hoje vigora o silêncio herdado dos
tempos de Roseana Sarney, que aponta para a permanência da ameaça à
zona rural da Ilha.
Sobre
o Cajueiro, um passo foi dado em razão da pressão da comunidade: a
suspensão do decreto irregular dado pelo "governador-tampão",
o ex-deputado Arnaldo Melo, que entregava a área do Cajueiro para a
WPR. Ocorre, apesar de todas as ilegalidades fragrantes expostas pela
Comunidade e das várias ações judiciais que tramitam e vem
decidindo pelo direito possessório dos moradores, a resposta do
governo foi a pior possível. Após nove meses, sem
qualquer transparência, publicização e análise jurídica das
ilegalidades suscitadas, o governo promove o retorno de TODAS
AS AMEAÇAS CONTRA O CAJUEIRO.
Há
poucos dias, apareceu no jornal O Estado do Maranhão um aviso de
Requerimento de Licença Ambiental de Instalação feito pela WPR à
SEMA (Secretaria Estadual de Meio Ambiente). Ora, para se requerer a
LICENÇA DE INSTALAÇÃO, é preciso já ter a LICENÇA PRÉVIA –
LP (que havia sido suspensa mas não cancelada). E esta LP, ao
contrário do que a lei determina, nunca fora publicada. Pior: a SEMA
nem sequer fornece vista e cópia do processo de licenciamento aos
interessados. E o faz porque está ciente de que a WPR não possui a
certidão de uso e ocupação do solo, requisito básico para o
projeto, e sabe que, sob o caso, pairam graves suspeitas de grilagem,
que estão sendo investigadas.
Com
isso, a Comunidade do Cajueiro declara seu repúdio ao
licenciamento ILEGAL, SEM TRANSPARÊNCIA, SEM QUALQUER
RESPEITO AOS DIREITOS, e aponta para a RUPTURA, por
parte do Governo, do diálogo que vinha sendo travado com a
comunidade.
GOVERNADOR
FLÁVIO DINO, A COMUNIDADE DO CAJUEIRO E A SOCIEDADE MARANHENSE
EXIGEM RESPOSTAS CLARAS SOBRE ESTA SITUAÇÃO!
Para
maiores informações:
Clemir
– CPT (98) 98246-7695 / 99163-3065
domingo, 1 de novembro de 2015
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